Entre as heranças da escravidão ainda vívidas no cotidiano atual, os “quartinhos de empregada” seguem como símbolos do racismo escondido na arquitetura de casas brasileiras. Essa realidade motivou a cineasta Karol Maia a realizar o documentário Aqui Não Entra Luz, que registra histórias de mulheres que viveram por anos nesses espaços.
A obra reúne memórias pessoais e pesquisa histórica. Karol é filha de uma ex-trabalhadora doméstica e se incluiu, junto à sua mãe, como personagem para conduzir a narrativa. Além disso, a diretora ouviu domésticas que vivem no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Maranhão e Bahia, estados que estão entre os que mais receberam mão de obra escravizada no período colonial.
Distribuído pela Embaúba Filmes e estreado no dia 7 de maio, Aqui Não Entra Luz é um retrato íntimo e sensível, ao mesmo tempo em que é potente e reverberador de uma realidade que atravessa milhares de famílias brasileiras.
Hoje entendo que o Aqui Não Entra Luz estava em mim há muito tempo. Sou filha de uma ex-trabalhadora doméstica, e, embora, minha mãe nunca tenha morado em um quarto de empregada, nem eu tenha vivido essa experiência, esse trabalho atravessou a nossa vida.
Karol Maia
“Minha análise crítica sobre raça, gênero e classe foi fundamental para a concepção do filme. O filme conta parte da história do Brasil também a partir da minha história com minha mãe”, relata a diretora.
Contar trajetórias de trabalhadoras domésticas é também abordar as desigualdades raciais que estruturam esse país. As mulheres representam 90% dessa força de trabalho, sendo 66% negras.
Segundo estudo encomendado pelo Ministério Desenvolvimento Social e Combate à Fome, apesar das domésticas serem a principal categoria da força de trabalho remunerada de cuidados no Brasil, 64,5% delas recebem menos que um salário mínimo.
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© Reprodução Documentário
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Karol conta que a pesquisa do filme foi extensa, com coordenação de Suzane Jardim e colaboração de Isabella Santos na pesquisa de personagens. “Investigamos como a arquitetura revela dinâmicas de exploração colonial, escravocrata e econômica do Brasil. Do período colonial ao Brasil moderno, mapeamos formas de habitar e de organizar os espaços. Queremos, inclusive, lançar um livro com essa pesquisa”.
As protagonistas do filme
O longa conta a trajetória das seguintes trabalhadoras: Miriam Mendes, Cristiane Graciano, Marcelina Martins, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus e Matildes Santos Pereira. As conversas ocorreram nos lares das entrevistadas. “O que eu buscava era construir uma relação de confiança e proximidade com essas mulheres, e isso só poderia acontecer nas casas delas, nos espaços onde se sentiam seguras”, explica Karol.
A construção da relação com as personagens partiu da honestidade. Antes de cada entrevista, a diretora contava sobre o projeto e o porquê de querer fazer o filme.
“Ao longo desse processo, eu também me colocava no lugar de filha. Isso acabou trazendo um tom mais íntimo e descontraído para as conversas. Embora eu fosse a diretora, havia momentos em que eu me aproximava delas como alguém que também estava em busca de algo quase como se procurasse a minha mãe em cada uma daquelas mulheres”.
Essa relação permitiu com que as trabalhadoras relatassem situações delicadas, emocionantes e violentas que viveram trabalhando em “casas de família”. Mas a narrativa não se resume a isso: as mulheres contam sobre sonhos, maternidade e perseverança em continuar insistindo em viver com dignidade.
O filme foi premiado no Festival de Brasília de 2025 com os troféus de Melhor Direção e Melhor Filme pelo Prêmio Zózimo Bulbul (APAN). Segundo Karol, a passagem por festivais permite o contato com o público e suas impressões acerca da obra. “É entender como o filme chega nas pessoas, como elas reagem a ele, se levam o filme pra casa e se continuam conversando a partir dele. Essa parte do processo também é muito gratificante”.





