Autistas são mais afetadas por ansiedade, depressão e transtornos alimentares, e têm maior propensão a sofrimento psicológico. Quando essa mulher também é mãe, fica ainda mais difícil. No Brasil, segundo dados do MAB (Mapa Autismo Brasil), 92,4% do cuidado de pessoas autistas está sob responsabilidade feminina.
Essa sobrecarga é agravada pela vulnerabilidade econômica. O que os dados não mostram é que tem mãe que também está no espectro, que cuida de outro enquanto tenta se cuidar, que não tem rede, muitas vezes não tem diagnóstico e tenta sobreviver diariamente.
A maternidade já vem carregada de romantização da ideia de que amor basta, a tal falácia do “instinto materno” fala mais alto, ou uma “boa mãe” é aquela que nunca erra, está sempre disponível e sabe exatamente o que fazer em cada momento.
Isso é totalmente irreal para qualquer mãe, mas, para mulheres autistas, especialmente as com diagnóstico tardio, esse discurso é irreal e cruel. Isso porque você passa anos achando que o problema é você, que falta alguma coisa, que as outras mães sabem algum tipo de segredo, que você é a única errada e que as outras maternidades são mais amorosas e acolhedoras que a sua.
Solidão da mãe neurodivergente
É raro a gente ouvir falar da mãe que precisa de previsibilidade, que se sobrecarrega com o barulho, a mudança de rotina e a demanda emocional que vem junto com um filho. No fim do dia, chegou no limite porque esteve presente de um jeito que custa muito mais do que as pessoas ao redor conseguem enxergar.
Quando essa mulher tenta falar sobre o que sente, o esgotamento, a dificuldade de regular as próprias emoções enquanto lida com as emoções de um filho, frequentemente não encontra eco. O que ela descreve não cabe nas narrativas disponíveis sobre maternidade.
Não existe ainda uma conversa ampla sobre mães que também são neurodivergentes, e o que significa criar um filho quando você ainda está aprendendo a se entender, como é não ter um modelo, uma referência, não ter ninguém que olhe para você e diga: “Eu também sou assim, e estou aqui”. Essa ausência não é pequena e pesa no dia a dia, nas decisões e na forma como essas mulheres se avaliam como mães.
Diagnóstico tardio
Receber um diagnóstico tardio muda muita coisa, eu recebi o meu em 2023, quando meu filho estava com 13 anos, na pré-adolescência, mas não apaga os anos em que vivi e o criei sem saber por que certas coisas custavam tanto. Eu tinha e ainda tenho demandas que não entendia o motivo. Me julguei inúmeras vezes por precisar de silêncio, de ficar sozinha em crise, de chorar no banheiro enquanto me balançava pra me regular, de ficar no meu hiperfoco sem conseguir ao menos levantar, entre outras coisas.
Apesar de ter tido o diagnóstico, infelizmente ele não me devolveu o que não tive a rede de apoio que nunca existiu. Também não explica para ninguém ao redor por que eu funcionava diferente quando me julgavam por alguma atitude com o meu filho. O diagnóstico dá nome, explica o motivo, mas não resolve a solidão de ter chegado até aqui sem nenhum mapa e com muitas cicatrizes.
A maternidade tem uma imagem muito específica, construída socialmente, e essa imagem raramente inclui uma mulher que precisa de diversas adaptações diárias que outras mães não precisam, mesmo estando sobrecarregadas, que tem dificuldade com contato físico em certos momentos, que processa as emoções de um jeito diferente do que as pessoas ao redor consideram “normal”.
A sua forma de se mover no mundo, de reagir, de demonstrar afeto, não corresponde ao que se espera de uma mãe. E aí vem o preconceito mais cruel a ideia de que mulheres autistas não amam seus filhos da forma certa, ou que não amam de verdade. Para mães autistas, especialmente as periféricas, pode ser algo muito mais urgente, porque não ter apoio, não se reconhecer nas narrativas que existem e não encontrar nem mesmo um espelho não é só solidão.
Camuflar o que sente para caber
Existe um conceito que quem está no espectro conhece bem: o masking, que nada mais é do que o processo de camuflar quem você é para parecer mais aceitável socialmente, como: imitar comportamentos, controlar reações, tentar “bloquear” o que é natural no nosso corpo para não causar estranhamento nas pessoas ao redor. Mulheres autistas fazem isso desde crianças, porque a pressão social é muito maior, e porque os critérios de diagnóstico foram construídos com base no autismo masculino, nos deixando invisíveis por décadas.
O problema é que o masking tem um custo consome energia que não volta, e, quando você é mãe, essa energia já está sendo disputada por mil outras coisas ao mesmo tempo, a demanda emocional de um filho, a gestão da casa, o trabalho, a ausência de rede de apoio e a necessidade de sobreviver num sistema cruel e racista. Mães autistas muitas vezes chegam ao fim do dia em Shutdown ou Meltdown, porque passaram horas sendo alguém que não são, em todos os espaços que ocuparam. E, apesar de parecermos aquela que as pessoas acham que “nem parece autista”, no fim do dia, o nosso corpo pesa tanto que é difícil tentar reagir a nós mesmas.
Onde encontrar acolhimento?
A real é que uma mãe autista não deixa de amar o filho por ser quem é, esse amor só não cabe nos formatos que foram definidos pela sociedade sobre o que é ser uma boa mãe. O amor pode se mostrar em diversas ações, como: organizar o mundo do filho para que ele sofra menos, fazer o doce preferido dele, ir a lugares que ele gosta, pesquisar, antecipar, proteger de formas que nem sempre são visíveis, mas que são inteiras.
Segundo o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, cerca de 80% das mulheres com autismo chegam aos 18 anos sem diagnóstico. A idade média de diagnóstico para mulheres é de 14 anos, enquanto para homens é de 7, e um terço das mulheres só recebe o diagnóstico depois dos 20 anos, realidade de menos de 10% dos homens. Isso significa que muitas dessas mulheres já são mães quando finalmente entendem quem são.
Se você é uma mãe autista lendo isso, o que você sente tem nome. Durante anos, talvez você tenha achado que o problema era você, mas o que pesa não é quem você é, mas o peso de um sistema que nunca foi pensado para acolher quem funciona diferente. Nomear isso já é resistência. Criar filhos sendo quem você é, sem pedir desculpa por isso, também.





