Flávio mira a motosserra de Milei e põe mulheres das periferias na rota dos cortes

Tesouraço pra quem? A resposta é direta e desoladora. O amplo corte de gastos proposto por Flávio Bolsonaro (PL) ameaça atingir diretamente a nós, mulheres da periferia, que, em grande parte, sustentamos esse país. O resultado mora ao lado: o bolsonarista se inspira no modelo econômico de Javier Milei, presidente da Argentina, cuja população tem testemunhado a subida dos níveis de pobreza.

O plano de governo do candidato Flávio Bolsonaro propõe um “tesouraço” para a economia e aponta que isso se traduzirá em “um corte profundo e por todos os lados, que enxuga a máquina, coloca as contas em ordem e reduz os impostos que pesam sobre quem produz”. O documento não detalha quais serão esses cortes.

Mas movimentações recentes indicam quais áreas podem ser atingidas.  Segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no dia 7 de outubro, a equipe responsável pelo programa econômico do candidato estuda um pacote de medidas fiscais para viabilizar um ajuste inicial da ordem de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a cerca de R$ 250 bilhões.

A estratégia em estudo prevê a desvinculação dos reajustes da Previdência Social, o que inclui aposentadorias, e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) em relação aos ganhos reais do salário mínimo, bem como o fim dos pisos constitucionais que atrelam os gastos com saúde e educação ao comportamento das receitas federais. O que significa, na prática, menor reajuste para aposentados e benefício para famílias de pessoas com deficiência, e menos investimento em saúde e educação.

Nas propagandas eleitorais, Flávio diz que não vai cortar programas como o Bolsa Família – o qual já chamou de bolsa-farelo -, mas seu plano de governo não cita uma única vez o nome do programa. Também afirma que não vai mexer no Farmácia Popular, porém, ao olharmos para o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, o programa teve corte de 59%. 

Também no campo econômico, Flávio Bolsonaro já teceu elogios à condução de Javier Milei, que implementou a “motosserra” nas despesas públicas. Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha do candidato, declarou que a política econômica de Milei é um exemplo a ser seguido pelo Brasil. Mas, qual é essa política e quais resultados ela tem dado na Argentina? 

Como está a economia na Argentina? 

Javier Milei foi eleito presidente da Argentina com a promessa de realizar amplos cortes nos gastos do país como forma de combater o alto índice de inflação, que batia 211,4% no acumulado em 12 meses até o fim de 2023. O plano incluía extinção de ministérios e secretarias, demissão de servidores e suspensão de obras públicas, no que ficou conhecido como Plano Motosserra. 

Em 2024, primeiro ano do governo Milei, o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina caiu 1,7%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) do país. No segundo semestre de 2025, a taxa de pobreza baixou para 28,2%, menor taxa em sete anos. Em 2026, porém, o número voltou a subir: 32,3% da população dos 31 aglomerados urbanos pesquisados no país estava em situação de pobreza no primeiro semestre. A alta foi de 4,1 pontos percentuais em relação ao semestre anterior.

O aumento da pobreza é acompanhado por uma queda da atividade econômica no país. Segundo levantamento da organização Fundar, isso inclui o fechamento de 31,3 mil empresas e 245 mil postos formais de emprego encerrados durante 31 meses do governo Milei. Os servidores públicos também são afetados: a gestão do argentino fechou 77 mil vagas.

No trabalho doméstico, os efeitos aparecem tanto na oferta de emprego quanto no dinheiro que chega ao fim do mês. Entre novembro de 2023 e novembro de 2025, o setor perdeu 22,4 mil postos registrados, e o poder de compra dos salários caiu 35,2%, segundo levantamento do Centro de Economia Política Argentina (CEPA). 

Além disso, benefícios sociais também são atingidos. Milei passou a restringir o acesso ao programa Remediar, que distribui remédios gratuitamente. Instituiu ainda mudanças na aposentadoria, que fez com que o número de argentinos ingressantes na Previdência caísse de 213,9 mil, no 1º semestre de 2024, para 99,6 mil, no 1º semestre de 2026.

Os cortes também atingiram o apoio a mulheres e pessoas LGBTQIA+ em situação de violência de gênero. Em 2024, o Programa Acompañar, que oferece auxílio financeiro a esse público, teve redução de 90% na execução orçamentária em relação a 2023, descontada a inflação, segundo análise da Associação Civil pela Igualdade e Justiça (ACIJ). A redução compromete uma política voltada à autonomia econômica de quem enfrenta a violência.

No governo Milei, a população empobrecida sente os impactos da gestão econômica da “motosserra”. Numa eventual gestão de Flávio Bolsonaro, os fatos nos mostram que seremos nós quem pagaremos a conta do “tesouraço”. Uma conta que pode chegar na forma de menos renda, mais dificuldade para acessar serviços públicos e mais trabalho de cuidado dentro de casa. 



Tribunal Brasília

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