O mito da mãe guerreira

Acho que quase toda mãe já ouviu que é uma “guerreira”. Na época das nossas mães e avós, a sobrecarga materna soava como o maior dos elogios. Afinal, a sociedade sempre vendeu a ideia de que a mulher forte é aquela que dá conta de tudo e ainda cuida dos filhos com um sorriso no rosto.

Só que de uns tempos pra cá a ficha começou a cair. A gente passou a falar mais sobre maternidade real, culpa materna e a cilada da maternidade romantizada. Ficou claro o que esse papo de “heroína” realmente esconde: uma tentativa de abafar a nossa exaustão e jogar a responsabilidade só no nosso colo.

Segundo levantamento do FGV IBRE, com base do IBGE, o Brasil tinha 11,3 milhões de mães solo em 2022, um aumento de 1,7 milhão em uma década.

Cerca de 15% dos domicílios brasileiros são chefiados por mães solo, e 72,4% delas vivem apenas com os filhos, sem parentes ou outras pessoas no domicílio que poderiam compartilhar as responsabilidades familiares.

Você é uma dessas 11 milhões? Como é essa conta aí na sua casa?

Quando a gente chama de “guerreira” uma mulher que foi abandonada pelo genitor da criança, esquecida pelo Estado e deixada de lado pela própria família, o que a gente está fazendo é normalizar o abandono. É como dizer: “continua aguentando firme, você dá conta”.

No segundo domingo de maio chegam as flores e os discursos bonitos, mas, na segunda-feira seguinte, as políticas públicas e a divisão justa do trabalho continuam não existindo.

Essa sobrecarga diária adoece o corpo e a cabeça. O mais cruel é que, quando essa mesma mulher não aguenta e adoece, o rótulo muda rapidinho: ela deixa de ser a guerreira e vira a “descompensada”, a “estressada”, a “mãe relapsa”.

A linha entre ser colocada num pedestal e ser julgada é tênue, a mulher precisa se anular o tempo todo para manter todos os pratinhos no ar. O resultado disso? Culpa e esgotamento. Uma pesquisa da B2Mamy em parceria com a Kiddle Pass mostrou que 9 em cada 10 mães entrevistadas apresentaram sintomas de esgotamento emocional.

A economia do cuidado: cuidar é trabalho, e trabalho precisa de salário

E tem mais uma coisa: ainda é muito comum dizer que a mulher que cuida da casa e dos filhos “não faz nada o dia todo”. Como se gerenciar uma casa, cuidar das crianças e ainda sustentar o emocional de todo mundo não fosse trabalho pesado. Se você contratasse uma cozinheira, uma faxineira, uma babá, uma psicóloga e uma motorista particular, a conta sairia caríssima no fim do mês. Mas, quando é a mãe que faz, magicamente vira “amor de mãe” ou “obrigação feminina”.

Chamar tudo isso de “obrigação de mulher” é muito cômodo, porque tira das costas da sociedade e do governo o dever de oferecer creches, apoio e condições dignas.

Cuidar dá trabalho, consome tempo e saúde e movimenta o mundo.

No fim das contas, a verdade é simples: romantizar a nossa exaustão é uma forma de nos manter sozinhas. A gente não quer flores uma vez por ano, nem aplausos vazios por aguentar o insuportável. A gente quer apoio, divisão de tarefas, descanso e respeito.

Mães não precisam de capa nem de armadura. Mães precisam de paz para serem apenas pessoas que trabalham, estudam, passeiam, erram e também têm todo o direito de serem cuidadas.



Tribunal Brasília

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