No Centro de Tradições Populares de Sobradinho (DF), as batidas das matracas e o colorido dos fitados contam uma história de resistência. Há décadas, o Boi do Seu Teodoro sobrevive entre a celebração e a disputa: pelo território, por recursos, pelo direito de preservar uma memória e pelo reconhecimento de quem ajuda a manter tudo isso de pé — sobretudo mulheres negras.
O que acontece quando uma manifestação cultural precisa lutar para continuar existindo? Para lideranças como Tamatatíua (Tamá) Rosa Freire Ferreira, coordenadora de Memória; Jacy Freire, vice-presidente do Boi; e Dona Maria Sena Pereira Freire, viúva de Seu Teodoro, manter o Boi vivo requer enfrentar disputas imobiliárias, o preconceito de vizinhos e escolas locais e a instabilidade na captação de recursos, mesmo sendo considerado patrimônio cultural imaterial do DF desde 2004.
Além disso, em anos eleitorais, elas afirmam lidar com o oportunismo político daqueles que usam as festas de agosto para angariar votos, cobrando emendas consistentes e fomento contínuo.
“Se abrirmos a guarda, nós perdemos”, alerta a antropóloga Cleidiana Ramos ao falar sobre as tensões das manifestações populares de populações historicamente marginalizadas.
No Boi do Seu Teodoro, grupo composto por cerca de 15 famílias, com um total de 60 brincantes, a frase de Cleidiana ganha corpo nas mãos das mulheres que, entre matracas, costuras, articulações e reivindicações, sustentam um legado que atravessa gerações. Mas o que está realmente em jogo quando essas mulheres lutam para manter o Boi de pé?
Incidência política e disputa de território
Sob a vice-presidência de Jacy e a gestão de Memória de Tamá, o Boi amplia sua atuação para além das apresentações. Projetos como o “Bumba Maria Meu Boi”, pelo Instituto Rosa dos Ventos, e o programa “Memória e Educação”, levam às novas gerações conhecimentos sobre o patrimônio cultural e recuperam o protagonismo das brincantes negras. O projeto Memória e Educação recebeu recursos de emenda parlamentar para uma edição voltada a escolas da rede pública do Distrito Federal.
A atuação das lideranças, no entanto, esbarra em questões que ultrapassam os limites do Centro de Tradições Populares. Para manter as atividades, o grupo precisa garantir recursos e, sobretudo, o direito de permanecer no território onde construiu sua história.
A disputa pela terra em Sobradinho, Região Administrativa do Distrito Federal com cerca de 72.273 habitantes, se arrasta desde a década de 1970 e envolve diferentes episódios, segundo as lideranças do Boi, um monitoramento não autorizado por agentes públicos em 2018. Hoje, a principal reivindicação é a escritura definitiva da área, em meio às negociações com a Companhia Imobiliária de Brasília, Terracap, empresa pública com participação da União e do Distrito Federal.
Atualmente, o Centro de Tradições Populares, funciona sob uma “cessão de direito” temporária, afirma Tamatatíua:
“É porque aqui na verdade é só uma cessão, né, de direito, então continua. Quando tá para acabar tem que correr para [renovar]… porque é um terreno muito visado, isso desde o tempo do meu pai lá atrás. Mas é lutar para acabar e garantir o território de vez.”
Tamá ainda relata que, no momento, eles estão amparados pelo tempo de ocupação e pela relevância do trabalho que realizam, e que existe um processo ativo correndo para tentar regularizar a posse.
Instabilidade financeira
A insegurança territorial se soma às dificuldades para acessar recursos públicos. O grupo depende de editais e da articulação de emendas parlamentares, mas a burocracia e a demora no empenho das verbas dificultam o planejamento das festas, oficinas e demais atividades.
Um exemplo são os recentes percalços que vêm ocorrendo com o Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF) — recurso já utilizado pelo grupo anteriormente —, incluindo os atrasos do Governo do Distrito Federal nos repasses de projetos aprovados no fim de 2025 e a atual suspensão do Edital nº 06/2026 – FAC I/2026.
Em publicação do Diário Oficial, no dia 19 de agosto, a Secretaria de Cultura justificou a suspensão pela falta de recursos para a contratação da banca examinadora, cujo custo estimado é de R$ 992,7 mil.
No valor de R$ 36 milhões, o edital lançado em abril deste ano selecionaria projetos e repassaria apoio financeiro para a realização de trabalhos como artes plásticas e visuais, artesanato, cultura hip hop e arte urbana, cultura popular, dança, design e moda, música, teatro, gastronomia, produção cultural e patrimônio histórico e artístico.
Para as lideranças do Boi, a instabilidade no financiamento expõe o quanto a continuidade de iniciativas culturais pode depender das prioridades de cada governo. Em ano eleitoral, essa experiência pesa na avaliação dos candidatos: mais do que promessas durante as festas de agosto, elas cobram fomento contínuo, recursos públicos e a garantia definitiva do território.
Essa atuação política não surge à margem da história do Boi. Ela é resultado de uma transformação que aconteceu dentro do próprio cordão: à medida que as mulheres negras conquistaram espaço na brincadeira, também passaram a ocupar lugares de organização, decisão e defesa do grupo. Para entender quem são essas mulheres e o que sustenta sua atuação, é preciso voltar ao lugar que elas historicamente ocuparam dentro do Boi.
Quem é a mulher negra no Bumba?
A evolução feminina no Boi é uma história de transformação. Se no antigo Boi de Zabumba — tipo de “sotaque” tocado no início da trajetória do Boi de Seu Teodoro — o espaço era majoritariamente dos homens, na transição para o Boi da Baixada — sotaque atual — as mulheres conquistaram o poder não só de brincar, como de escolher sua função no cordão, afirma Tamá Freire.
Quando o Boi do Seu Teodoro finca suas bases em Sobradinho (DF), as mulheres, em sua maioria negras, já estavam lá, mas sob um manto de invisibilidade que encobria a extensão de seu trabalho. Mãos que sustentavam o cotidiano, elas costuravam as indumentárias, preparavam as refeições coletivas, cuidavam da manutenção do espaço e erguiam os altares.
Sua presença, embora vital, não era percebida como marcante nos registros midiáticos.
“Eles não reconhecem que a mulher também pode fazer isso”, observa Tamá, ao refletir sobre as barreiras que ainda persistem, especialmente no canto e na composição de toadas.
Por um processo de contágio e acolhimento, essas barreiras vão sendo quebradas: à medida que uma mulher vencia o receio e entrava na brincadeira, puxava outra, e assim ia transformando aos poucos o cordão.
Um exemplo é Maria da Natividade Pinheiro Santos, “dona de casa” de 65 anos. Ela veio do Maranhão para Brasília aos 16, trazendo a herança de seus pais, que já faziam parte de grupos de Bumba Meu Boi e Tambor de Crioula em sua terra natal. No entanto, só aos 26 anos ela descobriu o quintal de Seu Teodoro em Sobradinho.
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Maria da Natividade © Luiz Filipe Reis
“Uma amiga minha me apresentou. ‘Ah, vai lá no do Boi do Seu Teodoro, só tem maranhense.’ Até então eu não conhecia, né? Aí eu vim, fui muito bem recebida, muito bem acolhida. E aqui eu estou há 37 anos.”
Para ela, o barracão é um pedaço vivo de sua própria história, uma ponte de afeto que liga a ela à sua terra natal:
“É onde a gente revive as nossas raízes, o Maranhão. Eu me sinto muito bem. (…) Me sinto aqui como se eu tivesse no Maranhão. Quando a gente tá brincando, a gente relembra tudo. Então, para mim significa tudo. Uma alegria, um prazer imenso fazer parte desse grupo.”
Tamá Freire, guardiã da Memória do Boi
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Esse movimento de retomada e autodescoberta é explicitado quando Tamá, educadora, historiadora, cantora, compositora de toadas e coordenadora de Memória do Boi de Seu Teodoro, decide levar a vivência do barracão para as salas de aula da Universidade de Brasília (UnB)
Em sua especialização em História Cultural, a mestra apresentou a monografia intitulada “Entre linhas, matracas e ladainhas — As Marias do Boi de Teodoro”. A pesquisa nasce da urgência de dar visibilidade a quem sempre manteve a tradição de pé, mas nas sombras.
“Quis mostrar o protagonismo delas, que elas existiam, elas não eram invisíveis. Elas estavam sendo invisibilizadas, mas elas não eram invisíveis.”
Tamatatíua Freire
Como resultado, o Instituto Rosa dos Ventos convidou Tamá para idealizar e coordenar um projeto composto exclusivamente por mulheres: o Bumba Maria Meu Boi.
Atuando como diretora artística, Tamá liderou um processo em que as mulheres negras assumiram o comando absoluto de cada etapa — desde a cantoria e a percussão dos pandeiros até a gestão administrativa e oficinas de bordado, onde cada brincante bordou, com as próprias mãos, a frente dos chapéus usados na festividade.
Para Tamá, hoje aos 60 anos de idade, ocupar esses postos é subverter a invisibilidade através da ocupação física, política e sonora da tradição.
Jacy Freire, a liderança silenciosa que sustenta o barracão
Se a frente de memória do Boi do Seu Teodoro muitas vezes ganha as telas e os palcos pelas vozes de Tamá, existe outra força — avessa aos holofotes — que opera nos bastidores.
Jacy Freire, servidora pública de 58 anos, e também filha do fundador, carrega a responsabilidade de ser a vice-presidente do Centro de Tradições Populares.
Em parceria com seu irmão, Guarapiranga (o Guará) — que assume a linha de frente institucional, correndo atrás de editais e buscando emendas parlamentares — nenhuma decisão estratégica é tomada de forma isolada. É na mesa da diretoria, sob o olhar de Jacy, que os rumos administrativos do grupo são definidos.
“Ele sempre vem conversar comigo e com a diretoria… ele não faz sozinho. Sempre procura minha opinião e eu questiono: ‘será que para esse caminho tá legal?’”
Jacy Freire
Sua atuação desmistifica a ideia de que a gestão do patrimônio imaterial é uma tarefa exclusivamente masculina.
Para Jacy, a ocupação de cargos de liderança por mulheres negras é um ato de incidência política e garantia de direitos.
É por meio desse espaço administrativo que elas conseguem gerenciar as pessoas de forma humanizada, acolhendo desde as crianças até os brincantes idosos, que encontram ali um território de lazer muitas vezes negado pelo poder público.
Ao assumir a vice-presidência, Jacy não apenas dá continuidade a esse legado de acolhimento, respeito e resistência cultural, mas o eleva a um patamar de liderança comunitária.
O bumba meu boi e a migração cultural
O bumba meu boi é uma das manifestações mais ricas da cultura popular brasileira, fundindo música, dança, teatro e lendas de matrizes diversas. O Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2019. O auto narra a morte e a ressurreição de um boi enfeitado.
No Maranhão, a manifestação ganha diferentes sotaques, como matraca, zabumba e baixada, marcados por ritmos, instrumentos e formas próprias de dançar. Com os fluxos migratórios, o Boi atravessou o país, levando histórias, saberes e identidade para novos territórios. Foi assim com Seu Teodoro, que chegou a Brasília em 1961 para apresentar o bumba meu boi no primeiro aniversário da capital e, no ano seguinte, mudou-se definitivamente para a cidade. Em 1963, criou em Sobradinho o Centro de Tradições Populares que levaria seu nome.
Sob a sombra do golpe de 1964, o Boi se tornou uma rede de acolhimento: Teodoro buscava conterrâneos na Rodoviária do Plano Piloto, oferecendo-lhes não apenas abrigo, mas pertencimento e a esperança de um futuro melhor.
Nessa caminhada, Teodoro não andava só. Sua companheira, Dona Maria, hoje com 93 anos e servidora pública aposentada, era a fortaleza que sustentava o projeto e o impedia de ruir diante do preconceito e das pressões urbanas da capital.
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Dona Maria © Luiz Filipe Reis
Com a morte do mestre em 2012, o tom da toada mudou, revelando que a retaguarda não só já era feita por mãos femininas, como também seria sustentada por suas filhas Tamatatíua e Jacy, com a ajuda da presidência do irmão Guará.
Memória e continuidade
O amanhã do terreiro é projetado pelas irmãs através de sonhos que se complementam entre a organização e a permanência afetiva.
Para a vice-presidente, a continuidade do Boi é uma promessa de vida e de honra à memória do pai, indissociável do papel de acolhimento social do barracão:
“O intuito é esse: é não acabar o trabalho, porque outras gerações virão e a luta também é por isso. Sim, porque igual meu pai falava: ‘para não deixar acabar’. Continua, que é uma coisa muito importante e que vai ajudar as pessoas em todo sentido da vida. A cultura ela precisa do apoio. Eu acho que aqui é um lugar de apoio, sim, para todo mundo. Tanto para quem tá dando a cultura, quanto para quem tá recebendo, quem tá brincando.”
Já Tamá faz questão de frisar que o espaço conquistado pelas mulheres negras na cultura não aceita mais retrocessos: “As mulheres, cada dia elas estão chegando. Então, precisa ter essa voz. Ser essa voz não só de ser comandada, mas de estar no comando. E para essa menina negra que hoje sonha em continuar nosso trabalho, eu digo: você para estar aqui, você tem que se disponibilizar para aprender. Então é isso que eu falo: não desista.” .
Para a doutora em antropologia Cleidiana Ramos, as manifestações tradicionais de matriz africana e indígena não são meras distrações lúdicas, mas formas sofisticadas de resistência política e cultural construídas pelo povo brasileiro ao longo de sua história.
Ela explica que sufocar esses territórios é uma tentativa de silenciar a memória coletiva:
“A festa é o campo de maior criação e de maior tensionamento que as populações brasileiras tiveram. Ela é um espaço de memória de como as populações indígenas, negras, ciganas — esses grupos colocados em posições subalternizadas pelas classes dominantes — criaram a verdadeira cultura nacional”.
Se o Boi de Teodoro deixasse de existir… “Perde tudo”, resume de forma cortante a vice-presidente Jacy Freire.
Assim, o legado que essas mulheres deixam garante que elas não sejam apenas afetadas pelo contexto social, mas agentes de sua própria narrativa.
O Boi de Seu Teodoro se mantém de pé pelas mãos dessas guardiãs que fazem da memória um sonho vivo, construído em uma longa travessia do Maranhão até o solo candango.





