Trabalhadoras evidenciam que fim da escala 6×1 é urgente 

Ludmila Souza acorda às 11h. Duas horas depois, está em um shopping iniciando seu turno de trabalho numa loja de acessórios. Fica lá até às 19h30. Volta para casa e dorme um pouco. Quando o relógio bate 22h30, levanta novamente para que à meia-noite esteja a postos para o seu segundo emprego como atendente de telemarketing. Ambos os trabalhos são na escala 6×1.

Entre a necessidade de pagar as contas, colocar comida na mesa e sobreviver, Ludmilla é forçada a deixar em segundo plano o descanso, o lazer e os sonhos. Ela não está só: cerca de 14,8 milhões de brasileiros trabalham na escala 6×1, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Além disso, em torno de 75% dos trabalhadores celetistas trabalham mais de 40 horas por semana. Considerando todos os tipos de vínculo de trabalho, 32,2% das mulheres atuam na escala 6×1.

“Você passa por cima do seu descanso para poder conseguir dar conta do mínimo. Do mínimo de dignidade para viver”, relata Ludmila sobre como é inviável encaixar uma rotina saudável ao trabalhar nesse modelo.

Você passa por cima do seu descanso para poder conseguir dar conta do mínimo. Do mínimo de dignidade para viver

Ludmila Souza

Diante dessa realidade que afeta profundamente as trabalhadoras brasileiras, o movimento pelo fim da escala 6×1 surgiu como reflexo da urgência de uma luta por descanso e dignidade.

O Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) teve início com um vídeo de desabafo publicado pelo então balconista de farmácia Rick Azevedo em 2023. “Eu quero saber quando nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1? É uma escravidão moderna. Moderna não. Ultrapassada”, disse.

Logo, a indignação se transformou em abaixo-assinado, manifestações pelo Brasil e em Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para a extinção da jornada. Mas, como de costume, a possibilidade de melhoria na vida da população tem sido acompanhada de resistência de parte do empresariado e dos políticos.

A vida não se encaixa em 6×1 

Em seu dia de folga, Ludmila tem que decidir entre arrumar a casa, ir visitar a família, curtir a namorada, sair com as amigas, ir para o terreiro, ou passar o dia descansando. Na rotina puxada, ela conta que acaba deixando de lado o convívio social. “A rotina é cansativa, eu sinto muita falta da minha família”, desabafa.

Somado a isso está o fato dela lidar com a pressão de trabalhar com metas de vendas. Por vezes, para atingir a quantidade estabelecida de vendas e receber um salário maior, ela abdica de sua folga semanal. Há também as vezes que deixa de sair ou beber em sua folga para que no dia seguinte esteja “simpática e descansada” para vender melhor.

No dia a dia, os afazeres são resolvidos conforme tiverem urgência. Só vai ao médico se estiver doendo. Só faz compras no mercado quando os itens estão acabando, e por aí vai. “Se não vier como urgência e emergência, você não faz”, resume.

Para ela, o fim da escala 6×1 irá possibilitar viver objetivos que estavam guardados, como estudar, já que precisou trancar a faculdade por não conseguir conciliar com o trabalho. “Falar sobre o fim da escala 6×1 é alívio, é pensar que a gente tem uma nova chance de virar a chave para a melhoria da vida”, diz.

Se depender de uma parte do Congresso, não há descanso nenhum 

“É uma noite histórica, estamos em glória. Amargamos essa derrota em todo mundo que desacreditou. É uma vitória da classe trabalhadora brasileira, dos movimentos, de todo mundo que tomou as ruas e as redes”, declarou a deputada federal Erika Hilton (Psol – SP) ao fim da votação da PEC 221/19 na Câmara dos Deputados no dia 27 de maio.

A PEC 221/19 foi aprovada em votação em dois turnos na Câmara dos Deputados e ainda precisa passar por votação no Senado Federal. O texto coloca um fim na escala 6×1 ao definir que a jornada de trabalho passa a ser de no máximo 40 horas semanais em cinco dias, com dois dias de descanso.

O texto define ainda que 60 dias após a aprovação em definitivo da PEC, a jornada será reduzida de 44 horas semanais para 42 horas, e a jornada 6×1 será extinta. Já após 12 meses em vigor, a jornada será reduzida para 40 horas.

Proposta pelo deputado Léo Prates (Republicanos-BA), a PEC 221/19  se trata de um substitutivo para a PEC 8/25, feita pela deputada Erika Hilton, com a previsão de 36 horas de trabalho em uma escala 4×3. E também para a proposta de Reginaldo Lopes (PT-MG), que definia 36 horas semanais após um período de dez anos de transição.

Mas a proximidade do fim da escala 6×1 vem sendo acompanhada de uma série de obstáculos. No dia 14 de maio, parlamentares apresentaram uma emenda a fim de permitir jornadas semanais de até 52 horas, a qual não foi aceita. 

Em outro momento, durante Comissão Especial, partidos de oposição e do centrão defenderam uma transição de 10 anos para o fim da jornada, com redução do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e exclusão de categorias consideradas essenciais.

Já no dia 28 de maio, foi protocolada a PEC 12/2026, do senador Rogério Marinho (PL-RN), que define um regime flexível baseado em horas trabalhadas, sem definição de quantidade de horas máximas de jornada ou de folgas semanais. Segundo parlamentares de esquerda, a proposta abre caminho para a escala 7×0. 

Mulheres mobilizadas pelo fim da escala 6×1

Antes que a pauta chegasse ao Congresso, houve grande clamor popular pelo fim da escala. Militantes organizados por todo o Brasil dão vida ao Movimento VAT. Entre essas pessoas está Ita Luz, operadora de call center, coordenadora do VAT Bahia e estudante de Ciências Sociais.

“A maioria das pessoas que estão nessa escala se encontra em cargos com baixos salários, em caixas de supermercado, telemarketing, shopping, comércio, que são empregos com carga horária extenuante”, diz. E acrescenta: “quando analisamos a situação das mulheres, que além de trabalhar fora, são responsáveis pelo cuidado da família e da casa, a carga de trabalho é tripla”.

No setor de comércio, por exemplo, as mulheres representaram 50% das admissões em 2025, segundo a FecomercioSP. Já na área de serviços, elas somaram 54% nas admissões.

Para as mulheres negras, o peso é ainda maior: elas são responsáveis por 44% do trabalho de cuidado não remunerado, apesar de serem 24% da população, conforme aponta o estudo “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimam que mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos, o que representa 9,6 horas a mais que os homens. 

Ita começou a trabalhar em um call center, na escala 6×1, em home office. Seu objetivo era adquirir independência financeira para morar sozinha e conseguir conciliar os estudos com o trabalho. Mas, na prática, desenvolveu burnout.

“O trabalho era tão estressante, tão desgastante que mesmo conseguindo me sustentar, eu não conseguia conciliar os estudos. Então, eu me contentei em ser uma aluna mediana”, relata.

Eduarda Jankauskas, bióloga, coordenadora do VAT Paraná e do VAT Mulheres, também já viveu a realidade de folgar apenas uma vez por semana. Mesmo com formação em Biologia, teve dificuldade para conseguir emprego na área, o que atribui ao fato de ser uma mulher travesti. Por isso, trabalhou durante um tempo em uma loja de fast food.

“Era muito frustrante, porque eu vi pessoas passando mal. Trabalhavamos oito horas por dia e ganhavamos como refeição o direito a um combo de lanche, batata e refrigerante”, diz.

Na época, Eduarda chegou a reivindicar o pagamento de um vale refeição, que foi concedido. Para ela, isso é um exemplo de como os trabalhadores precisam se organizar para garantirem seus direitos.

“O Movimento VAT é uma construção a partir das dores das pessoas que realmente comandam esse país. Só que essas pessoas não têm tempo nem para levantar a sua luta, porque estão trabalhando, dando seu suor para o patrão ficar cada vez mais rico”, pontua.

O Movimento VAT é uma construção a partir das dores das pessoas que realmente comandam esse país. Só que essas pessoas não têm tempo nem para levantar a sua luta, porque estão trabalhando

Eduarda Jankauskas

Apesar da possibilidade da conquista da escala 5×2, Ita e Eduarda salientam que o movimento continuará lutando pela escala 4×3, ou seja, quatro dias trabalhados e três de folga. Dessa forma, segundo elas, a população terá melhor qualidade de vida.

Dados mostram benefícios do fim da jornada 

Marilene Teixeira, professora e pesquisadora do Instituto de Economia da UNICAMP e integrante do CESIT (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), tem se dedicado a estudar os impactos econômicos do fim da escala 6×1.

No “Dossiê 6×1”, ela e outros pesquisadores evidenciam que essa escala está focada em setores de baixa remuneração e alta rotatividade, como comércio, serviços, teleatendimento, limpeza e parte da indústria. 

“Identificamos a presença de mais de 20 milhões de pessoas que trabalham acima das 44 horas semanais [o que não significa necessariamente que estão na escala 6×1], entre as pessoas que se encontram no mercado de trabalho formal, em torno de 34% estão submetidas à escala 6×1”, afirma.

Outro achado importante é que há presença significativa de mulheres nessa jornada, principalmente em áreas de cuidado, atendimento e serviços. “Isso aprofunda desigualdades, porque essa jornada é pouco compatível com as responsabilidades domésticas e de cuidado, que seguem sendo desigualmente distribuídas”.

Sobre afirmações de entidades dos setores que mais utilizam a escala 6×1 de que o fim dessa jornada geraria problemas na economia, ela contesta: “mudanças na organização da jornada de trabalho sempre foram acompanhadas de resistência histórica e, ainda assim, foram fundamentais para ganhos sociais e econômicos”.

Além disso, a pesquisadora salienta que a redução da jornada pode elevar a produtividade por hora e estimular a criação de empregos. Soma-se a isso o fato de que, “trabalhadores com mais tempo livre e melhores condições de vida tendem a dinamizar economias locais, ampliando a demanda por bens e serviços.”

De acordo com o estudo, a imposição da escala 5×2 com 40 horas semanais poderia gerar cerca de 600 mil novos postos de trabalho. Em relação ao impacto social, espera-se uma maior compatibilização entre trabalho remunerado e responsabilidades de cuidado, o que beneficia principalmente as mulheres.

“A reorganização do tempo de trabalho é uma dimensão central para avançarmos em direção a uma sociedade mais justa e equilibrada”, destaca a economista.

Dessa forma, os dados, aliados aos relatos de trabalhadoras apontam para um único caminho: a urgência do fim da escala 6×1. Como disse a entrevistada Ita Luz: “o ponto mais desumano dessa escala é nos tirar o tempo de vida ao ponto de não conseguirmos pensar em outras alternativas de futuro”.





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