Quase 4 em cada 10 lares chefiados por mulheres negras conviviam com algum nível de insegurança alimentar em 2023. O dado faz parte do estudo As faces da desigualdade: raça, sexo e alimentação no Brasil (2017-2023), lançado nesta quinta-feira (8) pela FIAN Brasil, e evidencia como racismo e sexismo seguem determinando quem mais enfrenta dificuldades para acessar alimentação no país.
Insegurança alimentar ocorre quando pessoas ou famílias não conseguem garantir acesso regular e suficiente a alimentos adequados para uma vida saudável. O estudo utiliza a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) para classificar essa condição em três níveis: leve, quando há preocupação ou incerteza sobre a disponibilidade futura de alimentos; moderada, quando há redução na quantidade ou qualidade dos alimentos consumidos; e grave, quando há ruptura no padrão alimentar, com pessoas deixando de comer por falta de recursos.
Segundo a pesquisa, 38,5% dos domicílios chefiados por mulheres negras viviam insegurança alimentar em 2023 — o pior índice entre todos os grupos analisados. Na sequência aparecem os lares chefiados por homens negros (28,9%), mulheres brancas (22,2%) e homens brancos (15,7%).
Entre os principais achados, o estudo também mostra que:
o racismo estrutura de forma persistente as desigualdades alimentares no país;
a formalização do trabalho não garante proteção, já que mulheres negras com emprego formal enfrentam níveis de fome semelhantes aos de homens brancos em trabalho informal;
Norte e Nordeste concentram os piores indicadores, sobretudo entre domicílios chefiados por mulheres negras;
a insegurança alimentar é mais frequente em áreas rurais do que urbanas;
pessoas negras são maioria nos estratos de menor renda, enquanto homens brancos dominam os 10% mais ricos.
O estudo analisa dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e compara os resultados com levantamentos anteriores realizados entre 2017 e 2023, incluindo as edições do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (VIGISAN).
A pesquisa cruza informações sobre alimentação, raça, gênero, renda, trabalho e território para compreender como as desigualdades impactam diferentes grupos sociais. Embora os dados mostrem melhora geral nos indicadores de segurança alimentar após a pandemia, as mulheres negras continuam concentrando os cenários mais graves em praticamente todos os recortes analisados pelo estudo.
Mulheres negras seguem no centro da desigualdade alimentar
Para a pesquisadora Rute Ramos da Silva Costa, uma das responsáveis pela formulação, realização e coordenação do estudo, os resultados deixam evidente que a insegurança alimentar no Brasil não pode ser explicada apenas pela renda.
Segundo a pesquisadora, um dos principais achados do estudo é mostrar como a segurança alimentar responde diretamente às políticas públicas. A comparação entre os períodos analisados evidencia que programas sociais e políticas de combate à fome tiveram impacto concreto na melhora dos indicadores, especialmente entre a população negra.
“A segurança alimentar é sensível às políticas. Em momentos em que houve maior investimento, os dados demonstram uma mudança importante”, afirma.
Os números confirmam: entre 2021 e 2023, os lares chefiados por mulheres negras registraram uma das maiores melhorias nos indicadores de segurança alimentar. Segundo o estudo, esse também havia sido o grupo mais impactado nos anos anteriores, marcados pela pandemia, pela austeridade fiscal e pelo desmonte de políticas públicas de combate à fome.
Rute destaca que a retomada do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional CONSEA) em 2023, o fortalecimento do Bolsa Família e outras políticas sociais contribuíram para a melhora nos índices, observada entre 2021 e 2023. Ainda assim, ela ressalta que os dados também mostram como mulheres negras seguem mais vulneráveis às mudanças políticas e econômicas.
O racismo segue estruturando essas desigualdades. Existem pessoas que estão sempre numa situação limite, em que é sempre preciso manter a luta porque existe uma certa instabilidade. Qualquer decisão futura, qualquer governo futuro pode desestabilizar certas conquistas
Rute Ramos
Para a pesquisadora, isso evidencia que o combate à fome precisa necessariamente enfrentar o racismo estrutural. “A superação da insegurança alimentar não carece de uma vontade individual somente. Existe a necessidade das políticas públicas estarem comprometidas com uma mudança estrutural”, afirma.
De acordo com o estudo, em 2023 apenas 6 em cada 10 lares chefiados por mulheres negras estavam em segurança alimentar, enquanto entre os domicílios chefiados por pessoas brancas o índice chegava a 8 em cada 10. A diferença de 22,8 pontos percentuais reforça como as desigualdades raciais atravessam o acesso à alimentação no país.
Outro ponto destacado por Rute é a decisão metodológica do estudo de “racializar” também a experiência da população branca, buscando compreender como privilégios raciais operam na produção das desigualdades alimentares. “Não é pouca coisa organizar os dados de modo em que os brancos apareçam como raça. Porque isso também ajuda a gente a ler os mecanismos que privilegiam esses grupos”, explica.
Segundo ela, os dados mostram que homens e mulheres brancas permanecem em melhores condições de segurança alimentar mesmo em cenários de maior vulnerabilidade econômica. “Nós vimos uma melhora importante de segurança alimentar com investimento das políticas públicas nesses últimos tempos, mas ainda assim homens e mulheres brancas permanecem em melhores condições”, afirma.
Rute também chama atenção para a importância de ouvir quem vive diariamente os impactos da insegurança alimentar nos territórios. Para ela, as políticas públicas precisam considerar experiências que muitas vezes permanecem invisíveis para os espaços institucionais de decisão.
“Eu lembro de ouvir um relato que nunca me apareceu em outros espaços de pesquisa: de existir na favela um grupo do WhatsApp em que as pessoas expõem, por exemplo, uma bermuda, um short jeans e perguntam se alguém troca esse short jeans por um quilo de feijão. Então tem uma dinâmica nesse território que eu nunca vi em estudo nenhum”, relata.
Segundo a pesquisadora, essas estratégias de sobrevivência mostram como as periferias organizam redes coletivas de cuidado e acesso à alimentação diante da ausência de proteção social suficiente. “Quem está no território, vivenciando cotidianamente, consegue trazer organizações e dinâmicas que não são detalhes, mas cruciais para fazer com que alguém supere ou não uma situação de insegurança alimentar”, afirma.
Trabalho do cuidado e precarização
Débora Evellyn Olimpio, assessora de Direito à Alimentação da FIAN Brasil e assessora de pesquisa do Observatório da Alimentação Escolar (ÓAÊ), afirma que o estudo também evidencia como mulheres negras ocupam historicamente posições marcadas pela precarização do cuidado e do trabalho.
“Nós, mulheres negras, estamos cuidando dos nossos entes queridos, mas também exercendo o cuidado como trabalho. Babás, trabalhadoras domésticas, cuidadoras, enfermeiras. Só que esse trabalho é extremamente precarizado”, diz.
Segundo ela, a desigualdade alimentar está diretamente ligada às estruturas de raça e gênero que organizam o mercado de trabalho brasileiro. A análise alerta que, independentemente da posição ocupada no trabalho, domicílios chefiados por pessoas autodeclaradas negras apresentam maiores frequências de insegurança alimentar do que aqueles chefiados por pessoas brancas.
Homens brancos ocupam majoritariamente os espaços de maior renda, poder e estabilidade social, enquanto mulheres negras permanecem mais expostas às vulnerabilidades, aos trabalhos informais, ao desemprego e às múltiplas jornadas de trabalho
Débora Olimpio
Débora destaca ainda que o levantamento reforça a necessidade de enfrentar as desigualdades raciais e de gênero como parte do combate à insegurança alimentar e à fome. “Mesmo com as mesmas condições de renda e acesso ao trabalho, a população negra se mantém em situações de insegurança alimentar. O racismo e o sexismo atravessam essa condição”, conclui.
Para aprofundar a compreensão sobre como raça, gênero, renda e território estruturam as desigualdades no acesso à alimentação no Brasil, a íntegra do estudo As Faces da Desigualdade: raça, sexo e alimentação no Brasil (2017-2023) está disponível no site da FIAN Brasil.
A leitura completa pode ser feita em: As faces da desigualdade: raça, sexo e alimentação no Brasil (2017-2023)





