Cobertura vacinal abaixo da meta expõe crianças Yanomami à coqueluche

Laura Yanomami chegou ao hospital no dia 6 de março com a filha de quatro meses no colo. Desde então, a rotina virou espera e angústia. Por semanas, ela voltava sozinha para a Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), enquanto a bebê permanecia internada.

A criança foi retirada da comunidade Hewetheu, na região de Surucucu, em Alto Alegre (RR), em estado grave. Veio de “buru” (como os Yanomami chamam o helicóptero) direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com complicações provocadas pela coqueluche.

A conversa com Laura atravessa a língua. É mediada por tradução, pausas e silêncios. “Ela está internada há três semanas. Está no oxigênio e recebendo alimento pela sonda”, explica. A conversa, realizada quando Laura e a filha estavam no hospital há dois meses atrás, foi intermediada por um tradutor. Na etnia Yanomami, em geral, apenas as lideranças e membros da aldeia que atuam nos serviços de saúde falam português.

Quando fala, Laura evita encarar por muito tempo. A resposta vem curta, carregada. “Ela diz que tem medo de perder a filha, como aconteceu com outras mulheres da região. Diz que está triste”, informa por meio da tradução.

A bebê de Laura não tinha nome até ser internada – entre os Yanomami, esse é um processo que pode levar tempo. No Hospital da Criança Santo Antônio, em Boa Vista (RR), ela não era a única. Havia pelo menos outro caso confirmado de coqueluche entre crianças indígenas na unidade, que concentra atendimentos de urgência e emergência na região.

Desafios e subnotificação

Dados da Secretaria Municipal de Saúde indicam que, entre janeiro e o fim de março de 2026, foram confirmados 25 casos da doença no estado. Desses, 21 atingiram os indígenas. Três crianças morreram.

As crianças que foram as primeiras vítimas da coqueluche receberam atendimento no Polo Base de Surucucu e, de lá, foram encaminhadas ao Hospital da Criança em Boa Vista.

A gestão municipal afirma que o número de entradas “estabilizou” no período. Nos bastidores, profissionais de saúde relatam preocupação com a subnotificação e com a dificuldade de acesso às comunidades mais isoladas.

A filha de Laura sobreviveu à fase mais crítica. Após dias na UTI e passagem pela semi-intensiva, deixou o quadro de insuficiência respiratória aguda grave. “Ela evoluiu bem”, disse uma fonte ouvida pela reportagem. No início de abril, mãe e filha voltaram a ficar juntas na Casai e depois retornaram para a comunidade.

A doença que vitimou o bebê yanomami é uma das que entram pelas frestas deixadas pela imunização abaixo do ideal persistente na Terra Indígena Yanomami (TIY). A reportagem do Nós obteve junto ao Ministério da Saúde dados sobre o atual cenário de cobertura vacinal no território. O órgão afirma que houve investimento após a crise humanitária deflagrada em 2023.

Segundo o Ministério, a cobertura do esquema vacinal completo, que conta com as doses previstas no calendário nacional, entre menores de 1 ano, passou de 32,2%, em 2023, para 57,8%, em 2025. Já entre os menores de 5 anos, o indicador evoluiu de 53,3% para 73,5% no mesmo período.

Entre as crianças, a cobertura para as vacinas pentavalente e tríplice bacteriana (DTP) passou de 58,5% em 2024 para 76,1% em 2025. Esses imunizantes ampliam a proteção contra doenças como a coqueluche nos primeiros meses de vida. Ainda segundo o Ministério, o número geral de atendimentos cresceu 72,6% e os óbitos foram reduzidos em 27,6% no primeiro semestre de 2025.

A diretora de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, organização que atua na promoção dos direitos da primeira infância, Marina Fragata, analisa que “apesar do crescimento, é importante destacar que a vacinação no Território Yanomami de 76,1% ainda é inferior à média de 87,69% da população de menores de um ano no país, e que ambos os indicadores estão abaixo da meta de 95% de cobertura”, pondera.

A diretriz da Organização Mundial de Saúde (OMS), seguida pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), é de que se deve atingir a meta de 95% de cobertura vacinal para assegurar o controle de doenças.

Focando no percentual de crianças menores de um ano com esquema vacinal completo, “o comportamento é o mesmo, ou seja, houve evolução de 32,2%, em 2023, para 57,8%, em 2025, mas esse indicador ainda é muito baixo, deixando uma quantidade grande de crianças sem receber todas as doses necessárias”, analisa.

A vacinação tem um papel essencial na primeira infância. É nesta fase da vida que o sistema imunológico está em pleno desenvolvimento, tornando os bebês mais vulneráveis a infecções graves. Doenças como a coqueluche, sarampo e meningite têm capacidade de evolução rápida nessa fase da vida, sendo capaz de levar a internações, sequelas permanentes e até à morte.

Profissionais do Centro de Atendimento Integrado à Criança Yanomami e Ye´kwana (CAICYY), unidade do governo federal implantada em Boa Vista, atendem de forma multidisciplinar os indígenas em tratamento na capital, fora das aldeias. A unidade visa  à proteção social e à garantia de direitos por meio de uma equipe para, sobretudo, respeitar a cultura em casos de intubação e mortes.

A assistente social Jackline Costa, coordenadora-geral do CAICYY, corrobora com a avaliação de Mariana Fragata. Indígena do povo Wapichana, a profissional critica a cobertura vacinal nas comunidades da TIY e o rastreio da doença.

“Muitas vezes, a coqueluche só é identificada tardiamente, quando a criança já está em estado muito avançado, e ela acaba não resistindo devido à falta de atendimento básico de saúde. Precisamos levar essas informações adiante para avançar na garantia dos direitos básicos da criança, que são uma responsabilidade de todos nós”, ressalta. “Estamos falando da ausência de vacinas em territórios como forma de garantir a vida.”

Cobertura vacinal do Ministério da Saúde

A reportagem do Nós, Mulheres da Periferia levantou dados do Painel de Cobertura Vacinal do Ministério da Saúde sobre a cobertura vacinal dos três principais imunizantes de combate à coqueluche da cidade de Manari, que fica a 355 km de Recife (PE) e que possui o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), 0,487. A cidade possui um percentual de 128,26% de cobertura para o imunizante Penta, 93,48% para DTP e 100% para tríplice. Ou seja, ainda que esteja em condição de grande vulnerabilidade, essa localidade ainda possui índices de cobertura superiores aos da Terra Yanomami.

A comparação entre esses dois cenários nos ajuda a entender a realidade do povo Yanomami no que se refere à imunização. Segundo a médica e membro do INKI, um ecossistema de saúde que utiliza inteligência artificial para conectar pacientes e médicos que atuam de forma humanizada e com cuidados éticos, Aline Passos, “apesar de partilharem de vulnerabilidades semelhantes, há diferença logística e geográfica entre ambos.”

Em outras palavras, em Manari, cidade na área urbana, “é possível alcançar coberturas mais altas porque há maior continuidade territorial, acesso terrestre, presença mais constante das equipes de saúde e maior facilidade de armazenamento e distribuição dos imunizantes”, detalha. Por outro lado, na Terra Yanomami, “há dificuldades de cadeia de frio, sazonalidade climática e necessidade de articulação intercultural. Além disso, a vacinação depende da construção de confiança entre equipes de saúde e lideranças indígenas, respeitando a autonomia e a dinâmica própria de cada comunidade”, esmiúça.

O caso da Terra Yanomami, evidencia como “a cobertura vacinal vai muito além da simples disponibilidade da vacina”, avança Passos, que arremata, dizendo que “há populações em situação de grande vulnerabilidade social, mas com desafios bastante diferentes para a saúde pública, o que exige continuamente uma abordagem multidimensional”, finaliza.

Trocando em miúdos, a política de cobertura vacinal, assim como outras medidas de saúde devem considerar as peculiaridades dos povos Yanomami, o que envolve desafios logísticos, culturais e econômicos diferenciados que demandam esforços adequados para serem superados.

Ouvimos Júnior Hekurari, integrante do povo Yanomami, considerando os princípios culturais que regem a forma de organização social da etnia, que atribui aos homens o papel de exercer a liderança e de atuar como porta – vozes do povo.Júnior, presidente da Urihi, organização que atua pela defesa dos direitos dos povos Yanomami, afirma que “o episódio da coqueluche expõe como o Estado brasileiro ainda falha em assegurar o básico para a Terra Yanomami.” Ele também considera que, “mesmo com a ampla propaganda sobre a vacinação, é a gente que bota a vacina dentro do território.”

Impacto do surto na aldeia

Júnior Hekurari Yanomami afirma que o relato de Laura e sua filha é reflexo de um grande gargalo, cujo nome é: “negligência institucional”.

Segundo o líder Yanomami, a população lidou com a enfermidade “com dificuldade e medo” por desconhecer a doença, o que “causou sofrimento às mães, pais e a toda a comunidade”, detalha.

Diante do luto e da incerteza, as associações (Hutukara – organização presidida por Davi Kopenawa – e Urihi) acionaram o Ministério da Saúde, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e o Ministério Público Federal, exigindo respostas. Segundo as lideranças, a tragédia foi provocada pela falta de imunização.

Para o povo Yanomami, lidar com doenças é algo delicado. Isso se deve ao fato de que as xawaras, como eles chamam as enfermidades, virem dos brancos, os napëpë. Por isso, muitos precisam realizar rituais espirituais para conhecer a origem do problema. Durante a epidemia de Covid- 19, os xamãs Yanomami viajaram em espírito até a China para identificar a origem do mal.

Por essa razão, é comum eles relatarem a angústia de lidar com a enfermidade sem conhecimento do que se trata. Na cultura Yanomami, as crianças são consideradas como seres em construção, que precisam de vários rituais para ficarem completas. Elas não recebem praticamente nenhum tipo de castigo físico, justamente por serem consideradas em formação.

Os primeiros seis anos de vida

A primeira infância Yanomami é marcada pela liberdade. A floresta é o playground delas. Elas brincam de barco, com diversos tipos de madeira, imitam aviões, usando vários tipos de hélice, folhas, graveto e fogo. As crianças são criadas de forma muito livre.

Já nesta fase da vida, elas aprendem a desempenhar as atividades essenciais à sobrevivência. Desde cedo têm a mira com arco e flecha, os meninos aperfeiçoam a habilidade ainda bem pequenos, capazes de atingir uma caça rapidamente.

Garantir que o serviço de saúde vai estar presente, assegurando esse desenvolvimento com segurança, ainda é um desafio para esse povo. Marina Fragata destaca que “há dificuldade de acesso tanto da parte das equipes de saúde, que não conseguem chegar às comunidades, assim como das próprias populações, que, em busca de atendimento, chegam a percorrer longas horas de viagem a pé, de barco ou com outro tipo de transporte”, explica.

Reflexos de um problema nacional

A queda na cobertura vacinal é um problema nacional, que se iniciou em 2015. Cinco anos mais tarde, durante a pandemia, a situação foi acentuada de tal forma que os dez imunizantes específicos da primeira infância tiveram cobertura inferior à registrada em 2019, conforme mostrou a pesquisa Desigualdade e Impactos da Covid-19 na atenção à primeira infância” (2022), realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Itaú Social e o UNICEF, e com apoio da UNDIME e do CONGEMAS.

Crianças na fase entre os dois e seis meses de vida devem ter acesso gratuito às vacinas contra poliomielite, difteria, tétano e coqueluche, além de doenças como viroses com sintomas de diarreia e vômito; também pneumonia, sepse, meningite, entre outras. Ou seja, um pacote completo para combater as doenças que mais ameaçam a primeira infância. Se há queda na imunização, o reflexo para o público infantil é severo.

Segundo Fragata, a pesquisa Desigualdade e Impactos da Covid-19 na atenção à primeira infância” (2022) revela que a BCG tinha cobertura de 86,6% em 2021”, mas caiu para 68,6%. Já a poliomielite foi de 84,1% para 69,4% no período. A meta do Ministério da Saúde para cobertura desses imunizantes é 90% e 95%, respectivamente.

Ainda de acordo com a especialista, essa queda trouxe consequências para o país, “o Brasil perdeu o certificado de país livre de sarampo em 2019 devido à diminuição da vacinação e ao aumento da doença. Foi recertificado em novembro de 2024, mas os indicadores seguem estando muito próximos do mínimo necessário”, conclui.

Outros indicadores

A reportagem do Nós obteve, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) dados sobre a cobertura de serviços básicos voltados à primeira infância, que, ao lado da vacinação, cumprem papel decisivo no combate à mortalidade infantil. A série histórica, que compreende os anos de 2020 a 2025, revela a evolução da população com idade de 0 a 6 anos e de crianças menores de um ano com ao menos uma consulta realizada.

A população de crianças na primeira infância na TI Yanomami aumentou em 1.770 habitantes, saindo de 7.968, em 2020, para 8.738, em 2025, dizem os dados.

Em 2022, um ano antes de eclodir a crise sanitária na imprensa, foi registrado o menor percentual (67,3%) de crianças menores de um ano com alguma consulta. Os demais anos com os percentuais mais baixos foram 2020, com 71,8%, e 2024, com 79%. Por outro lado, em números absolutos, 2023, ano em que a crise sanitária veio a público, teve registradas 1.009 consultas, o número mais alto da série histórica.

Em outros indicadores de saúde, há uma tendência de que as crianças indígenas tenham desvantagem em relação às não indígenas. “Quando as causas são relacionadas a doenças do aparelho respiratório, doenças infecciosas e parasitárias ou doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas, a proporção de mortes entre não indígenas é de apenas 14%, enquanto entre os indígenas sobe para 38%”, explica Fragata, citando dados do DataSUS.

Possíveis soluções

Medidas envolvendo reforço nos serviços de saúde e melhoria na comunicação podem ampliar a cobertura vacinal, diz a especialista da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. No aspecto estrutural, ela recomenda a “ampliação das equipes de saúde indígena e fluvial, o fortalecimento dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) e a oferta de vacinação extramuros e o uso de unidades móveis, barcos e aeronaves para alcançar aldeias isoladas”, frisa.

A especialista reforça que a desinformação, que promove a hesitação vacinal, ainda precisa ser combatida e que as lideranças da comunidade têm papel relevante neste sentido. “A adesão à vacina aumenta quando a informação é transmitida por pessoas e lideranças da própria comunidade, em língua local e respeitando aspectos culturais específicos”, justifica.

Por fim, ela considera eficiente acompanhar “a condicionalidade da vacinação da população indígena beneficiária do Bolsa Família”, o que pode gerar impactos positivos.

Por fim, o representante da etnia considera que “o medo não passou porque a emergência continua ativa.” O que mudou, na verdade, foi a engrenagem que move a assistência de saúde no território, hoje operando sob a lógica reativa do escândalo público. “Quando estamos gritando sozinhos, fazendo ofício, eles não levantam da cadeira de ar-condicionado. Assim que sai nos jornais, vão se mexer igual a bombeiro, para apagar o fogo. Apagou, dizem: ‘resolvemos’”, critica Hekurari.

Outro lado do Ministério da Saúde

O governo federal, por meio do Ministério da Saúde, sustentou em nota que a “vacinação é a principal medida de controle da coqueluche e, aliada às altas coberturas vacinais, ao diagnóstico rápido e ao tratamento precoce, contribui para a redução da circulação da doença e para a proteção da população”.

Questionado pelo Nós sobre quais condições climáticas, sanitárias e de infraestrutura contribuem para o avanço da coqueluche na TIY, a pasta não respondeu detalhadamente, se limitando a afirmar que “fatores ambientais, sanitários e estruturais favorecem a disseminação da coqueluche, especialmente entre crianças pequenas.”

Em relação às medidas previstas para a primeira infância Yanomami, o MS informou que está implantando um módulo de Monitoramento do Desenvolvimento na Infância Indígena no Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (SIASI). “A ferramenta permite acompanhar crianças de 0 a 10 anos, ajudando as equipes a identificar precocemente atrasos no desenvolvimento, sinais de autismo, dificuldades de crescimento, situações de violência e outros agravos”, diz a nota.

A pasta também citou a criação do Guia de Fortalecimento do Cuidado à Saúde da Criança Indígena Menor de 5 anos. O documento, segundo a assessoria de imprensa do Ministério, foi construído “em diálogo com as Equipes Multiprofissionais de Saúde Indígena (Emsi), lideranças e especialistas das medicinas indígenas” para “unir conhecimento técnico e saberes tradicionais para promover saúde, prevenir doenças e ampliar o bem-viver das crianças nos territórios.”

O órgão afirma ainda que as medidas fazem parte de um “esforço contínuo” para garantir mais “cuidado, proteção e qualidade de vida desde os primeiros anos de vida”, finaliza a resposta.



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