{"id":29393,"date":"2026-09-15T13:33:12","date_gmt":"2026-09-15T16:33:12","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29393"},"modified":"2026-09-15T13:33:12","modified_gmt":"2026-09-15T16:33:12","slug":"o-mito-da-mae-guerreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29393","title":{"rendered":"O mito da m\u00e3e guerreira"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que quase toda m\u00e3e j\u00e1 ouviu que \u00e9 uma \u201cguerreira\u201d. Na \u00e9poca das nossas m\u00e3es e av\u00f3s, a sobrecarga materna soava como o maior dos elogios. Afinal, a sociedade sempre vendeu a ideia de que a mulher forte \u00e9 aquela que d\u00e1 conta de tudo e ainda cuida dos filhos com um sorriso no rosto.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 que de uns tempos pra c\u00e1 a ficha come\u00e7ou a cair. A gente passou a falar mais sobre maternidade real, culpa materna e a cilada da maternidade romantizada. Ficou claro o que esse papo de \u201chero\u00edna\u201d realmente esconde: uma tentativa de abafar a nossa exaust\u00e3o e jogar a responsabilidade s\u00f3 no nosso colo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo levantamento do <a href=\"https:\/\/blogdoibre.fgv.br\/node\/1655?utm_source=chatgpt.com\" target=\"_blank\" aria-label=\"FGV IBRE (opens in a new tab)\" rel=\"noreferrer noopener\" class=\"ek-link\">FGV IBRE<\/a>, com base do IBGE, o Brasil tinha 11,3 milh\u00f5es de m\u00e3es solo em 2022, um aumento de 1,7 milh\u00e3o em uma d\u00e9cada. <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cerca de 15% dos domic\u00edlios brasileiros s\u00e3o chefiados por m\u00e3es solo, e 72,4% delas vivem apenas com os filhos, sem parentes ou outras pessoas no domic\u00edlio que poderiam compartilhar as responsabilidades familiares.<\/p>\n<blockquote class=\"\">\n<p>Voc\u00ea \u00e9 uma dessas 11 milh\u00f5es? Como \u00e9 essa conta a\u00ed na sua casa?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a gente chama de \u201cguerreira\u201d uma mulher que foi abandonada pelo genitor da crian\u00e7a, esquecida pelo Estado e deixada de lado pela pr\u00f3pria fam\u00edlia, o que a gente est\u00e1 fazendo \u00e9 normalizar o abandono. \u00c9 como dizer: \u201ccontinua aguentando firme, voc\u00ea d\u00e1 conta\u201d. <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No segundo domingo de maio chegam as flores e os discursos bonitos, mas, na segunda-feira seguinte, as pol\u00edticas p\u00fablicas e a divis\u00e3o justa do trabalho continuam n\u00e3o existindo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sobrecarga di\u00e1ria adoece o corpo e a cabe\u00e7a. O mais cruel \u00e9 que, quando essa mesma mulher n\u00e3o aguenta e adoece, o r\u00f3tulo muda rapidinho: ela deixa de ser a guerreira e vira a \u201cdescompensada\u201d, a \u201cestressada\u201d, a \u201cm\u00e3e relapsa\u201d. <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linha entre ser colocada num pedestal e ser julgada \u00e9 t\u00eanue, a mulher precisa se anular o tempo todo para manter todos os pratinhos no ar. O resultado disso? Culpa e esgotamento. Uma pesquisa da B2Mamy em parceria com a Kiddle Pass mostrou que 9 em cada 10 m\u00e3es entrevistadas apresentaram sintomas de esgotamento emocional.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A economia do cuidado: cuidar \u00e9 trabalho, e trabalho precisa de sal\u00e1rio<\/strong><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tem mais uma coisa: ainda \u00e9 muito comum dizer que a mulher que cuida da casa e dos filhos \u201cn\u00e3o faz nada o dia todo\u201d. Como se gerenciar uma casa, cuidar das crian\u00e7as e ainda sustentar o emocional de todo mundo n\u00e3o fosse trabalho pesado. Se voc\u00ea contratasse uma cozinheira, uma faxineira, uma bab\u00e1, uma psic\u00f3loga e uma motorista particular, a conta sairia car\u00edssima no fim do m\u00eas. Mas, quando \u00e9 a m\u00e3e que faz, magicamente vira \u201camor de m\u00e3e\u201d ou \u201cobriga\u00e7\u00e3o feminina\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chamar tudo isso de \u201cobriga\u00e7\u00e3o de mulher\u201d \u00e9 muito c\u00f4modo, porque tira das costas da sociedade e do governo o dever de oferecer creches, apoio e condi\u00e7\u00f5es dignas. <\/p>\n<blockquote class=\"\">\n<p>Cuidar d\u00e1 trabalho, consome tempo e sa\u00fade e movimenta o mundo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim das contas, a verdade \u00e9 simples: romantizar a nossa exaust\u00e3o \u00e9 uma forma de nos manter sozinhas. A gente n\u00e3o quer flores uma vez por ano, nem aplausos vazios por aguentar o insuport\u00e1vel. A gente quer apoio, divis\u00e3o de tarefas, descanso e respeito.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00e3es n\u00e3o precisam de capa nem de armadura. M\u00e3es precisam de paz para serem apenas pessoas que trabalham, estudam, passeiam, erram e tamb\u00e9m t\u00eam todo o direito de serem cuidadas.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/nosmulheresdaperiferia.org.br\/o-mito-da-mae-guerreira\/\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho que quase toda m\u00e3e j\u00e1 ouviu que \u00e9 uma \u201cguerreira\u201d. Na \u00e9poca das nossas m\u00e3es e av\u00f3s, a sobrecarga materna soava como o maior dos elogios. 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