“Não quero ser hipócrita, eu utilizo o serviço público de saúde desde que eu nasci. Agradeço muito o SUS, é um aparelho fundamental. Mas ele pode ser melhorado e muito”, afirma Zuri Onira, educadora social e moradora da Vila Clara, na zona sul de São Paulo (SP). A fala da entrevistada traduz uma realidade vivida por muitos brasileiros que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) e conhecem bem as suas falhas.
Reconhecido internacionalmente por ser um dos maiores sistemas públicos e universais de saúde do mundo, o SUS ainda enfrenta problemas como a falta de integração de dados e as desigualdades territoriais no atendimento.
Sete a cada dez brasileiros dependem exclusivamente do SUS para ter acesso à saúde, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dentro desse montante, mais de 70% são pessoas negras.
Dessa forma, as falhas do sistema impactam diretamente o cotidiano das cidadãs. Certa vez, Zuri perdeu seus documentos numa das fortes chuvas que atingiram sua comunidade. Perdeu, inclusive, seu cartão de vacinas. Ao ir até um posto de saúde, precisou tomar várias vacinas novamente, já que não havia informações digitalizadas sobre esse histórico.
Além disso, a educadora precisa lidar com o desrespeito de ser chamada pelo ‘nome morto’ cada vez que se dirige a uma unidade de saúde diferente. Enquanto mulher travesti, Zuri está em processo de retificação de seu nome, mas tem o direito de ser chamada pelo nome social. “Foi explicado para mim que em cada hospital que eu for passar, tenho que atualizar o meu nome internamente. Fica a pergunta: por que é que esse sistema não é unificado?”.
A diferença de estrutura e atendimento de acordo com o bairro também é latente. “Eu conheço amigas que saem daqui da comunidade onde eu moro para serem atendidas na UBS de Moema, porque lá parece hospital particular. E por que aqui na comunidade não parece? Nem na aparência e nem no atendimento”, diz.
Um levantamento publicado em 2024 pelo Instituto Cidades Sustentáveis, mostrou que os moradores das periferias são os que mais sofrem na espera por uma consulta nas unidades básicas de saúde da cidade. Segundo a pesquisa, um paciente que mora em bairros como Jd. Campo Grande e Cidade Líder, na Zona Sul, demora cerca de 39 dias para conseguir uma consulta com um clínico geral. Porém, em bairros como República, Morumbi e Vila Sônia, a espera vai de zero a apenas quatro dias.
Nos interiores do país, o acesso é ainda mais limitado. “A minha sogra é do interior da Bahia e tem algumas questões de saúde. Para conseguir fazer uma consulta, ela tem que ir para outra cidade. Dependendo da consulta, a gente tem que pagar o hotel para ela se hospedar”.
Luiza Franco, aposentada moradora do bairro Jardim Miriam, na zona sul de São Paulo (SP), também entende que as desigualdades territoriais dificultam o acesso à saúde. “Eu tinha que passar no otorrino, e me mandaram lá para a Penha (zona leste da capital). Eu tinha que estar lá às 7h da manhã, não daria tempo. Daí eu cancelei e fiquei na fila de espera novamente”, relata.
A aposentada também conta que já teve boas experiências na rede pública, e que espera que isso se amplie, com menores filas de espera e atendimentos respeitosos. Afinal, pesquisas mostram que as dificuldades de acesso também fazem com que as pessoas deixem de buscar atendimento.
De acordo com o estudo “Mais Dados Mais Saúde”, conduzido pelas organizações Vital Strategies e Umane, 62,3% dos brasileiros que precisaram de atendimento médico na Atenção Primária à Saúde (APS) nos 12 meses anteriores à pesquisa não buscaram ajuda profissional. Os motivos mais relatados foram superlotação e demora no atendimento (46,9%) e burocracia no encaminhamento (39,2%). O levantamento ouviu 2.458 adultos entre agosto e setembro de 2024 e considerou usuários tanto da rede pública quanto da privada.
Diante dessa realidade, é importante se atentar para o que os planos de governo das candidaturas à Presidência da República e ao Governo de São Paulo dizem sobre integração dos dados do SUS e redução das desigualdades nos atendimentos. O Nós analisou os documentos das candidaturas mais bem colocadas nas pesquisas eleitorais.
Propostas de candidaturas à Presidência da República
Na disputa para presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) aparecem como os candidatos mais bem colocados nas pesquisas eleitorais.
O plano de governo do atual presidente cita a universalização do acesso à saúde como um dos eixos de enfrentamento às desigualdades. Pontua-se também que a gestão investiu na atenção básica, com expansão de serviços, modernização e ampliação da infraestrutura. Dentro disso, houve o apoio à construção de 2.734 unidades básicas de saúde e a aquisição e distribuição de 10 mil combos com equipamentos.
Entre as propostas estão a expansão e qualificação das equipes de saúde da família, em especial das equipes multiprofissionais; e financiamento para adoção de parâmetros de qualidade no atendimento, em especial em territórios de maior vulnerabilidade social.
O documento promete a ampliação de teleconsultas na rede básica de saúde. Bem como, investimentos em exames e recursos diagnósticos, a fim de evitar encaminhamentos desnecessários à atenção especializada.
Pontua-se ainda a implementação da integração entre a Atenção Primária, a Vigilância em Saúde, a Assistência Farmacêutica e a Atenção Especializada, com prontuário compartilhado. Nesse âmbito, há a consolidação do prontuário único do cidadão, por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Segundo o texto, essa integração permitirá disponibilizar diretamente no celular a marcação de consultas nas UBS e os resultados de exames, especialmente em regiões de vulnerabilidade e vazios assistenciais.
Como inovação da atual gestão, cita-se o Agora Tem Especialistas, que tem o objetivo de garantir o acesso à atenção especializada, com qualidade e agilidade. Entre as promessas para o programa estão a expansão do terceiro turno nos serviços de saúde e o reforço das Carretas da Saúde e dos mutirões de atendimento.
Já o plano de governo de Flávio Bolsonaro propõe a implementação do prontuário eletrônico único, vinculado ao CPF e integrado ao Gov.br, interoperável entre as redes pública e privada, com histórico completo de consultas, exames, vacinas e prescrições. No tema da digitalização do SUS, o documento aborda o uso da inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames.
Promete-se também a ampliação da Estratégia Saúde da Família, com atendimentos mais próximos dos pacientes, e a criação do Programa de Atendimento aos Idosos, com atendimento facilitado.
O documento cita ainda o investimento em telessaúde e o teleatendimento por aplicativo, em que médicos de regiões com baixa demanda poderão atender pacientes onde as filas são longas. Além disso, há a proposta de um sistema de entrega de medicamentos em domicílio para idosos, pessoas com deficiência e pessoas com doenças crônicas.
Embora os dois planos apresentem medidas para aproximar o atendimento da população, a dimensão territorial tem pesos diferentes nas propostas.
No plano de Lula, territórios de maior vulnerabilidade social e vazios assistenciais aparecem como critérios para direcionar ações e investimentos, com propostas de ampliação da atenção básica e especializada nessas regiões.
Flávio também prevê ampliar a Estratégia Saúde da Família, construir postos, usar a telessaúde e levar unidades móveis a populações distantes. Seu plano, porém, não apresenta com o mesmo detalhamento uma estratégia de distribuição dos serviços orientada pelas desigualdades entre os territórios, concentrando as propostas de acesso principalmente na ampliação dos serviços, na digitalização e no melhor aproveitamento da capacidade já existente.
Propostas de candidaturas ao Governo de São Paulo
Partindo para as propostas estaduais, os candidatos mais bem colocados para assumir o Governo de São Paulo são Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT).
O plano do atual governador, Tarcísio de Freitas, promete o SP Inova Saúde, com 40% de aumento no número de teleatendimentos. A iniciativa conecta especialistas a regiões que enfrentam dificuldades de acesso, levando atendimento desde a atenção básica até serviços de alta complexidade.
O texto cita a integração da rede de saúde estadual, conectando municípios, hospitais, ambulatórios, unidades de urgência e demais serviços do SUS, por meio do Histórico Clínico Digital Unificado. Propõe-se também a ampliação do SUS Paulista, com a garantia de que cada região tenha condições de responder aos seus principais desafios de saúde.
A integração entre os sistemas, porém, segue como um problema durante a atual gestão. Auditoria do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo apontou falta de interoperabilidade entre sistemas municipais de regulação e o sistema estadual. A fiscalização identificou dificuldades para integrar os sistemas utilizados pelos municípios à regulação estadual.
Outro ponto é a intensificação da Política Estadual de Regionalização da Saúde, a ser organizada com base nas necessidades, capacidade instalada e vazios assistenciais de cada território. O objetivo é acesso mais rápido à atendimento e redução de necessidade de deslocamentos em longas distâncias.
A regionalização também já é uma política da atual gestão. Ainda assim, a dificuldade de acesso entre territórios aparece no relato de Luiza: moradora do Jardim Miriam, na zona sul, ela desistiu de uma consulta ao ser encaminhada para a Penha, na zona leste da capital, por não conseguir chegar ao atendimento no horário marcado.
Além disso, o plano cita o foco na qualificação técnica e integração com a média e alta complexidade, de modo a estabelecer mecanismos de referência padronizados entre atenção primária e a rede ambulatorial especializada e hospitalar.
Já o plano de Fernando Haddad propõe a ampliação de consultas especializadas, exames, diagnóstico completo, com uso, inclusive, da telessaúde, das carretas da saúde e da oferta complementar de serviços da rede privada. Segundo o texto, com a telessaúde nas unidades do interior e das periferias, não será necessário percorrer longas distâncias à procura de diagnóstico.
Em relação à integração dos dados, há a promessa de que o histórico de saúde estará disponível no celular pelo aplicativo Meu SUS Digital. Sendo assim, em qualquer unidade de saúde, o profissional terá acesso ao prontuário clínico e aos resultados de exames.
Ainda nesse assunto, o plano pontua que o posto, o ambulatório, o hospital e o laboratório trabalharão juntos, com registros clínicos unificados. Para isso, a Secretaria Estadual de Saúde fará a coordenação da rede, organização da regionalização e regulação da atenção especializada e de participação no financiamento das ações e serviços de saúde. O detalhamento das propostas também prevê integrar os 645 municípios à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e tornar obrigatória a interoperabilidade nos contratos.
As propostas analisadas mostram que integração de dados, telessaúde e regionalização aparecem nas candidaturas como caminhos para ampliar o acesso à saúde. Parte dessas soluções, no entanto, já começou a ser implementada. A Rede Nacional de Dados em Saúde existe no âmbito federal, enquanto São Paulo já conta com iniciativas de saúde digital e regionalização. Ainda assim, os relatos de Zuri e Luiza mostram como a fragmentação das informações e as distâncias entre os serviços continuam interferindo no atendimento.
É nesse espaço entre o que já existe, o que ainda não funciona de forma integrada e o que as candidaturas prometem ampliar que está parte do desafio. Para Zuri, a questão se traduz em algo básico: ter seu histórico de vacinação e seu nome social reconhecidos ao passar por diferentes serviços. Para Luiza, significa não precisar atravessar a cidade para conseguir uma consulta.
Garantir acesso universal à saúde, princípio que orienta o SUS desde a Constituição de 1988, depende não apenas da existência do atendimento, mas de fazer com que ele chegue às pessoas nos diferentes territórios. Nas eleições de 2026, as propostas colocam em debate os caminhos para reduzir essas barreiras e fortalecer o SUS para que o direito à saúde seja garantido independentemente de onde cada pessoa vive.
Esta reportagem integra a cobertura das Eleições 2026 do Nós, mulheres da periferia e foi produzida a partir de rodas de conversa com mulheres dos territórios de São Paulo (SP). A iniciativa conta com o apoio da Oxfam Brasil e do Instituto Rosa Luxemburgo e com a articulação local do Instituto Salve Quebrada.





