Entre o cuidado cotidiano, a criação artística e a defesa de seus territórios, mães artistas brasileiras têm transformado a maternidade em linguagem política, memória e resistência. Em diferentes linguagens — da música ao artesanato, do cinema ao graffiti — essas mulheres articulam ancestralidade, afeto e denúncia para produzir obras atravessadas por experiências de raça, território, pertencimento e sobrevivência.
Indígenas, quilombolas, negras e periféricas, elas constroem trajetórias em que maternidade e criação aparecem profundamente conectadas. Em comum, seus trabalhos recusam visões romantizadas do cuidado e revelam como mulheres transformam experiências individuais e coletivas em arte, memória e permanência. Conheça algumas delas:
Andressa Monique
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Andressa Monique é uma grafiteira, ilustradora, arquiteta e urbanista nascida em Salvador (BA), na comunidade do Beiru. Mãe e artista negra, sua produção busca reconectar ancestralidade, território e representatividade por meio da arte urbana, especialmente a partir da valorização de mulheres negras e das religiões afro-brasileiras. Em seus murais, o graffiti aparece como ferramenta de combate ao racismo e de transformação dos espaços urbanos, levando para as cidades imagens de afeto, memória e resistência.
Em 2024, Monique lançou a obra “Dengo de Mãe”, mural que homenageia mulheres negras historicamente obrigadas a renunciar à própria maternidade para cuidar dos filhos de outras famílias. A pintura aborda temas como violência obstétrica, racismo e ausência de redes de apoio, ao mesmo tempo em que reivindica o direito de mães negras viverem a maternidade com cuidado, acolhimento e segurança.
Eunice Baia
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Eunice Baía é atriz, artista visual, estilista e mãe indígena do povo Baré, nascida em Barcarena, no Pará. Conhecida por interpretar a protagonista dos filmes Tainá, ela construiu uma trajetória ligada à valorização da Amazônia, da cultura indígena e da relação com a natureza desde a infância. Depois do sucesso nos cinemas, decidiu se afastar da atuação diante das câmeras e passou a trabalhar com moda, figurino e arte indígena, criando sua própria marca e atuando como coordenadora de figurino no Balé da Cidade de São Paulo.
Mãe de três filhos — Antônio, Aruã e Ayara —, Eunice compartilha nas redes sociais reflexões sobre maternidade, território e cuidado. Em 2024, falou publicamente sobre a experiência da maternidade solo durante a terceira gravidez, descrevendo o peso físico e emocional de conciliar trabalho, criação dos filhos e rotina doméstica sem rede de apoio. Ao mesmo tempo, suas publicações revelam uma maternidade profundamente conectada à ancestralidade e ao pertencimento ao Norte do país, frequentemente retratando momentos com os filhos em rios, parques e paisagens amazônicas.
Gileide Silva
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Gileide Ferreira da Silva é uma artesã, mãe e liderança quilombola da Comunidade Quilombola Serra do Talhado Urbano, em Santa Luzia, na Paraíba. Presidente da Associação das Louceiras Negras há mais de uma década, ela atua na preservação de uma tradição ancestral de produção de louças de barro transmitida entre gerações de mulheres negras quilombolas.
Desde os sete anos, aprendeu o ofício com a avó Rita Preta, transformando o barro não apenas em fonte de sustento, mas também em memória, identidade e continuidade cultural. Ao lado de outras mulheres da associação, participa de todas as etapas da produção das peças — da coleta do barro à comercialização — mantendo viva uma prática coletiva que atravessa gerações.
Sua trajetória também é marcada pelo cuidado e pela organização comunitária. Além de criar a própria filha, Gileide assumiu a criação dos sobrinhos após o feminicídio da irmã, Maria do Céu, importante liderança quilombola da comunidade, além de cuidar da avó com Alzheimer. Entre o trabalho artesanal, a administração da associação e o cuidado cotidiano, sua experiência revela como mulheres quilombolas sustentam redes inteiras de memória, sobrevivência e resistência coletiva.
Kaê Guajajara
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Kaê Guajajara é uma cantora, compositora e ativista indígena nascida em Mirinzal, no Maranhão, e criada no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Mãe e artista do povo Guajajara, encontrou no rap uma forma de transformar em música suas vivências como mulher indígena na favela e denunciar os impactos da colonização sobre os povos originários.
Em suas composições, mistura hip-hop, funk, trap e instrumentos tradicionais indígenas, criando o que define como “música popular originária” — uma linguagem que conecta ancestralidade, território e vida urbana. Sua trajetória artística é marcada pelo enfrentamento ao apagamento das identidades indígenas e pela defesa do bem viver coletivo.
Fundadora do selo Azuruhu, voltado ao fortalecimento de artistas indígenas, Kaê utiliza a música para questionar violências históricas, discutir pertencimento e afirmar a presença indígena nas cidades. Em álbuns como Kwarahy Tazyr e Zahytata, suas letras articulam memória, espiritualidade, maternidade e resistência, propondo outras formas de existir em meio às marcas do racismo e da colonialidade.
Luedji Luna
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Luedji Luna é cantora, compositora e mãe baiana que transformou a música em espaço de elaboração das experiências de mulheres negras, do amor, da solidão e do pertencimento. Nascida em Salvador e criada entre os bairros do Cabula e Brotas, cresceu em uma família ligada ao movimento negro e encontrou na música uma forma de transformar em arte as marcas do racismo vividas desde a infância. Suas canções misturam MPB, jazz, R&B e ritmos afro-brasileiros, articulando memória, política, afetos e ancestralidade negra com uma sonoridade própria e contemporânea.
Mãe de um menino, Luedji frequentemente relaciona maternidade, cuidado e saúde mental à sua trajetória artística. Em entrevistas recentes, falou sobre o esforço de conciliar o crescimento da carreira com o desejo de viver a maternidade de forma presente e saudável, recusando a lógica do adoecimento e da sobrecarga no trabalho artístico. Após abandonar o curso de Direito e se mudar para São Paulo para viver de música, consolidou-se como um dos principais nomes da música brasileira contemporânea, indicada ao Grammy Latino e reconhecida por composições que colocam no centro as experiências de mulheres negras brasileiras.





