mulheres negras e periféricas têm o poder de decidir os

Ouvir as mulheres negras e das periferias, compreender suas necessidades e urgências e, a partir de suas dores e sonhos, definir prioridades para as Eleições 2026 é o ponto de partida da nossa cobertura. É desse lugar que o Nós, mulheres da periferia define sua atuação neste momento decisivo para o país.

Decidimos ouvir mulheres das periferias das regiões Sudeste e Nordeste. O que veio dessas trocas orienta nossas decisões sobre o que pautar e como contar essas histórias. Essa escolha parte de uma premissa fundamental do jornalismo em que acreditamos: amplificar as vozes de pessoas historicamente invisibilizadas.

Foi a partir dessa escuta que definimos os pilares da nossa cobertura eleitoral. Queremos produzir conteúdos que ajudem nossa audiência a conhecer seus direitos, compreender as eleições, acessar serviços e avaliar as propostas apresentadas pelas candidaturas.

Saúde, segurança, educação, trabalho, renda, custo de vida, transporte, clima e políticas de cuidado estarão no centro da cobertura, sempre a partir da realidade das mulheres negras e das periferias.

Representatividade

Somos 52,84% do eleitorado brasileiro: mais de 83,8 milhões de mulheres aptas a votar nas Eleições 2026. Mas essa maioria ainda não se traduz nos espaços de decisão. Em 2022, foram eleitas 91 deputadas federais, apenas 17,7% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. Entre as mulheres negras, a representação é ainda menor.

Queremos mais mulheres ocupando esses espaços. Mas queremos também que as mulheres das periferias sejam ouvidas e que aquilo que acontece nos nossos territórios chegue aos lugares onde as decisões são tomadas.

Em 2025, as mortes violentas intencionais caíram 8,2% no Brasil, mas os feminicídios seguiram na direção oposta. Foram 1.571 mulheres assassinadas por razões de gênero, alta de 4% em relação a 2024. Mais de quatro mulheres por dia. E 65,1% delas eram negras.

Também sentimos no bolso o peso do custo de vida. As mulheres ainda recebem cerca de 21% menos que os homens nas empresas com 100 ou mais empregados. Em muitos casos, somos as principais responsáveis pelo sustento da família e cuidamos de nossos filhos sem uma rede de apoio suficiente.

Nos sentimos inseguras em ruas mal iluminadas. Temos medo de que nossos filhos saiam de casa e não voltem vivos, vítimas de uma violência que atinge principalmente jovens negros e moradores das periferias. Estamos na fila do postinho buscando atendimento digno, exames, medicamentos e respostas para nossa saúde e a de nossos familiares.

Quando o calor aperta, a chuva alaga a casa, falta água ou a comida fica mais cara, também sabemos quem sente primeiro. Nas periferias, enfrentar a crise climática já faz parte do cotidiano. E, muitas vezes, somos nós, mulheres, que precisamos reorganizar a vida quando tudo isso acontece.

Vemos questionada nossa capacidade de decidir os rumos do país, sendo que somos nós que damos conta do cotidiano em nossos territórios e lares.

Entendemos o papel nefasto da desinformação e vamos atuar com o nosso jornalismo para levar informação de qualidade, verificar discursos e propostas e olhar para o que está funcionando, o que precisa avançar e o que ameaça nossos direitos.

Estamos atentas aos retrocessos, mas não podemos esquecer o que já foi conquistado. O Brasil permanece fora do Mapa da Fome, e políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres foram ampliadas. São avanços ainda insuficientes, mas que também vieram a partir de nossas reivindicações.

Por isso, precisamos acompanhar a implementação das leis que nos protegem e as propostas em discussão que dizem respeito à nossa qualidade de vida e segurança, como o fim da escala 6×1 e o enfrentamento à misoginia.

Tomada de decisão

As mulheres estão adoecendo e estão exaustas, e isso se reflete também na descrença na política institucional. Quando estamos ocupadas em dar conta da sobrevivência, do trabalho e do cuidado, sobra pouco tempo para acompanhar o que interfere diretamente em nossas vidas.

Tudo o que pesa no nosso dia a dia precisa pesar também na hora de escolher quem vai decidir sobre isso.

A tomada de decisão está em nossas mãos. Precisamos nos reconhecer nesse espaço e reivindicar o direito à dignidade e ao tempo de qualidade para escolher os rumos de um país cuja engrenagem também é movimentada por nós.

Acreditamos que o acesso à informação é fundamental para munir nossa audiência de reflexões sobre seus direitos e para reivindicar espaço junto ao poder público.

O voto é uma forma de exercer nosso poder, mas nossa participação política não começa nem termina nas urnas.

O Nós continuará produzindo informação para que mulheres negras e periféricas acompanhem quem foi eleito e cobrem respostas do poder público também depois das eleições.

Política se faz no dia a dia.

Nossa existência é política.



Tribunal Brasília

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