O direito ao voto feminino no Brasil é resultado de décadas de mobilização do movimento feminista e de mulheres que desafiaram a exclusão política para serem reconhecidas como cidadãs. Almerinda Farias Gama dedicou boa parte de seu tempo ao movimento sufragista. Celina Guimarães Viana foi a primeira eleitora de que se tem registro. Antonieta de Barros foi a primeira mulher negra eleita deputada estadual. Ao lutarem pelo direito de votar e serem votadas, essas e outras muitas mulheres se mobilizaram para serem reconhecidas como cidadãs. Apesar da distância temporal, ainda hoje mulheres seguem lutando por cidadania plena e participação política.
Nesta reportagem, te contamos como o direito ao voto das mulheres foi uma conquista histórica que reverbera até hoje, e como a luta por cidadania segue ativa. O voto feminino, permitido a partir de 1932, foi resultado ao longo de décadas de mobilização do movimento feminista.
A Constituição de 1891, a primeira do período republicano, definia que cidadãos maiores de 21 anos podiam votar, com exceção de mendigos, analfabetos, militares de patente baixa e religiosos que faziam voto de obediência. Portanto, não havia proibição expressa ao voto de mulheres, por isso, muitas delas faziam tentativas de se alistarem para votar. No entanto, essas tentativas eram negadas, porque o consenso era de que mulheres não eram consideradas cidadãs.
“A restrição ao voto feminino humilhava as mulheres que sabiam ler e escrever, notoriamente as professoras. A privação do direito causa uma vergonha, um sentimento de injustiça”, afirma Teresa Cristina de Novaes Marques, professora da Universidade de Brasília (UnB) e autora do livro “O voto feminino no Brasil”.
©Teresa Cristina. Crédito: arquivo pessoal
Diante dessa injustiça, vários grupos feministas lutaram pelo direito ao voto em diferentes períodos. Entre elas, estava o movimento liderado pela ativista Bertha Lutz, da Liga para a Emancipação Internacional da Mulher.
Em 1927, o grupo de Bertha se aproximou do parlamentar Juvenal Lamartine, que representava o estado do Rio Grande do Norte. Ele julgou que carregar a bandeira do voto feminino era justo e poderia favorecê-lo na política.
Naquele ano, Juvenal renunciou à sua cadeira no Senado para assumir o governo de seu estado. A partir disso, seriam necessárias eleições complementares a fim de escolher o novo representante do estado no Senado.
“Ele fez uma negociação com o Poder Judiciário do estado para que se permitisse que mulheres se alistassem nessa eleição. Foi um gesto de ousadia, a fim de que a pauta alcançasse o plano nacional e forçasse o legislativo federal a retomar a discussão de um assunto que vinha se arrastando há quase 40 anos”, explica Teresa Cristina.
O Judiciário estadual não se opôs à habilitação de mulheres como eleitoras e então mulheres do estado passaram a se alistar para votar. A primeira a exercer esse direito foi a professora Celina Guimarães Viana.
No entanto, o voto de Celina e de todas as demais eleitoras foi desconsiderado. “Essa votação passou pelo crivo da comissão interna do Senado. Elas votam no final de 1927, e no semestre seguinte, em 1928, essa comissão declarou inválidos os votos dados pelas mulheres”, diz a professora.
Nesse mesmo período, há um outro marco: a eleição da primeira mulher para um cargo político. Alzira Soriano foi eleita prefeita da cidade de Lajes (RN) – o que foi possível a partir dos acordos feitos no estado para mulheres votarem e serem votadas. Ela assumiu em 1º de janeiro de 1929 e teve quase dois anos de mandato, encerrado devido à Revolução de 1930, do governo de Getúlio Vargas.
A conquista do voto feminino
A conquista do voto feminino vem de fato em 1932, durante a gestão ditatorial de Getúlio Vargas. O presidente recebeu as feministas do grupo ligado à Bertha Lutz e concordou com elas. “Ele permitiu que o Código Eleitoral de 1932 admitisse a inscrição de mulheres que preenchessem os requisitos”, pontua a professora Teresa Cristina.
Ainda assim, o direito continuava restritivo: apenas pessoas alfabetizadas podiam votar. Isso já excluía boa parte da população – em 1940, a taxa de analfabetismo era de 56%.
As mulheres que sabiam ler e escrever puderam votar nas eleições da Assembleia Nacional Constituinte, em 1933. Entre elas, estava Almerinda Farias Gama, que protagoniza uma foto sorridente enquanto deposita seu voto na urna.
©Almerinda vota pela primeira vez. Crédito: Acervo CPDOC/FGV
Almerinda atuou como advogada, jornalista, pianista, poetisa, sindicalista, compositora e política. Entre os marcos de sua trajetória está a luta sufragista – ela fazia parte do grupo de Bertha Lutz.
“Foi uma mulher assalariada, trabalhadora, datilógrafa, uma mulher negra migrante nordestina que vai morar no Rio de Janeiro, a então capital do país, e se junta a esse movimento sufragista, que a gente sabe que era organizado em maior parte por mulheres de uma elite financeira e intelectual”, afirma Cibele Tenório, pesquisadora, jornalista e autora do livro Almerinda Gama: a sufragista negra.
Com a conquista do direito de votar e ser votada, a mobilização das sufragistas ganhou um novo capítulo: era necessário convencer as mulheres de participarem das eleições. Almerinda, por exemplo, publicava artigos em jornais explicando os objetivos do movimento feminista e convocando mulheres para se alistarem.
A ativista fundou o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal e foi, como representante desse Sindicato, a única mulher a participar como delegada classista na Assembleia Nacional Constituinte, na qual atuou até a promulgação da Carta, em outubro de 1934.
Depois disso, se candidatou a deputada federal pela sigla que ela mesma fundou, o Partido Socialista Proletário do Brasil. Não foi eleita ao cargo, mas continuou sua atuação política. Nessas mesmas eleições, outra mulher negra atingiu um marco nessa área: Antonieta de Barros foi eleita deputada estadual em Santa Catarina em 1934, pelo Partido Liberal Catarinense.
Abertura de caminhos
Cibele Tenório enxerga na trajetória de Almerinda Farias Gama uma abertura de caminhos para mulheres que atuam hoje na política. “A coragem de Almerinda, a disposição de ser uma mulher que em dupla jornada, entre trabalho e vida doméstica, e mesmo assim querer se colocar para a política, num ambiente muito masculino, hostil e racista, eu acredito que de alguma maneira ela é um fio condutor, que conecta essas mulheres do passado com as mulheres que estão à frente da luta hoje”, destaca.
©Cibele Tenório. Crédito: arquivo pessoal
Outra conexão entre as mulheres do ontem e do hoje é a busca por cidadania plena, o direito a serem de fato ouvidas e consideradas nas decisões políticas, e de poderem ocupar esses espaços de discussão.
Mas, fato é que muita coisa mudou. “Hoje existe mais pluralidade entre aquelas que se colocam, têm mais mulheres periféricas, mulheres trans, mulheres indígenas”.
Apesar dos avanços, Cibele acrescenta que o ambiente político se mostra ainda muito hostil para as mulheres, lembrando sempre que aquele espaço não foi feito para nós. Um exemplo disso é que até 2016 não havia banheiro feminino no plenário do Senado Federal, “porque nunca se imaginou na construção de Brasília, que mulheres ocupariam o Senado”.
Já a professora Teresa Cristina destaca a sub-representação das mulheres na política institucional. “E as que conseguem chegar ao parlamento vão ter muita dificuldade para serem ouvidas e terem projetos aprovados. A todo tempo elas serão questionadas: ‘o que que elas estão fazendo ali?’”;
E acrescenta: “é um problema que não se resolve exatamente com lei, porque é um problema cultural, que é uma ideologia machista, a ideia de que os homens estão mais bem preparados para exercer posições de decisão”.
Desafios para participação política
Apesar de serem 51,5% da população brasileira, as mulheres ocupam menos de 20% das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado. Ao olhar especificamente para as mulheres negras, que são 28% da população, o número cai para 2% de posições no Congresso Nacional.
Entre os desafios enfrentados atualmente por mulheres nesse meio, está a violência política. “As mulheres são frequentemente vítimas da violência política de gênero e raça, que busca deslegitimar sua atuação política e expulsá-las de espaços de poder e tomada de decisão. São constantes os episódios de silenciamento, cerceamento do direito à fala, assédio moral e sexual, ameaças, em episódios que ocorrem dentro de casas legislativas e que dificilmente resultam em medidas de responsabilização contra os agressores”, pontua Luyara Franco, diretora Executiva do Instituto Marielle Franco.
©Luyara Franco. Crédito: divulgação/IMF
As mulheres negras sentem ainda mais esses silenciamentos. De acordo com a pesquisa “Regime de Ameaça: Violência Política de Gênero e Raça no âmbito digital”, lançada em 2025 pelo Instituto Marielle Franco, 87% das vítimas de violência política eram mulheres negras. Além disso, 71% dos episódios de violência digital foram de ameaças e intimidações, seguidos por desinformação (11%) e discurso de ódio (8%).
“Assim, ainda que ocupem cargos para os quais foram democraticamente eleitas, as mulheres, especialmente negras e defensoras de direitos humanos, se encontram expostas e desprotegidas contra diversos tipos de violências na política institucional”, diz Luyara.
Motivadas pela conquista da cidadania plena, as mulheres progressistas seguem lutando pela ampliação da representação feminina na política institucional. Entre as ações nesse âmbito, estão o projeto “Eu Voto em Negra”, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a campanha “Senadoras do Brasil”, liderada pelo Instituto Mariele Franco, Narra e Movimento Mulheres Negras Decidem.
“A sociedade civil exerce um papel importante de impulsionar iniciativas que trazem visibilidade ao tema e reforçam a necessidade de avançarmos na paridade de gênero e raça na política institucional para que consolidemos a representação da sociedade brasileira nos espaços decisórios”, destaca.
Em diferentes partes do mundo, o direito ao voto das mulheres também não é garantido de forma estável. No Afeganistão, por exemplo, mulheres perderam direitos políticos e civis após a retomada do Talibã, em 2021. Já em países como os Estados Unidos, debates recentes sobre restrições eleitorais reacenderam discussões sobre barreiras ao voto e seus impactos sobre grupos historicamente marginalizados.
“Qualquer medida que dificulte o acesso ao voto merece atenção, pois a participação política das mulheres é resultado de décadas de mobilização e conquista de direitos, bem como um pilar indispensável de vitalidade democrática. Em um contexto marcado pelo avanço de movimentos autoritários e por ataques a direitos historicamente conquistados, é fundamental fortalecer mecanismos que ampliem a presença política de mulheres, sobretudo com recorte de raça e território. Observamos em diferentes partes do mundo iniciativas que enfraquecem direitos e criam barreiras à participação de mulheres na política e acreditamos que essas medidas devem ser combatidas para a garantia de democracias participativas, fortes e vivas”, afirma Luyara.





