Em Darfur, as mulheres sustentam a vida enquanto o mundo ignora a guerra

No dia 7 de setembro, cinco mulheres foram libertadas no Darfur do Sul, no Sudão, depois de permanecerem mais de seis meses detidas pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), sem acusação formal e sem terem passado por um tribunal. Entre elas estavam três jornalistas da Rádio Nyala, uma diretora de centro de formação e uma advogada e ativista de direitos humanos. Elas haviam sido presas depois de participar de uma oficina em Nyala dedicada aos direitos das mulheres e à Resolução 1325 do Conselho de Segurança da ONU, que estabelece a participação das mulheres nos processos de paz e segurança.

É difícil não pensar na contradição dessa história. Enquanto a guerra avança sobre Darfur, discutir os direitos das mulheres, sua participação política e sua capacidade de organização continua sendo tratado como uma ameaça. As cinco passaram meses encarceradas, longe de qualquer julgamento, depois de participarem de uma atividade que reunia 25 pessoas para conversar justamente sobre o papel das mulheres em um contexto de conflito.

O episódio chama atenção também pelo lugar que essas mulheres ocupam na sociedade sudanesa. São jornalistas, militantes, profissionais que trabalham com formação e direitos humanos, mulheres que produzem informação, ajudam a construir consciência e interferem na vida pública. A repressão contra elas alcança, portanto, uma dimensão que ultrapassa a violência individual. Existe uma tentativa de controlar a circulação da palavra, da organização e da própria possibilidade de as mulheres se reconhecerem como sujeitos políticos.

A missão internacional independente de apuração dos fatos no Sudão concluiu que os assassinatos em massa e outras atrocidades cometidas pelas Forças de Apoio Rápido (RSF, em inglês) durante a tomada de El Fasher, em outubro de 2025, indicam uma trajetória genocida. Após 18 meses de cerco, as forças impuseram condições destinadas à destruição física de comunidades não árabes, especialmente Zaghawa e Fur, em uma escalada de ataques motivados por etnia, gênero e suposta filiação política, marcada por assassinatos em massa, violência sexual, tortura, detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e discursos de extermínio.

Em discurso realizado no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a diretora regional da Iniciativa Estratégica para as Mulheres do Chifre da África (SIHA), Hala Al-Kharib, contou que mulheres foram submetidas a atrocidades brutais, tortura e tráfico pelas RSF na região metropolitana de Cartum e em Nyala, no sul de Darfur. “A brutalidade das RSF ficou evidente na cidade de El Geneina, no oeste de Darfur, onde estupraram mulheres de Masalit e de outras tribos africanas nativas na frente de suas famílias, que depois foram assassinadas. Mais de 4 milhões de mulheres e meninas estão agora em risco de violência sexual no Sudão e inúmeras outras foram massacradas”, detalhou.

Há décadas Darfur convive com esse tipo de violência. Entre 2003 e 2005, comunidades fur, massalit e zaghawa foram atacadas por milícias janjaweed apoiadas pelo governo de Omar al-Bashir, em um processo marcado por assassinatos, deslocamentos forçados e estupros em massa. Em 2009, o Tribunal Penal Internacional expediu um mandado contra Bashir pelos crimes cometidos em Darfur, embora ele nunca tenha sido julgado pelo tribunal, e em abril de 2023, uma nova guerra começou entre as Forças Armadas do Sudão e as Forças de Apoio Rápido (RSF).

Fur, Massalit e Zaghawa são grupos étnicos muçulmanos, historicamente estabelecidos na região de Darfur, no oeste do Sudão, que têm identidades culturais, histórias e línguas próprias.

Os Janjaweed eram milícias armadas treinadas, desde 2003, pelo governo de Omar al-Bashir que armou e apoiou o grupo com o objetivo de combater os movimentos rebeldes. As atuais Forças de Apoio Rápido (RSF) têm origem nessas estruturas e são frequentemente descritas como suas herdeiras.

O passado permanece muito presente nessa guerra

Em outubro de 2025, El Fasher, capital do Darfur do Norte, caiu sob controle das RSF depois de um longo cerco. As estimativas sobre o número de civis mortos variam enormemente, mas as investigações realizadas desde então documentaram execuções, deslocamentos e perseguições motivadas por pertencimento étnico. Em fevereiro deste ano, a Missão Internacional Independente de Apuração de Fatos sobre o Sudão afirmou que havia características de genocídio nos crimes cometidos em El Fasher.

Quando olhamos para os relatórios sobre violência sexual, aparece um elemento que merece nossa atenção. As mulheres não foram atingidas da mesma maneira. Segundo a documentação reunida pela missão da ONU, mulheres identificadas como fur e zaghawa foram particularmente submetidas à violência sexual, enquanto mulheres percebidas como árabes eram frequentemente poupadas. A dimensão racial da violência atravessa, portanto, a dimensão de gênero e ajuda a compreender a forma como determinados corpos foram escolhidos como alvo.

Al-Kharib destaca que o atual conflito no Sudão é resultado de décadas de violência, em especial contra mulheres, incluindo violência sexual, estupro e outras formas de violência de gênero. Ela diz que este contexto tem relação com os protestos em massa liderados por mulheres e jovens, que começaram em dezembro de 2018 e levaram à queda de al-Bashir. “Eles foram, em parte, uma resposta direta à forma como os corpos e as vozes das mulheres têm sido sistematicamente atacados há mais de 30 anos”.

A organização Médicos Sem Fronteiras registrou 3.396 sobreviventes de violência sexual atendidos entre janeiro de 2024 e novembro de 2025. No Darfur do Sul, 41 das pessoas atendidas tinham menos de cinco anos e, em 60% dos casos registrados nessa região, havia mais de um agressor. O próprio relatório alerta para o fato de que a violência sexual não está confinada às linhas de frente da guerra.

Esses dados são importantes para dimensionar o horror, embora exista algo que os números nunca consigam mostrar sozinhos. Uma estatística não conta quem levou a sobrevivente para receber atendimento, quem encontrou um lugar onde ela pudesse dormir, quem levou comida para seus filhos, quem dividiu com ela os poucos recursos disponíveis, quem permaneceu ao seu lado quando as organizações internacionais deixaram de chegar.

Em Darfur, muitas dessas tarefas estão sendo assumidas pelas próprias comunidades.

Nós por nós

As Emergency Response Rooms (Salas de Resposta a Emergências, em tradução livre) nasceram dos comitês de resistência organizados nos bairros durante a revolução sudanesa de 2019, quando milhares de pessoas ocuparam as ruas para derrubar Omar al-Bashir. As mulheres estavam entre as protagonistas daquele processo.

Destaque: Quem não se lembra de Alaa Salah, a jovem que à época, com 22 anos, subiu em um carro e, em meio a uma multidão com milhares de mulheres, virou o símbolo da revolução naquele ano?

Com o início da guerra, essas estruturas passaram a organizar alimentos, atendimento, abrigo e outras formas de sobrevivência. Segundo existem cerca de 26 mil voluntários ligados a essas redes em 18 estados sudaneses.

As mãos que se organizam

É comum que a imprensa internacional descreva as Emergency Response Rooms como iniciativas locais de ajuda humanitária. A expressão não está exatamente errada, mas deixa escapar a história de onde essas organizações vieram e, principalmente, o caráter político daquilo que fazem.

Elas são resultado de uma experiência de mobilização popular que sobreviveu à queda do governo de Bashir, atravessou a repressão e encontrou novas formas de resistir durante a guerra. Mulheres e homens que haviam aprendido a organizar seus bairros para protestar passaram a organizar os mesmos territórios para garantir que as pessoas continuassem vivas.

As Sala de Resposta a Emergências funcionam como redes comunitárias criadas por voluntários locais que substituem a ausência do Estado e de ajuda humanitária.

O poder de decisão nessas salas é totalmente horizontal e coletivo, onde os próprios moradores dividem as tarefas e resolvem os problemas diários com base em suas habilidades profissionais e necessidades imediatas da vizinhança.

Para alimentar a população, o sistema utiliza cozinhas comunitárias chamadas Takaaya, que se mantêm ativas graças a negociações diretas com comerciantes locais para cruzar linhas de frente e ao financiamento enviado por sudaneses no exterior, tudo impulsionado pelo Nafeer, um princípio cultural de solidariedade mútua.

Uma pesquisa realizada pela Sudan Crisis Coordination Unit, ligada à Shabaka – organização de pesquisas -, mapeou 28 dessas salas em sete estados e identificou que, em regiões como Cartum, elas se tornaram atores fundamentais da resposta humanitária, articulando atendimento, encaminhamento para serviços de saúde, distribuição de recursos e circulação de informações. Essas redes não são instituições formais e têm raízes em uma longa tradição sudanesa de ajuda mútua, como o nafeer, que também esteve presente em outras situações de crise.

E essa é uma experiência que, apesar da distância geográfica, não nos parece tão estranha.

Ocupações bem organizadas por movimentos sociais confrontam a falta de garantia de direitos para as pessoas que vivem nos territórios mais negligenciados. Quando falta creche, alguém organiza o cuidado. Quando falta comida, alguém mobiliza uma cesta básica. Quando uma família perde sua casa, aparecem as vaquinhas, as cozinhas solidárias, os movimentos, as igrejas, as associações, os coletivos. Quando uma mulher sofre violência, outra mulher muitas vezes é a primeira pessoa a oferecer abrigo, escuta ou companhia.

Existe uma estrutura de desigualdade que empurra essas responsabilidades para quem já tem pouco. Existe também uma tradição de organização popular que faz com que essas pessoas construam, com as próprias mãos, mecanismos para enfrentar aquilo que deveria estar garantido como direito.

As sudanesas fazem isso em uma escala brutal, dentro de um país atravessado pela guerra, pela fome, pelo deslocamento e pela violência armada.

E enfrentam ainda o desafio de sobreviver sem perder a possibilidade de participar das decisões sobre o futuro do próprio país.

A história recente do Sudão já mostrou essa contradição. As mulheres estiveram nas ruas durante a revolução de 2019, tiveram papel central na mobilização que derrubou Bashir e ajudaram a sustentar o movimento, embora tenham encontrado dificuldades para ocupar os espaços de decisão durante a transição política.

Essa experiência não é exclusiva do Sudão. Em muitos países africanos, norte-africanos e árabes, durante guerras por libertação contra a colonização, mulheres participaram da guerrilha, transportaram armas e mensagens, ajudaram na circulação de recursos e também sustentaram a luta a partir de suas casas. Muitas dessas histórias foram apagadas por uma narrativa que preferiu transformar algumas revolucionárias em símbolos e deixar na sombra a participação cotidiana de milhares de outras mulheres.

Talvez essa seja uma das maiores dificuldades quando falamos sobre mulheres em contextos de guerra. É muito mais fácil reconhecê-las quando estão feridas, deslocadas ou submetidas à violência. Quando elas aparecem organizando, decidindo, comunicando, cuidando e participando das disputas políticas, a narrativa muda de lugar.

O problema é que, enquanto decidimos como contar essas histórias, elas seguem fazendo o trabalho.

As jornalistas de Nyala estavam discutindo direitos das mulheres quando foram presas. As integrantes das Emergency Response Rooms organizam alimentos e atendimento quando faltam recursos. As sobreviventes de violência sexual procuram atendimento e precisam reconstruir suas próprias vidas enquanto a guerra continua. Aquelas que vivem fora do Sudão mobilizam campanhas, pressionam governos e tentam fazer com que a violência cometida contra seu povo não desapareça completamente do debate internacional.

Niemat Ahmadi é um desses exemplos. A ativista, refugiada nos Estados Unidos, é presidente e fundadora do Grupo de Ação das Mulheres de Darfur, resistindo às violências cometidas em sua terra natal a partir de outro território. “Um [caso] que me dilacerou o coração e me chocou profundamente foi o de Noura, que sofreu um estupro coletivo aos 12 anos de idade, ficando em estado crítico. Sua família, lutando para sobreviver, teve que tomar uma decisão impossível: buscar tratamento para ela ou alimentar seu irmão mais novo. Ao ouvir isso, Noura olhou para cima em lágrimas e disse à mãe que não queria mais viver. Essas são escolhas que nenhuma família deveria ter que fazer e nenhuma criança deveria ter que suportar”, relatou a ativista.

O corpo das mulheres está entre os alvos da guerra, atravessado pelo racismo e pelas disputas territoriais, ao mesmo tempo em que as próprias mulheres constroem redes que garantem comida, cuidado, informação e alguma possibilidade de proteção para suas comunidades. Essa contradição revela muito sobre a permanência de estruturas de dominação e também sobre a capacidade de organização daqueles que vivem sob elas.

Em um mundo no qual guerras continuam sendo decididas por homens armados e negociadas em salas distantes dos territórios afetados, olhar para as mulheres sudanesas significa também perguntar quem tem o direito de falar sobre paz, reconstrução e futuro.

Talvez a resposta esteja justamente nas redes que elas construíram.

As mulheres que cozinham, cuidam, informam, acolhem, denunciam e se organizam em Darfur estão produzindo uma experiência política que deveria ser levada para as mesas onde se decide o futuro do Sudão. A solidariedade internacional precisa alcançar esse lugar, reconhecendo essas mulheres como protagonistas e não apenas como destinatárias de ajuda.

As mulheres de Darfur não precisam apenas que contem suas histórias. Precisam que suas vozes sejam consideradas quando discutimos justiça, paz, território, guerra e reconstrução.

Em algum lugar do Sudão, enquanto o mundo olha para os mapas, para os relatórios e para as imagens dos campos de deslocados, há uma mulher preparando comida para outras pessoas, outra tentando conseguir medicamentos, outra transmitindo uma informação, outra cuidando dos filhos de uma vizinha e outra tentando garantir que uma sobrevivente de violência sexual consiga atendimento.

São essas mulheres que mantêm a vida de pé enquanto tudo ao redor parece desabar. São suas redes que nasceram da resistência popular e hoje mantêm comunidades inteiras vivas.



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