O El Niño já se formou nas águas do Oceano Pacífico e seus efeitos devem se intensificar até o fim do ano. Segundo Organização Meteorológica Mundial (OMM), em boletim divulgado em 3 de setembro, há 100% de chance de o evento ser “muito forte”, com pico em dezembro de 2026, com persistência até fevereiro de 2027. Mas o que isso significa na prática? O que pode mudar no cotidiano das mulheres periféricas?
Os efeitos de um fenômeno climático não são sentidos da mesma maneira por todas as pessoas. Nas periferias, onde parte da população já convive com falta de água e energia, moradias em áreas de risco e insegurança alimentar, calor intenso, chuvas e possíveis alterações no preço dos alimentos podem aprofundar desigualdades que já existem.
Essa desigualdade também pode ser nomeada de racismo ambiental. Em todos os cantos do país, as populações negras tendem a ser mais afetadas pela crise climática. Em São Paulo (SP), por exemplo, os bairros onde moram mais pessoas negras foram os que mais registraram alagamentos, inundações e deslizamentos, segundo levantamento da Agência Pública a partir dos dados da Defesa Civil.
O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, na faixa próxima à linha do Equador. Seus efeitos acontecem em um contexto de mudanças climáticas, que também vêm alterando a frequência e a intensidade de eventos extremos.
“Um evento de El Niño nunca é exatamente igual a outro, mas sabemos que tipo de impacto esperar em cada região. No Sul do Brasil contribui para chuvas acima da média, enquanto nas regiões Norte e Nordeste contribui para chuvas abaixo da média. Na região mais central do país geralmente há mais calor e irregularidade nas chuvas”, afirma Karina Bruno Lima, doutora com pesquisa em Climatologia e pesquisadora visitante na Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha.
“Apesar de ser um fenômeno natural, os impactos do El Niño estão sendo potencializados pelas mudanças climáticas. Alguns estudos estão indicando que as mudanças climáticas podem estar influenciando a variabilidade natural do fenômeno e tornando mais frequentes os episódios mais intensos”, destaca.
A pesquisadora pontua ainda que em eventos como esse, as populações mais vulneráveis tendem a ser as mais afetadas. Por isso, é importante se atentar às atualizações sobre o fenômeno feitas por especialistas e aos alertas oficiais emitidos por órgãos como Defesa Civil e Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Para entender como esse cenário pode chegar ao cotidiano das mulheres periféricas, o Nós, mulheres da periferia conversou com lideranças e ativistas que vivem ou atuam em territórios diretamente afetados pela crise climática. Elas falam sobre segurança alimentar, calor, falta de água e energia, racismo ambiental e a necessidade de políticas públicas de adaptação.
A horta que virou estratégia de segurança alimentar
“Me preocupa muito. Quem tem condição, sempre vai ter comida no prato. Mas, e quem não tem condição?”, desabafa Maria de Lourdes Silva, conhecida como Lia Esperança, sobre a possibilidade de aumento dos preços dos alimentos em decorrência dos efeitos do El Niño.
A preocupação com o preço e o acesso aos alimentos não é isolada. Uma pesquisa da Unifesp, que ouviu quase uma centena de especialistas e gestores públicos ligados aos sistemas alimentares em todas as regiões do Brasil, mostrou que entre 78% e 86% dos entrevistados apontam o encarecimento dos alimentos e a perda de renda como os principais canais pelos quais a crise climática afeta a população.
Essa desigualdade também aparece na capacidade de se preparar para os impactos do fenômeno. Com a circulação de alertas sobre um El Niño intenso, vídeos que ensinam a formar estoques de alimentos passaram a ganhar espaço nas redes sociais e em aplicativos de mensagens. As publicações mostram despensas abastecidas com arroz, feijão, macarrão, enlatados e água como forma de preparação para possíveis problemas de abastecimento.
Mas quem consegue se preparar dessa maneira? Antecipar o consumo de semanas ou meses exige dinheiro disponível para comprar alimentos que só serão consumidos no futuro, além de espaço e condições adequadas para armazená-los. Para famílias que já precisam administrar a renda para garantir a comida até o fim do mês, essa estratégia pode ser inacessível.
Natural de Itaberaba (BA), Lia Esperança chegou à Vila Nova Esperança, comunidade da zona oeste de São Paulo, no ano de 2003. Na época, descobriu que o território enfrentava um processo de despejo por estar situado em uma área de preservação ambiental.
Para evitar o despejo e provar que a comunidade não fazia mal ao meio ambiente, Lia liderou a criação de uma horta comunitária, que hoje conta com mais de 5 mil m². “A horta não trouxe só a educação ambiental, também trouxe segurança alimentar, mais união, saúde e empreendedorismo para dentro da comunidade”, relata.
Hoje, a própria horta pode ser afetada pelas mudanças nas condições climáticas, com ondas de calor e fortes chuvas. Com a proximidade do El Niño, ela teme pela dificuldade de produção do espaço que gera parte dos alimentos usados no preparo de almoços diários para cerca de 200 crianças atendidas pelo Instituto Lia Esperança, do qual é fundadora.
Diante desse risco, o próprio instituto começou a formar um estoque de feijão para garantir parte das refeições servidas às crianças. A medida, porém, evidencia a mesma desigualdade apontada por Lia no início deste texto: preparar-se antecipadamente exige recursos que muitas famílias não têm.
Ela também busca alternativas para implementar energia solar no instituto. A preocupação de Lia vai além da produção de alimentos. Para ela, a população precisa compreender os riscos associados ao fenômeno e às mudanças climáticas. “As pessoas precisam ter conhecimento do perigo que elas estão correndo.”
Quando o calor também revela desigualdades
“O El Niño evidencia desigualdades. As mulheres negras, periféricas, indígenas, ribeirinhas, pessoas que moram perto de encostas, são as que estão na linha de frente do cuidado com a comida, a roça, a casa, e também são linha de frente da busca por soluções climáticas”, pontua Roberta Sodré, assessora de mobilização territorial do Centro Brasileiro de Justiça Climática.
Moradora de Belém (AM), Roberta chama atenção para as altas temperaturas enfrentadas na região Norte, que podem se intensificar com a chegada do fenômeno. “Sabemos que há residências nas periferias que têm apenas um ventilador e que a questão da água ainda é um problema”.
O exemplo ajuda a mostrar que enfrentar uma onda de calor depende também das condições das moradias, do acesso à energia e à água e da possibilidade de cada família se proteger.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023, 85,9% dos domicílios brasileiros tinham acesso à rede geral de abastecimento de água. No entanto, muitas casas nas periferias sofrem com a falta d’água. Na capital paraense, por exemplo, 58 mil pessoas vivem sem acesso à água potável, segundo a ONG Mandi, cujo levantamento foi realizado em 2025.
A ativista destaca ainda a importância do poder público e de organizações da sociedade civil realizarem comunicações mais didáticas sobre El Niño. Ela também defende que a população cobre dos governos ações de adaptação climática.
“Como é que está sendo feito o investimento no saneamento nas periferias? Como é que está sendo feito o investimento no semiárido? Há um crédito, uma assistência para famílias em relação à segurança alimentar, com esse recorte de raça e de gênero?”.
Racismo ambiental também é não estar nas decisões
“Racismo ambiental não é apenas a violência cotidiana, é também ter as mulheres negras tiradas dos espaços de tomada de decisão, quando se trata de mitigação e proteção climática”, afirma Iya Katiuscia de Yemanjá, yakekere do Terreiro Òbá Labí, no Rio de Janeiro (RJ).
A ativista relata que a comunidade está situada dentro de uma unidade de conservação e vive cotidianamente os impactos da crise climática. Mesmo sem a ocorrência do El Niño, os moradores ficam dias sem energia devido a ventos fortes e não contam com saneamento básico adequado.
Mesmo estando entre as populações mais afetadas pelo racismo ambiental, essas comunidades também protagonizam soluções para os impactos da crise climática. É o caso das “florestas de quintal”, iniciativa de incentivo à plantação nas casas da comunidade, que colaborou com o escoamento da água nos períodos de chuva.
A experiência reforça uma contradição presente nos territórios mais afetados pela crise climática: são populações que enfrentam maiores riscos, mas também desenvolvem soluções para responder a eles.
Sobre o El Niño, Iya afirma que as mulheres, principalmente as mulheres negras, vão ser as mais impactadas. “São elas quem ficam nas comunidades, seguram as pontas e controlam determinados casos”.
Quem protege as periferias dos eventos extremos?
“A maioria da nossa energia é gerada pelas hidroelétricas. Se o rio seca, a energia fica escassa, logo, aumenta nossa conta de luz. A mesma coisa com os alimentos, se você não há um ambiente saudável para produzir os alimentos, eles ficam escassos, logo, ficam mais caros”, pontua Anne Heloise, advogada e diretora executiva do Instituto DuClima.
Os efeitos previstos podem atingir também o orçamento das famílias, com possíveis impactos sobre os preços dos alimentos e da energia. Nas periferias, onde algumas localidades já enfrentam problemas de acesso à água e à eletricidade, os efeitos podem se somar a vulnerabilidades existentes.
Para Anne, apesar de alguns esforços do governo federal, as ações dos governos federal e municipais ainda estão abaixo do necessário para preparar a população para os possíveis impactos do El Niño.
O Instituto DuClima é uma das organizações que assinaram a “Carta de Posicionamento frente ao El Niño e seus impactos no Brasil”, que cobra uma ação mais incisiva do poder público. “Nos parece que a resposta do poder público continua a seguir um padrão que precisamos nomear: agir somente após o desastre”, lê-se num trecho.
Para Anne, a sociedade civil precisa ampliar sua atuação no Legislativo para pressionar pela criação de políticas de adaptação climática.
É o caso do Projeto de Lei n.º 1.594/2024, que cria a Política Nacional dos Deslocados Ambientais e Climáticos, e está em fase de tramitação na Câmara dos Deputados. A proposta prevê uma série de direitos aos deslocados climáticos nos campos de saúde, educação, trabalho, assistência social, moradia e justiça.





