livro infantil imagina origem do samba

Nsamba era uma mulher sábia que vivia em um vilarejo africano. Gostava de contar histórias e cantar seus versos, e os moradores da comunidade se encantavam com sua presença. Certo dia, resolveu ensinar um jeito novo de mexer o corpo ao ritmo da música: surgia daí o samba. É assim, de forma lúdica, que o livro Nsamba conta a origem do ritmo mais popular do Brasil.

Publicada pela Companhia das Letrinhas, a obra marca a estréia de Maitê Freitas na literatura infantil. A autora é jornalista, gestora cultural e pesquisadora do samba, sendo, por exemplo, uma das organizadoras da Coleção Sambas Escritos (Pólen, 2018) e idealizadora da plataforma Samba Sampa.

Nsamba é um convite para imaginarmos jeitos de ver, estar e perceber o mundo. Lembrar dos nossos quintais, dos encontros familiares, das músicas e de como essa musicalidade negra é capaz de compor formas de nos relacionar e existirmos em comunidade

Maitê Freitas

As ilustrações do livro são de Carol Fernandes, com trajetória marcada pela autoria de livros ilustrados, incluindo “Terra”, criado junto a Yuri de Francco.

“Nsamba nos ensina a perceber escutando, cantando e contando, como o samba é um ritmo fundamental que faz parte das nossas origens, identidade e formas de existência, comunicação e registro da história das populações negro-brasileiras. Com Nsamba podemos aprender que há muita força e poder no ato de nos reunirmos em roda e partilharmos nossas alegrias, desejos, amores, dores e sonhos e, assim e em movimento, construirmos futuros”, relata.

A narrativa de Nsamba

Para construir a narrativa de Nsamba, Maitê fez uso da tradição oral africana e de registros históricos em torno das culturas negras. Algumas das letras dos cânticos presentes na obra, inclusive, são descritas na língua quicongo, uma das milhares de línguas faladas no continente africano.

Segundo a autora, a motivação para criação da obra veio de uma conversa com o cantor Tiganá Santana. Ele contou que havia em África um culto ancestral a Nsamba, na região dos países Congo e Angola, reconhecidos como locais de origem ancestral do samba.

Outra inspiração foi um texto do músico Salloma Salomão que pontua que registros do processo histórico de escravização de pessoas africanas nas Américas mostram que “Samba” era comumente usado como nome próprio.

“Aos poucos, fui unindo essas duas informações e construindo um universo mítico que pudesse contar, fabular sobre o samba sendo aquilo que para mim ele é em origem: uma força feminina que gera e celebra a vida”, relata.

Diante desse contexto, Maitê relata a importância de crianças conhecerem a história e as relações em torno do samba. “Saber a origem desses elementos culturais que nos formam quanto sociedade, nos ajuda a respeitar os fundamentos e as diferenças. Estar em uma roda ou escola de samba é conviver com as diferenças e se aliar ao outro pela alegria, pela festa. Ao meu ver, samba é um catalisador de vida, cantar, bater palma junto, dançar. Sentir tudo que essa expressão musical traz é um jeito da gente se sentir mais vivo e mais integrado com o todo”.

Os traços da personagem

No livro, Nsamba se materializa como uma mulher negra que usa tranças nagô e búzios, além de carregar uma cabaça à tiracolo. Segundo a ilustradora Carol Fernandes, entre os significados simbólicos da cabaça, estão seu poder de guardar a fertilidade, os mistérios e segredos da vida e da morte.

“Para criar Nsamba e seu universo imagético, fui entrando no ritmo das palavras de Maitê e me vi em relação com uma personagem intensamente feliz, criativa e envolvente”, conta.

Para ela, a história permite que os pequenos leitores passem a adentrar o vasto referencial do samba.

Mergulhar e se entregar ao samba é, antes de tudo, um movimento de fortalecimento das nossas belíssimas, inúmeras e complexas identidades negras.

Carol Fernandes

Para a ilustradora, esta é “uma interessantíssima possibilidade de conhecermos nossas narrativas, sejam elas reais ou fabuladas a partir das vozes, versos e danças de nossos ancestrais, que em seus quintais, barracões, terreiros e encruzilhadas cravaram, no DNA de nossa história, o que o racismo insiste, fracassadamente, em apagar”.



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