Uma a cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos já foi vítima de exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia. É o que aponta uma pesquisa lançada em março deste ano pela UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Neste 18 de maio, Dia de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o Nós, mulheres da periferia aborda a disseminação e o consumo de conteúdos sobre a violência sexual infantil na internet.
A pesquisa “Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia” foi até as casas de crianças e adolescentes de 12 a 17 anos e seus cuidadores, entre novembro de 2024 a março de 2025. Foram analisadas as respostas de 1.029 crianças e 1.029 de seus pais/responsáveis em todo país.
“A internet alavanca a disseminação e o consumo desse tipo de conteúdo por meio da escala, velocidade e do anonimato, criando um terreno fértil para que agressores atuem. O ambiente digital é frequentemente usado pelas redes criminosas para radicalizar e monetizar abusos”, pontua Eva Dengler, superintendente de Programas da Childhood Brasil, organização que desenvolve ações para prevenir e enfrentar o abuso e a exploração sexual contra crianças e adolescentes no país.
Segundo a pesquisa feita pela UNICEF, em 66% dos relatos coletados a violência ocorreu por canais online, como redes sociais ou aplicativos de mensagens instantâneas (64%) e jogos online (12%). Em quase metade dos casos (49%), a exploração e/ou o abuso foram cometidos por alguém conhecido da vítima.
A internet alavanca a disseminação e o consumo desse tipo de conteúdo por meio da escala, velocidade e do anonimato, criando um terreno fértil para que agressores atuem.
Eva Dengler, superintendente de Programas da Childhood Brasil
Além disso, a Inteligência Artificial se insere como um impulsionador desse cenário de violência. No período de um ano analisado pelo relatório, 3% das crianças e adolescentes entrevistados relataram que alguém utilizou IA para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual com sua aparência. Nesse sentido, ferramentas de IA possibilitam a criação de montagens realistas com rostos de crianças e adolescentes em situações diversas, inclusive, de cunho sexual.
“A Inteligência Artificial atua como um acelerador de riscos, funcionando como uma ferramenta que aumenta a escala, a sofisticação e o dano da produção de material ilícito. A SaferNet Brasil [organização focada na defesa dos direitos humanos no uso da internet] alerta que o uso de Inteligência Artificial tem contribuído ativamente para o aumento de casos, facilitando a produção de materiais de abuso e criando deepfakes”, destaca Eva.
Deepfakes são manipulações digitais com uso de IA capazes de alterar vídeos, áudios e imagens de forma realista. A partir dessa técnica é possível, por exemplo, incluir o rosto de uma pessoa no lugar de outra em uma cena constrangedora.
A SaferNet Brasil [organização focada na defesa dos direitos humanos no uso da internet] alerta que o uso de Inteligência Artificial tem contribuído ativamente para o aumento de casos, facilitando a produção de materiais de abuso e criando deepfakes”, destaca Eva.
De acordo com levantamento da SaferNet Brasil, o Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos registrou 49.336 denúncias anônimas de abuso e exploração sexual infantil entre 1º de janeiro e 31 de julho de 2025, correspondendo a 64% do total de notificações no período.
Com o fácil acesso à ferramentas de IA, manipulações que antes precisavam de muita técnica dos criadores, hoje são feitas em alguns minutos por qualquer um que tenha acesso a plataformas do tipo. Segundo o Panorama da Desinformação no Brasil, feito pelo Observatório Lupa, a divulgação de conteúdos falsos criados com IA mais do que quadruplicou no Brasil, entre 2024 e 2025.
No caso dos crimes sexuais online, a IA se tornou um elemento impulsionador na disseminação de imagens de exploração e de abuso sexual. Em fevereiro deste ano, a UNICEF publicou uma declaração acerca do “crescente alarme” perante relatos de um aumento rápido no volume de imagens sexualizadas geradas por IA. O texto listou casos em que fotografias reais de crianças foram manipuladas e transformadas em conteúdo sexual explícito.
Crianças em vulnerabilidade
Casos recentes mostram como a violência sexual infantil passou a ser também mediada pela lógica de circulação digital. Entre eles, está o de dois meninos, de sete e 10 anos, vítimas de estupro coletivo por quatro adolescentes e um adulto. O crime aconteceu no dia 21 de março, no Jardim Pantanal, zona leste de São Paulo (SP).
As cenas da violência foram divulgadas em redes sociais pelos próprios criminosos. Todos os suspeitos foram identificados. Os quatro adolescentes foram apreendidos, e o homem adulto foi preso.
“No caso do Jardim Pantanal, a circulação das imagens não é apenas um registro, mas uma extensão da própria violência física que interrompe o processo de desenvolvimento da criança. Esse fenômeno estabelece uma revitimização pública, em que a exposição impede que as vítimas se desvinculem da agressão, tornando o trauma um evento presente e reatualizado em sua vida social”, destaca Eva.
Segundo a superintendente, situações assim exigem acolhimento especializado para as vítimas e suas famílias, haja vista a gravidade dos danos causados, os quais podem impactar o direito ao convívio social, à aprendizagem e à privacidade.
Crianças em vulnerabilidade social, como as vítimas do caso citado, estão ainda mais suscetíveis. “Crianças e adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade socioeconômica tornam-se alvos mais fáceis para redes que oferecem contrapartidas básicas, como dinheiro ou alimentos, em troca de abusos”, afirma Eva.
Nota-se que o racismo também é um fator determinante. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 56% das vítimas de estupro de vulnerável são negras, contra 43% brancas. Já em relação ao gênero, as meninas somam 77,7% dos casos de estupro antes dos 18 anos.
“Além disso, crianças e adolescentes com deficiência enfrentam um risco quase quatro vezes maior de sofrer violência do que aquelas sem deficiência”, acrescenta a entrevistada.
Projeto Eu Me Projeto
Diante do crescimento dos índices de abusos sexuais de crianças e adolescentes a partir do ambiente digital, um dos caminhos de prevenção é ensinar os pequenos a identificar situações como essa e a não ficarem calados.
Foi a partir desse objetivo que a jornalista Patrícia Almeida e a psicóloga Neusa Maria criaram o projeto Eu Me Projeto, voltado à prevenção contra a violência na infância, com a meta de ajudar crianças com e sem deficiência a reconhecer situações de abuso, agressão, bullying e violência em geral e saber como buscar ajuda.
O projeto dispõe de cartilhas, vídeos, jogos, músicas e materiais acessíveis em várias línguas para apoiar famílias, escolas e profissionais. Uma das cartilhas, por exemplo, explica de forma simples para o público infantil que pode ser uma situação de perigo quando um adulto quer entrar no banheiro com a criança, brincar de médico ou tocar em suas partes íntimas.
“No material do Eu Me Protejo, os personagens das cartilhas refletem nossa diversidade. A mascote Cotinha, é uma menina preta com deficiência porque meninas pretas sofrem mais violência, e meninas com deficiência, especialmente com deficiência intelectual, sofrem mais violência”, conta Patrícia.
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Cotinha é a mascote do projeto Eu Me Projeto © acervo projeto Eu Me Projeto
A jornalista Patrícia Almeida © acervo projeto Eu Me Projeto
© acervo projeto Eu Me Projeto
© acervo projeto Eu Me Projeto
Segundo o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, meninas negras de até 13 anos são maiores vítimas de estupro no Brasil. Além disso, de acordo com o Atlas da Violência, quase 2,4 mil crianças e adolescentes com deficiência sofreram violência sexual no Brasil em 2023.
E acrescenta: “É importante também que a criança saiba, desde a pré-escola, que todos somos diferentes, únicos e especiais e, assim como devemos ter orgulho e proteger o próprio corpo, devemos respeitar o corpo do outro”.
É importante também que a criança saiba, desde a pré-escola, que todos somos diferentes, únicos e especiais e, assim como devemos ter orgulho e proteger o próprio corpo, devemos respeitar o corpo do outro.
Patrícia Almeida, idealizadora do projeto Eu Me Protejo
Em relação ao ambiente digital, as orientações incluem: não compartilhar fotos íntimas; não conversar com desconhecidos na internet; desconfiar de pedidos de segredo; nunca marcar encontros presenciais com pessoas conhecidas apenas online e sempre contar para um adulto caso alguém faça pedidos inadequados ou cause medo e constrangimento.
“O aliciamento na internet costuma acontecer de forma gradual, muitas vezes por meio de jogos, redes sociais e aplicativos de conversa. Adultos ‘disfarçados’ se aproximam fingindo amizade para conquistar a confiança da criança ou adolescente”, alerta Patrícia.
Ela orienta que as famílias devem supervisionar o uso da internet das crianças e adolescentes. Vale, por exemplo, instalar filtros de segurança e fortalecer o diálogo, criando um ambiente em que a criança ou adolescente se sinta seguro para compartilhar uma situação estranha ou de perigo.
ECA Digital
Em relação à responsabilização das plataformas, houve um avanço recente: o ECA Digital. Em 17 março de 2026, passou a valer no país a Lei do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, legislação direcionada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. As normas definem responsabilidades para as plataformas online em relação à publicidade, validação de idade e proteção contra conteúdos nocivos.
“No combate à disseminação de conteúdos, a lei impõe o conceito de Safety by Design (segurança por desenho), obrigando as plataformas a serem seguras desde sua concepção. Elas passam a ser legalmente responsáveis por garantir a remoção imediata de conteúdos nocivos”, explica Eva.
Além disso, a autodeclaração de idade em sites e aplicativos restritos a menores de 18 anos passou a ser proibida. Sendo assim, as plataformas precisam oferecer mecanismos de validação para criação de novos perfis, como o envio de documento de identidade.
Outro ponto é que os pais e responsáveis têm o dever de supervisionar o uso de redes sociais dos filhos até os 16 anos, por meio de ferramentas de monitoramento que devem ser disponibilizadas pelos aplicativos.
De maneira semelhante, outros países têm buscado maior proteção desse público no ambiente digital. A União Europeia, por exemplo, está preparando uma nova legislação para regular o modelo de negócios das plataformas digitais. Os legisladores avaliam limitar o acesso de menores de 16 anos às redes sociais e a assistentes de inteligência artificial sem autorização dos pais ou responsáveis.
Serviço
Para denunciar conteúdos criminosos online, é possível entrar em contato com o Disque 100, da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, que recebe denúncias sobre violações contra crianças e adolescentes, em ambientes online ou offline. Basta ligar para o número 100, ou contatar o número (61) 99611 0100 no WhatsApp. Outro canal de denúncia é a organização Safernet, por meio deste link. Além disso, vale ainda registrar boletim de ocorrência em uma delegacia.





