Teresinha precisa plantar o dobro de mudas, porque as hortaliças não estão crescendo como antes. Valéria perdeu toda a sua produção de grumixama (fruto semelhante à cereja) por conta de um período de frio atípico. Angélica sentiu os efeitos de um longo período sem chuvas em sua plantação de café. As experiências dessas agricultoras ouvidas pelo Nós, mulheres da periferia refletem como a crise climática tem impactado o cotidiano de mulheres que trabalham produzindo alimentos. Nesta reportagem, elas contam como têm enfrentado esses impactos e como veem as políticas públicas em torno da agroecologia.
Esses efeitos são sentidos globalmente. Segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), até 2100, 34% das terras de cultivo atuais poderão ser inadequadas para a produção de alimentos devido à crise do clima. No contexto brasileiro, vale destacar que a agricultura familiar tem papel importante na alimentação da população. De acordo com o Censo Agropecuário 2017, esse tipo de agricultura representa 77% dos estabelecimentos agropecuários, mas ocupa 23% da área.
Em meio a esses dados, existem histórias agricultoras do campo e da cidade que enfrentam a instabilidade do clima para continuar produzindo alimentos para as suas comunidades. “É importante destacar o papel das mulheres na agroecologia, na segurança alimentar e nutricional, na saúde das comunidades. Elas estão sobrecarregadas porque quando falamos de mudanças climáticas, falamos que a água fica mais distante, que é mais difícil produzir alimento. Isso gera uma sobrecarga gigantesca para as mulheres, porque são elas que estão cultivando esses alimentos, buscando água, cozinhando”, afirma Helena Lopes, pesquisadora em Agroecologia e Mudanças Climáticas.
Helena coordenou a pesquisa-ação “Agroecologia, Território e Justiça Climática”, realizada de abril a junho de 2025 pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). O levantamento analisou 503 experiências de agroecologia que têm promovido adaptação, mitigação e resiliência nos territórios frente às mudanças climáticas.
As iniciativas analisadas informaram que os maiores efeitos das mudanças no clima são vistos na forma de aumento da temperatura, alteração do calendário das chuvas e mudanças na disponibilidade de água. Como resultado disso, há a diminuição e a perda da produção, assinaladas por 56,3% e 48,1% das experiências, respectivamente.
Em relação ao enfrentamento das mudanças climáticas, destacam-se estratégias de manejo e conservação do solo (70,7%) e da água (42%), a diversificação dos sistemas produtivos (63%), o plantio de árvores e reflorestamento (56,9%), a compostagem (52,7%) e o tratamento ecológico de esgotos (26,2%).
De acordo com o mapeamento, os territórios têm mostrado os caminhos para o enfrentamento das mudanças climáticas e para a garantia da soberania e segurança alimentar e nutricional. No entanto, somente 37,2% das experiências disseram acessar políticas públicas.
“As mudanças climáticas não são um problema que vai ser resolvido com intervenções tecnológicas. Elas afetam as pessoas de forma muito distinta. Muitas das saídas possíveis estão nos territórios e já estão em curso, inclusive, protagonizadas pelas próprias mulheres”, diz Helena.
A pesquisadora destaca que são necessárias políticas estruturantes que garantam que práticas agroecológicas sejam fortalecidas, como os quintais produtivos, os roçados diversificados, os sistemas agroflorestais e as hortas comunitárias urbanas. Isso passa, inclusive, pelo fortalecimento de políticas já existentes.
No campo das políticas de abastecimento, uma das instituições responsáveis é a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em 2026, no atual governo Lula, foram autorizados até R$ 500 milhões para a compra de arroz e a formação de estoques públicos, como medida preventiva diante dos riscos associados ao El Niño. Durante o governo Bolsonaro, em 2019, foram encerradas as atividades de 27 armazéns da Conab.
As políticas de abastecimento podem ajudar a conter a alta dos preços dos alimentos. Em situações de redução da oferta ou de alta dos preços, o governo pode vender parte dos estoques públicos para ampliar a disponibilidade de alimentos no mercado e contribuir para regular os preços.
No contexto do segundo turno das eleições de 2026, que definirá o próximo presidente do país no dia 25 de outubro, muita coisa está em jogo no que se refere às práticas agroecológicas. “O que está em jogo é uma compreensão sobre o papel da natureza e sobre o papel desses grupos: das agricultoras urbanas, das quilombolas, dos povos indígenas, da agricultura familiar. A extrema direita tem uma concepção completamente equivocada do papel muito significativo que esses povos têm. Para a extrema direita, a natureza é passível de se transformar em ativos financeiros”, afirma Helena.
Teresinha, da Horta Sabor da Vitória
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Teresinha Matos é baiana e vive em São Paulo (SP) há décadas. Saiu de sua terra natal pois considerava a vida de agricultora muito sofrida – sua família não contava com políticas públicas de apoio. Depois de 10 anos morando na capital paulista, participou de um curso de jardinagem e começou a integrar a Associação dos Agricultores da Zona Leste (AAZL). A partir daí se encontrou novamente no ramo.
Hoje, é dona da Horta Sabor da Vitória, em São Mateus, zona leste. “Eu nunca tinha ouvido falar em orgânico. Na verdade, o que a gente plantava na Bahia era orgânico, mas essa palavra eu vim encontrar aqui em São Paulo”, conta.
A agricultora tem sentido os impactos da crise do clima na sua horta. “Do começo do ano para cá, já plantamos vários produtos e ainda não acertamos. O produto não cresce. Tem que tirar antes do tempo, pequeno ainda, porque ele começa a queimar, não se desenvolve. É uma mudança assustadora”.
Ela conta que participa do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e havia uma demanda para a entrega de beterrabas. Mesmo plantando muitas mudas, elas não se desenvolveram e foi necessário substituí-las, como repolho e alho-poró. Além da produção destinada ao do PAA, Teresinha vende alimentos para a comunidade local.
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é uma política pública do Governo Federal do Brasil criada para promover a segurança alimentar e incentivar a agricultura familiar. Por meio do programa, o poder público compra alimentos da agricultura familiar e os destina, entre outras finalidades, à doação para pessoas em situação de insegurança alimentar e ao abastecimento de escolas equipamentos públicos.
Como forma de lidar com essa situação, ela relata que tem plantado o dobro de mudas, para obter a mesma quantidade de alimentos. Na prática, isso tem significado mais trabalho e gastos com produção, o que se reflete também em menos lucro, já que não alterou o valor das vendas para continuar alcançando o seu público.
Para Teresinha, é necessário que existam políticas públicas mais céleres, que atendam às demandas das agricultoras na agroecologia em meio aos efeitos da crise climática, como as fortes chuvas que destroem as plantações.
Valéria, da Nossa Fazenda
Em Parelheiros, extremo sul da cidade de São Paulo (SP), Valéria Macoratti lidera a roça Nossa Fazenda e é presidente da Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo (Cooperapas).
A instabilidade climática tem surpreendido a agricultora. “Não consegui plantar, por exemplo, quiabo, que já era a época desde agosto. Estamos em outubro, já era para a gente estar quase colhendo quiabo. E não consegui produzir nem as mudas por causa da temperatura, que tá muito frio”, relata.
No final do ano passado, com as ventanias, caíram cinco pinheiros que estavam plantados em frente à sua casa. “A sorte é que eles caíram pro lado da rua, não pro lado da casa, porque senão teria destruído tudo. Pessoas que nasceram ali falaram que nunca tinham visto um fenômeno daquele”.
Entre as estratégias usadas, está a “produção de água”. Com a captação de água de chuva, a permacultura e a agrofloresta, “você dá tempo para a água poder infiltrar no lençol freático”.
Valéria conta que conseguiu recursos de uma emenda parlamentar para fornecer alimentos por meio do PAA. As colheitas vão começar agora, mas ela tem incerteza sobre como serão as próximas. Ao mesmo tempo, destaca a importância desse apoio. “O dinheiro é pago para a cooperativa, fica nessa conta bloqueada. Conforme a gente faz a entrega, entrega a nota fiscal, eles liberam o pagamento dos agricultores”, explica.
Sobre o cenário político, ela percebe que sob a atual gestão federal os agricultores são ouvidos, o que não acontecia no governo Bolsonaro. E reflete: “eu tenho quase 60 anos de idade, nasci em 68, ano que foi decretado o AI-5, que muitos jovens nem sabem o que é e ficam defendendo um governo que acha que tirar a liberdade de expressão das pessoas é uma coisa democrática. Isso não é democracia e nem nunca será”.
Angélica, do Sítio Santa Terra
Em 2014, Angélica Facirolli largou o trabalho com publicidade para se dedicar à agrofloresta. Hoje, lidera o Sítio Santa Terra, onde cultiva café em sistema agroflorestal, localizado em Patrocínio Paulista (SP). O local também recebe crianças para iniciativas de educação ambiental.
“Agrofloresta é um modelo de agricultura que reflete os processos naturais de uma floresta. Temos alguns princípios básicos, como a cobertura do solo. Então, a gente planta sempre cobrindo o solo para manter a vida e a biodiversidade da terra, todos os seres que habitam ali”, explica.
Para ela, esse modelo é um dos caminhos para a justiça climática. “É uma maneira de produzir com qualidade e abundância, e também uma maneira de impactar menos nessa questão climática também”.
As soluções para as instabilidades do clima passam pelo próprio território. Em 2025, o sítio passou por um longo período sem chuvas, o que prejudicou o desenvolvimento do café.
“Usamos como estratégia o manejo de bananas. Injetamos bastante água no sistema através das bananas. Em dois, três dias, as acerolas voltaram a florir, o café voltou a dar uma revigorada”, diz. É comum o uso das bananeiras na agroecologia como forma de proteger plantios contra a seca, pois essa planta retém muita umidade.
Angélica destaca o papel do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no apoio aos pequenos produtores. Cita também o Plano Safra, com incentivos e linhas de crédito focadas em transição ecológica, práticas sustentáveis e na implementação de Sistemas Agroflorestais (SAFs).
A agricultora considera que as políticas públicas ainda são voltadas em maior parte para os grandes produtores, mas já tem visto algumas mudanças no que tange ao incentivo aos pequenos produtores. Para que haja mais avanços, ela afirma que é preciso que as iniciativas de agroecologia somem esforços. “Como na agrofloresta, não conseguimos nada sozinhos, precisamos nos juntar para sobreviver”.





