As eleições de 2026 colocam novamente no centro do debate as filas, o acesso a consultas, exames, cirurgias e tratamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O custo dessa espera, porém, não se resume a quem precisa do tratamento. Há uma presença que muitas vezes passa despercebida, mas que é essencial no agendamento, no acompanhamento de exames e consultas e na insistência para garantir a continuidade do cuidado. E, no Brasil, uma parte significativa desse trabalho ainda é realizada pelas mulheres. Mães, filhas, esposas e netas que reorganizam a própria rotina em função do cuidado de outra pessoa.
Há nove anos, a crocheteira e professora de crochê Eliane Almeida, de 35 anos, organiza a própria vida em torno dos atendimentos de saúde da filha mais nova, que precisa de acompanhamento médico desde o nascimento. Embora seja casada, é Eliane quem, na prática, concentra a maior parte da responsabilidade pelo cuidado. Para conseguir acompanhar a filha, precisou deixar de trabalhar fora de casa e reorganizar o trabalho que realiza por conta própria.
Buscar o SUS é insistir, e custa muito. Porque ocupa meu tempo, que eu podia tá estudando, podia tá fazendo outros serviços. Eu estou ali insistindo e correndo atrás do SUS por atendimento de saúde. É constante na minha vida.
Eliane Almeida
A experiência de Eliane ajuda a dimensionar uma parte do trabalho de cuidado que não aparece quando se contabilizam apenas consultas, procedimentos ou pessoas que aguardam atendimento. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais desenvolvida pelo IBGE, em 2022, mais de 2,5 milhões de mulheres entre 15 e 29 anos ficaram fora do mercado de trabalho em razão das responsabilidades relacionadas aos cuidados e às tarefas domésticas.
No caso de Eliane, esse custo aparece na forma de tempo, renda e projetos adiados, mas também na dificuldade de garantir que o tratamento da filha tenha continuidade. Em um dos serviços em que busca atendimento, ela está há dois anos esperando por um retorno.“Minha filha tem um lugar onde ela é atendida constantemente desde que nasceu, hoje ela tem 9 anos e não tem esse problema. Mas já tem outro lugar que eu não consigo retorno. Tem dois anos precisando de um retorno e não consigo”, conta.
Para ela, parte do problema está no fato de pacientes que já estão em acompanhamento disputarem a marcação com quem ainda tenta conseguir a primeira consulta. “Coloca as pacientes que já são atendidas na mesma fila de quem quer entrar. A demanda é muito grande tanto pra quem quer entrar, quanto pra quem já está. Mistura tudo e vira essa confusão, porque nem consegue retorno e nem consegue o atendimento.”, desabafa.
Quando esperar também é cuidar
Os dados do Ministério da Saúde apontam para uma média nacional de espera para consultas especializadas em torno de 57 dias, com variações que chegam a 150 dias (5 meses), em territórios com menor oferta dos serviços. Já para exames mais complexos, a espera pode levar de 300 dias a mais de dois anos.
As informações ajudam a dimensionar o tamanho das filas, mas a experiência de Eliane mostra que o impacto da espera não termina quando uma consulta é finalmente realizada. Para pessoas com condições crônicas ou que precisam de acompanhamento regular, a dificuldade pode estar justamente em conseguir permanecer no cuidado: retornar ao especialista, realizar exames, renovar prescrições e dar continuidade ao tratamento. Enquanto o Estado não se responsabiliza, são as cuidadoras que assumem o trabalho invisível que vai desde o cuidado paliativo ao suporte emocional.
Debater o acesso à saúde pública, portanto, torna-se ainda mais complexo. É urgente ampliar a capacidade de atendimento nos serviços de saúde. Mas também é necessário otimizar o fluxo de atendimento e garantir que a vida de quem exerce o trabalho de cuidado não seja penalizada pelas ausências do Estado.
Completar o ciclo de cuidado garantindo a responsabilidade do Estado
É neste sentido que as propostas apresentadas para essas eleições precisam de uma análise cuidadosa. No cenário eleitoral nacional, as propostas para a saúde se expressam com visões diferentes sobre o papel do Estado na redução das filas e na ampliação do atendimento, gerando debates sobre a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre o espaço destinado à iniciativa privada. Considerando que a participação da rede privada no SUS não é nova e está prevista de forma complementar, também está colocado em questão o tamanho dessa participação e em quanto o sistema público passa a depender dessa estrutura.
A plataforma de continuidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende ampliação da estruturação pública da rede, melhorando o sistema de marcações por meio do Programa de Redução de Filas, com uma fila única nacional digital, organizada por área e critérios de risco. Ele também propõe ampliar e modernizar equipamentos, policlínicas e hospitais, além de expandir o terceiro turno nos serviços de saúde, as Carreatas da Saúde e os mutirões de diagnósticos e cirurgias. Também propõe a continuidade de programas como o Mais Médicos e Agora Tem Especialistas que também prevê a participação da rede privada para ampliar a oferta de consultas, exames e cirurgias.
Esse modelo atribui ao setor privado uma função complementar e regulada: utiliza chamamentos públicos, compensações tributárias e mecanismos de conversão de débitos tributários de instituições privadas participantes para ampliar a oferta de consultas, exames e cirurgias, com os atendimentos inseridos na regulação do SUS e submetidos a regras de registro, monitoramento e controle pelo poder público.
Em contrapartida, o plano de Flávio Bolsonaro (PL) propõe a criação do programa “Brasil sem Fila” e aposta no uso de tecnologia e no aproveitamento da estrutura privada para reduzir as filas. A proposta prevê contratar serviços e exames nos horários ociosos de clínicas e hospitais particulares, sob o argumento de atender mais pessoas sem construir uma nova estrutura para parte dessa demanda.
O que parece uma solução simples, no entanto, acende um alerta para a continuidade do fluxo, já que ampliar o atendimento por meio de diferentes prestadores privados exige garantir que consultas, exames, retornos e acompanhamento permaneçam integrados ao percurso do paciente dentro do SUS.
Na mesma linha, os dois principais candidatos ao governo da Bahia apresentam propostas estruturalmente diferentes para solucionar a questão das filas de atendimento e o tempo de espera na regulação. O atual governador e candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues (PT), defende a manutenção e expansão da rede 100% pública por meio da regionalização de hospitais e das Policlínicas Regionais de Saúde, alinhando-se à estratégia nacional “Agora Tem Especialistas” do governo federal.
Por outro lado, o candidato da oposição, ACM Neto (União Brasil), aposta na descentralização e em uma maior abertura à iniciativa privada com o programa “PIX Saúde”, que propõe a compra de vagas e procedimentos em clínicas e hospitais particulares para agilizar os atendimentos mais urgentes. Essa divergência central impacta diretamente a lógica de organização do SUS e a rotina das famílias. Na prática, a proposta amplia a participação da rede privada na realização dos atendimentos, mas não detalha como será garantida a continuidade do cuidado após o procedimento, incluindo retornos e acompanhamento do paciente dentro do fluxo do SUS.
O cuidado como política pública
Resolver a questão dos atendimentos, com garantia de continuidade nos tratamentos, é urgente, mas é necessário pensar em condições estruturais para que o trabalho de cuidado seja reconhecido. A Lei nº 15.069, de 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados e estabeleceu que todas as pessoas têm direito a cuidar, a ser cuidadas e ao autocuidado. Ela determina a responsabilidade do Estado, em corresponsabilidade com famílias, setor privado e sociedade civil, e prevê ações que permitam compatibilizar trabalho remunerado, necessidades de cuidado e responsabilidades familiares.
A política ganhou um plano de implementação com o Plano Nacional de Cuidados, “Brasil que Cuida”, lançado em 2025. O governo federal prevê R$ 25 bilhões em investimentos até 2027, distribuídos em 79 iniciativas. Entre as ações estão a ampliação de creches, cuidotecas, formação de profissionais do cuidado, lavanderias públicas e restaurantes populares. O plano também estabelece entre seus eixos a garantia de direitos para quem precisa de cuidados e para quem cuida de forma não remunerada.
O “Brasil que Cuida” também contribui para ampliar o debate público sobre a ideia de que as tarefas domésticas e o trabalho de cuidado são atributos naturais das mulheres, e amplia o campo da discussão eleitoral: não se trata apenas de perguntar quantas consultas, cirurgias ou vagas serão ofertadas, mas também de considerar quem sustenta, no cotidiano, o trabalho necessário para que essas políticas alcancem as pessoas.
Para Eliane, essa dimensão é concreta. O tempo gasto em filas, deslocamentos, marcações e tentativas de retorno é tempo que deixa de ser destinado ao trabalho, aos estudos e aos próprios projetos. “Eu tive que parar de trabalhar fora, trabalho pra mim mesma, justamente para tentar esse tempo, tentar conseguir esses atendimentos de saúde que não são nada fáceis. E eu sinto na pele todos os dias.”
Nas eleições de 2026, discutir o acesso ao SUS também significa olhar para esse tempo que não aparece nos sistemas de regulação. O tempo de quem acompanha, marca, espera, se desloca, insiste e reorganiza a própria vida para garantir que outra pessoa consiga ser atendida. Um trabalho de cuidado que, como mostra a história de Eliane, também tem consequências econômicas, profissionais e pessoais e que precisa fazer parte da discussão sobre quais políticas públicas serão construídas nos próximos anos.





