livro de Cidinha da Silva reúne 81 lições da

Em junho de 2025, a filósofa e feminista negra Sueli Carneiro recebeu uma declaração pública de amor. Eram 206 páginas escritas com muito cuidado e afeto. A autora do presente é Cidinha da Silva, escritora e amiga de longa data da pensadora. Trata-se do livro “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do Método Sueli Carneiro”.

Em textos breves e afiados, Cidinha reúne o aprendizado que teve com Sueli ao longo de quase quatro décadas de convivência. São lições de formação política condensadas em uma leitura que prende a atenção. “Só bato em cachorro grande” foi um presente para Sueli, mas se mostra um presente também para quem lê.

Num livro só, Cidinha aborda sua amizade com Sueli e compartilha preciosas lições com uma comunidade de leitoras que admiram – ou certamente vão passar a admirar, após a leitura, – as duas referências do feminismo negro.

Neste 24 de junho, aniversário de 76 anos de Sueli Carneiro, o Nós, mulheres da periferia conversou com Cidinha da Silva sobre sua obra em homenagem à pensadora.

Sueli Carneiro nasceu em 23 de junho de 1950, e foi registrada no dia seguinte: 24 de junho. Por isso, costuma comemorar o aniversário durante esses dois dias. Sua trajetória como filósofa, escritora, feminista, ativista do movimento negro brasileiro e co-fundadora de Geledés – Instituto da Mulher Negra é marcada pelo combate ao racismo e ao sexismo.

O Método Sueli Carneiro 

O livro é dividido em três partes: “lições expressas”, que reúne ensinamentos ditos diretamente por Sueli; “pedagogia do exemplo”, com aprendizados obtidos a partir da observação das ações da pensadora; e “lições do tempo espiralar”, com ensinamentos dos quais a escritora só se deu conta na maturidade. 

A motivação para a escrita da obra partiu da percepção da existência de um método de formação política praticado por Sueli Carneiro. Cidinha se deu conta disso enquanto lia a biografia de Tim Maia, por volta de 2011 ou 2012. Em “Vale Tudo: O som e a fúria de Tim Maia”, o escritor Nelson Motta usa o termo “método Tim Maia” para se referir à forma de compreensão e tradução do mundo pelo cantor.

A cada vez que esse método era citado na biografia, Cidinha percebia que também havia um método próprio de Sueli Carneiro. “Consequentemente, compreendi que fui formada por esse método, que possibilitou um processo longo e muito rico de aprendizados; entendi que minha experiência de diálogo com Sueli também era única e singular e me desafiei a sintetizá-la por meio de lições que estruturassem o método e pudessem ser compartilhadas com o mundo”, diz.

Uma amizade singular 

A relação única e singular entre Cidinha e Sueli é descrita de maneira bela e divertida ao longo das lições. Por isso, o livro não se resume aos aprendizados de uma grande pensadora narrados por outra grande referência. É também uma história de amizade cheia de nuances.

“Ela recebeu com alegria e gratitude quando entreguei o livro em suas mãos, afinal, tratava-se de um presente confeccionado com muito amor para ela”, relata a autora sobre como Sueli reagiu ao presente em forma de livro.

Ao ler a obra e conhecer essa relação de amizade permeada por afetos demonstrados por meio de ações e ensinamentos – e não propriamente por elogios e abraços -, a continuação da resposta de Cidinha sobre as impressões de Sueli faz total sentido:

“Creio que essa pergunta tem a expectativa de alcançar reflexões dela acerca do livro e, sobre isso, não tenho nada a declarar, pois, o máximo que ela me disse foi que não me ensinou determinada coisa, ou, se ela ensinou, eu não aprendi direito”.

Além disso, ao ser abordada por outras pessoas, Sueli se refere à obra como uma “biografia não autorizada”. Isso deixa Cidinha alegre, porque indica que a amiga se reconhece no texto. Mas não se trata de uma biografia de fato. “O Cachorro Grande é fruto exclusivo da minha cabeça, memória e coração, é um livro meu para ela, um trabalho que não optou por ouvir outras pessoas, eu quis mesmo me ouvir para escrever”, explica.

Presente para as leitoras 

A entrevistada conta também sobre o processo de sistematização do Método Sueli Carneiro. A primeira menção a ele aparece em uma crônica da autora, no livro “Baú de miudezas, sol e chuva (2014)”. Mas a escrita das lições começou de fato em 2018, quando Cidinha visava participar de um projeto literário.

“Quando comecei a escrever as lições e registrei 25, sem tirar a caneta do papel, visualizei a possibilidade de um livro diante daquele volume inicial de reflexões que emergiu de maneira tão espontânea”, relata.

Já em janeiro de 2025, quando reuniu as lições para compor o livro, notou que ele “foi se desenhando como um livro para Sueli, mais do que um livro sobre Sueli”. Essa foi uma mudança importante, segundo ela. 

Ao longo de um ano de publicação, “Só bato em cachorro grande” tem se mostrado um presente também para quem tem o prazer de lê-lo. “Os comentários e depoimentos que recebo dão conta da utilidade do livro em cotidianos de estudos, ações políticas, contextos de acolhimento, algo muito prático na vida das pessoas. Creio que ele tem alcançado o objetivo de promover um diálogo intergeracional, como prospectei”, afirma.

13 lições para esse período de trevas 

Cada lição do livro é antecedida de um título que já é em si um resumo do aprendizado. Em seguida, vem a explicação por meio de uma história ou reflexão contada por Cidinha. O próprio nome da obra, “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior”, é um desses ensinamentos.

Neste aniversário de Sueli Carneiro, pedimos que Cidinha destacasse algumas lições descritas na obra. Ela escolheu 13 ensinamentos que devem ser usados como aliados para enfrentar esse “período de trevas, instituído pela extrema direita e pelo neoliberalismo no mundo”:

Se salvarmos um, estamos no lucro (Lição 3)

Vá, mate e volte (Lição 4)

Acredite no sonho das pessoas (Lição 8)

Execute as tarefas com galhardia (Lição 9)

Cuidado com a volta da cabocla (Lição 13)

Faça o que precisa ser feito (Lição 17)

Invista nas pessoas, aposte. Não importa que elas deem errado (Lição 19)

Conheça os clássicos negros e fortaleça-se ao recorrer a eles (Lição 25)

Sempre tem complicação (Lição 26)

Desenhe cenários. Teste-os (Lição 27)

Não alimente ilusões (Lição 29)

Nenhuma guerra deve endurecer nosso coração (Lição 81)

Nesta data que celebra os 76 anos de Sueli Carneiro, agradecemos por toda a sua luta por direitos e pela formação política que continua inspirando tantas pessoas. Agradecemos também a Cidinha da Silva por compartilhar as lições de sua mestra a partir de sua ótica.



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