Em 1941, durante o governo Vargas, mulheres foram proibidas de jogar futebol no Brasil. A justificativa era de que o esporte seria incompatível com sua “natureza”. A proibição só caiu oficialmente em 1979, mas deixou marcas profundas: por décadas, o futebol foi tratado como território masculino. Essa herança ajuda a explicar por que o esporte ainda hoje é um espaço desigual, dentro e fora de campo.
Na época, os argumentos usados para afastar mulheres dos gramados misturavam discursos médicos, morais e sexistas. Dizia-se que o futebol poderia prejudicar a saúde feminina, comprometer a capacidade reprodutiva ou até ameaçar valores ligados à maternidade. Sob uma aparência de legitimidade científica, essas ideias reforçaram estereótipos de fragilidade e inadequação que não apenas impediram mulheres de jogar, mas também limitaram sua presença em outras áreas do futebol, inclusive na cobertura esportiva.
Por muito tempo, narrar, comentar e interpretar o jogo em público foi um espaço dominado por homens. Ainda assim, algumas mulheres conseguiram abrir caminho com coragem e talento. Regiani Ritter, uma das primeiras repórteres de campo da televisão brasileira, Luciana Mariano, a primeira narradora de futebol da TV, e Vera Daisy Barcellos, reconhecida como a primeira jornalista esportiva negra do país, são exemplos de profissionais que desafiaram barreiras e mostraram que o esporte pode e deve ser contado também pelas vozes femininas.
Ainda assim, a presença feminina na cobertura esportiva segue marcada por desigualdades. Em 2017, um levantamento do UOL Esporte mostrou que mulheres representavam apenas 13% dos rostos da TV esportiva fechada e, mesmo entre elas, a maioria ocupava funções de reportagem, enquanto cargos de maior prestígio, como narração, comentário e análise, seguiam concentrados nas mãos de homens. Embora não haja levantamentos públicos mais recentes que permitam dimensionar com precisão esse cenário hoje, a sub-representação feminina ainda é visível nas principais transmissões esportivas do país.
Em um ecossistema historicamente dominado por homens, narradoras, comentaristas, jornalistas e criadoras de conteúdo seguem disputando não apenas espaço, mas também legitimidade para analisar, narrar e interpretar o jogo. As trajetórias dessas profissionais revelam que estar ali ainda significa romper barreiras cotidianas de gênero, raça e classe para ocupar lugares que, por muito tempo, permaneceram inacessíveis.
Em uma competição global associada ao protagonismo masculino, a presença dessas mulheres ajuda a tensionar quem pode contar e como se conta a história do esporte. Conheça algumas delas:
Bianca Santos — Fala Sem Gritar
Bianca Santos é criadora de conteúdo esportivo, comunicadora e fundadora do canal Fala Sem Gritar. Mulher preta, carioca e torcedora do Fluminense Football Club, construiu sua trajetória entre o jornalismo esportivo e a cobertura digital de futebol, apostando em uma linguagem próxima, crítica e afetiva. Ex-integrante do Desimpedidos, cobre a Copa de 2026 de forma independente, mostrando que a cobertura esportiva hoje também passa pelas redes, pelas criadoras de conteúdo digital e por narrativas para além das quatro linhas.
Cristiane Rozeira — Globo
Cristiane Rozeira é uma das maiores jogadoras da história do futebol brasileiro e, na Copa de 2026, estreia como comentarista da Globo. Ex-atacante da seleção brasileira, tornou-se a maior artilheira da história do futebol olímpico, entre homens e mulheres. Na cabine, leva para a transmissão a experiência de quem viveu o futebol em alto nível e ajuda a ampliar a presença de ex-atletas mulheres no comentário esportivo.
Day Natale — CazéTV
Day Natale é jornalista esportiva e repórter da CazéTV, com trajetória construída entre transmissões ao vivo, reportagem de campo e produção de conteúdo digital. Mulher negra, tem se destacado não apenas pela cobertura esportiva, mas também por trazer para o debate os desafios raciais e de classe presentes no jornalismo esportivo brasileiro. Em artigo publicado na AzMina, refletiu sobre como o racismo ainda atravessa a experiência de mulheres negras no futebol, em um ambiente majoritariamente masculino e branco. Sua presença na cobertura da Copa de 2026 reforça a importância de ampliar quem narra, analisa e conta as histórias do esporte.
Karine Alves — Globo
Karine Alves é jornalista e apresentadora da TV Globo, onde se consolidou como um dos principais nomes do jornalismo esportivo brasileiro. Nascida em Porto Alegre, foi a primeira mulher negra a apresentar o Esporte Espetacular e integra a cobertura da Copa de 2026. Sua presença simboliza avanços importantes na representatividade racial na televisão esportiva, em um espaço historicamente masculino e branco.
Natália Lara — SporTV
Natália Lara é jornalista, narradora e apresentadora do SporTV. Integrante da nova geração de mulheres que vem transformando a cobertura esportiva no Brasil, construiu trajetória em diferentes formatos de transmissão, do campo ao estúdio. Na Copa de 2026, representa uma geração que ajudou a consolidar a presença feminina na narração e na condução de grandes coberturas esportivas.
Renata Silveira — Globo
Renata Silveira é narradora esportiva da Globo e um dos nomes mais emblemáticos da transformação recente das transmissões esportivas no Brasil. Em 2022, tornou-se a primeira mulher a narrar uma partida de Copa do Mundo na TV aberta brasileira. Em 2026, fez história novamente ao se tornar a primeira mulher a narrar um jogo de Mundial direto do estádio, consolidando sua trajetória em um espaço antes quase exclusivo dos homens.





