por que a maternidade transforma tanto as mulheres

“Quanto tempo uma mulher leva para voltar a ser quem era antes da maternidade?”. Nos últimos anos, pesquisas em psicologia, saúde mental, sociologia e neurociência começaram a questionar a própria ideia por trás dessa pergunta.

Para muitas pesquisadoras, a experiência de gestar não representa uma pausa temporária da identidade, seguida de um retorno ao “normal”. A maternidade muda o corpo, a rotina, as relações, as emoções e até o cérebro. Em vez de simplesmente voltar a ser quem era antes, muitas mulheres passam anos tentando entender quem se tornaram.

“Depois que meu filho nasceu, parecia que eu tinha virado outra pessoa”. Essa sensação aparece em relatos de mães no mundo inteiro. Às vezes vem acompanhada de esquecimento, cansaço, choro fácil, culpa, sensação de invisibilidade ou da impressão de que a mulher que existia antes da maternidade ficou distante.

Mas isso é apenas uma sensação subjetiva ou a maternidade realmente muda quem a gente é?

Ninguém “vira mãe” da noite para o dia

No artigo Tornar-se mãe: a construção da identidade materna sob a perspectiva da psicologia humanista (2026), pesquisadoras brasileiras defendem que a maternidade não muda apenas a rotina da mulher — ela muda a forma como ela passa a enxergar a si mesma.

O estudo parte da ideia de que a identidade não é algo fixo. Ao longo da vida, experiências importantes vão transformando a maneira como cada pessoa se percebe, se relaciona com os outros e entende seu lugar no mundo. E, segundo as autoras, poucas experiências provocam mudanças tão profundas quanto a maternidade.

Por isso, o artigo afirma que a maternidade reorganiza o “self” — termo usado na psicologia para falar da imagem interna que a pessoa constrói sobre quem ela é. Na prática, isso pode aparecer de muitas formas:

mudanças nas prioridades;

sensação de perda de autonomia;

dificuldade de reconhecer o próprio corpo;

alterações na autoestima;

afastamento de antigas versões de si mesma;

mudanças nas amizades e nos relacionamentos;

sensação de culpa ao dedicar tempo para si;

dificuldade de equilibrar maternidade e identidade individual.

As pesquisadoras explicam que esse processo costuma vir acompanhado de sentimentos contraditórios. Muitas mulheres relatam amor profundo pelos filhos, mas também cansaço, medo, insegurança, tristeza e sensação de sobrecarga — emoções que frequentemente entram em conflito com a expectativa social de que a maternidade deveria ser vivida apenas com felicidade.

É nesse contexto que o artigo recupera a frase do psiquiatra Daniel Stern:

O nascimento de um bebê implica também o nascimento de uma mãe.

Essa ideia aponta que a maternidade não surge pronta no parto. Assim como o bebê vai se desenvolvendo aos poucos, a mulher também vai aprendendo a ocupar esse novo lugar.E isso envolve uma espécie de reconstrução interna.

Muitas mães sentem que desapareceram

Uma das sensações mais recorrentes nos relatos é a de perda da própria identidade. No estudo O impacto da maternidade no cotidiano de mulheres com filhos de 0 a 4 anos (2026), pesquisadoras da Universidade de São Paulo identificaram que muitas mães deixam de fazer atividades importantes para si mesmas depois da chegada dos filhos.

Entre elas:

cuidar do próprio corpo;

As autoras explicam que isso acontece porque o cuidado com os filhos acaba ocupando quase todo o tempo físico, mental e emocional das mulheres. Na prática, muitas mães deixam de existir como pessoas com desejos, interesses e necessidades próprias e passam a ser vistas apenas a partir do papel materno.

O estudo também chama atenção para a desigualdade na divisão do cuidado dentro de casa. Mesmo quando trabalham fora, muitas mulheres continuam sendo as principais responsáveis pela rotina dos filhos, pela organização da casa e pelo trabalho emocional da família.

“A pressão e as demandas associadas à maternidade se refletem em uma limitação perceptível na participação na vida cotidiana e no envolvimento em ocupações significativas, levando as mães a enfrentarem dificuldades para equilibrar suas responsabilidades e preservar sua qualidade de vida”, apontam as pesquisadoras.

A sensação de invisibilidade também aparece na revisão Invisibilidade da mulher no puerpério (2021), da pesquisadora Carolina Rocha de Albuquerque. Segundo o estudo, existe uma tendência social e até institucional de concentrar toda a atenção no recém-nascido, enquanto as necessidades físicas e emocionais da mãe passam a ser tratadas como secundárias.

Isso aparece de várias formas:

pouca escuta sobre o sofrimento emocional da mulher;

banalização do cansaço extremo;

falta de atenção à saúde mental;

silenciamento sobre dor e desconforto físico;

ausência de acolhimento para inseguranças e medos;

pressão para que a mãe esteja feliz o tempo todo.

O estudo também chama atenção para a forma como o cuidado em saúde costuma se organizar no puerpério. “Percebi também que após o parto, a visita puerperal é mais centrada no recém-nascido do que na própria puérpera, deixando, muitas vezes, o cuidado e amparo à mulher renegado. Logo percebi que existe uma invisibilidade feminina frente aos cuidados pós-parto”, destaca a autora.

Isso acontece justamente em um período em que o corpo, os hormônios e a saúde mental da mulher ainda estão passando por mudanças intensas — muitas delas muito além das primeiras semanas após o parto.

O pós-parto é mais longo do que se imagina

Diversos estudos sobre pós-parto mostram que a recuperação física, hormonal, emocional e mental acontece em ritmos diferentes para cada mulher. A pesquisa Pregnancy and postpartum dynamics revealed by millions of lab tests (“Dinâmicas da gravidez e do pós-parto reveladas por milhões de exames laboratoriais”, em tradução livre), de 2025, por exemplo, analisou mais de 44 milhões de exames laboratoriais de mais de 300 mil gestações para investigar esse tema.

Os pesquisadores identificaram que cerca de metade dos marcadores fisiológicos avaliados levavam entre três meses e um ano para retornar aos níveis anteriores à gravidez. Isso inclui indicadores ligados:

aos hormônios, responsáveis por regular emoções, sono, amamentação, libido e ciclos do corpo;

ao metabolismo, relacionado à energia, peso, fome e forma como o organismo usa nutrientes;

ao sistema imunológico, que ajuda o corpo a se proteger de infecções e se recuperar fisicamente;

ao funcionamento do fígado e dos rins, órgãos importantes para filtrar substâncias, eliminar toxinas e equilibrar o organismo;

aos níveis de nutrientes e inflamação no corpo, ligados à recuperação física, cicatrização, cansaço, imunidade e bem-estar geral.

O estudo também mostrou que as partes do organismo se recuperam em velocidades diferentes. Enquanto alguns parâmetros voltavam ao normal em poucas semanas, outros continuavam alterados muitos meses depois do parto. Alguns ainda apresentavam mudanças mesmo após um ano.

Assim, os pesquisadores argumentam que: “As partes do organismo se recuperam em velocidades diferentes: alguns parâmetros voltavam ao normal em poucas semanas, outros permaneciam alterados muitos meses depois do parto, e alguns ainda apresentavam mudanças mesmo após um ano”.

Essa ideia também aparece no estudo Assessment of recovery after childbirth(“Avaliação da recuperação após o parto”, em tradução livre), de 2025. As autoras explicam que:

“A recuperação pós-parto é frequentemente subestimada e tradicionalmente focada na cicatrização física, apesar das evidências sugerirem que a recuperação abrange múltiplos domínios e se estende muito além de seis semanas.

Para investigar isso, o estudo entrevistou 1.117 mulheres entre três e seis meses após o parto e analisou quatro dimensões da recuperação: física, mental, sexual e retomada das atividades cotidianas. Os resultados chamaram atenção porque apenas 42,5% das mulheres entrevistadas disseram se sentir totalmente recuperadas entre três e seis meses após o parto.

A pesquisa também concluiu que cada parte da recuperação acontece em ritmos diferentes. Algumas mulheres conseguiam voltar relativamente rápido às atividades do dia a dia, mas continuavam emocionalmente exaustas. Outras se sentiam melhor mentalmente, mas ainda enfrentavam dores físicas, dificuldades sexuais ou sensação constante de cansaço.

Segundo as autoras, isso ajuda a desmontar a ideia de que existe um “prazo padrão” para a recuperação materna. O pós-parto não acontece de forma linear e nem igual para todas as mulheres. Experiências negativas no parto, privação de sono, dor persistente e sintomas depressivos apareceram associados a recuperações mais lentas.

Para elas, os resultados demonstram que o pós-parto precisa ser entendido de maneira mais ampla, considerando não apenas a cicatrização do corpo, mas também o bem-estar emocional, mental, social e sexual das mulheres.

Nos últimos anos, pesquisas em neurociência começaram a reforçar essa ideia ao mostrar que a maternidade não transforma apenas a rotina ou as emoções. Ela também provoca mudanças concretas no cérebro feminino.

O cérebro da mãe realmente muda

Na revisão Mudanças e alterações no cérebro feminino na gravidez e no pós-parto (2025), pesquisadoras reuniram estudos sobre as transformações cerebrais vividas por mulheres durante a gestação e o pós-parto. Segundo o texto, a maternidade provoca mudanças reais em áreas do cérebro ligadas:

à capacidade de responder ao cuidado.

As autoras explicam que essas mudanças acontecem por causa da intensa ação hormonal durante a gravidez e o pós-parto. Hormônios como ocitocina, estrogênio, progesterona e prolactina ajudam a reorganizar circuitos cerebrais ligados ao comportamento materno e à regulação emocional.

O estudo aponta alterações em regiões como:

o córtex pré-frontal, ligado à tomada de decisões e ao controle emocional;

a amígdala, relacionada às emoções e à percepção de ameaças;

o hipocampo, importante para memória e processamento emocional.

“Pode-se considerar que a maternidade promove uma reorganização cerebral significativa, a qual pode influenciar positivamente o comportamento materno e o desenvolvimento infantil, evidenciando a importância do suporte à saúde mental perinatal”, enfatizam.

A revisão também mostra que algumas alterações cerebrais podem permanecer por bastante tempo após o parto. Estudos citados pelas autoras identificaram mudanças que ainda estavam presentes até dois anos depois da gravidez.

As pesquisadoras explicam que essas transformações fazem parte da chamada neuroplasticidade — capacidade do cérebro de se adaptar a novas experiências e demandas da vida. Mas o estudo alerta que essa reorganização intensa também pode aumentar a vulnerabilidade emocional das mulheres, especialmente em contextos de sobrecarga, privação de sono, estresse e falta de apoio.

Além disso,a mesma plasticidade cerebral que ajuda na construção do vínculo com o bebê também pode estar relacionada ao aumento de quadros de ansiedade e depressão pós-parto em algumas mulheres.Essas descobertas ajudam a reforçar uma ideia que muitas mães já conhecem na prática: o pós-parto não termina poucas semanas depois do nascimento do bebê. Para a ciência, a recuperação da maternidade pode ser muito mais longa — e mais complexa — do que durante muito tempo se imaginou.



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