{"id":29391,"date":"2026-09-15T12:49:25","date_gmt":"2026-09-15T15:49:25","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29391"},"modified":"2026-09-15T12:49:25","modified_gmt":"2026-09-15T15:49:25","slug":"em-darfur-as-mulheres-sustentam-a-vida-enquanto-o-mundo-ignora-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29391","title":{"rendered":"Em Darfur, as mulheres sustentam a vida enquanto o mundo ignora a guerra"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 7 de setembro, cinco mulheres foram libertadas no Darfur do Sul, no Sud\u00e3o, depois de permanecerem mais de seis meses detidas pelas For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF), sem acusa\u00e7\u00e3o formal e sem terem passado por um tribunal. Entre elas estavam tr\u00eas jornalistas da R\u00e1dio Nyala, uma diretora de centro de forma\u00e7\u00e3o e uma advogada e ativista de direitos humanos. Elas haviam sido presas depois de participar de uma oficina em Nyala dedicada aos direitos das mulheres e \u00e0 Resolu\u00e7\u00e3o 1325 do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, que estabelece a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nos processos de paz e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o pensar na contradi\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria. Enquanto a guerra avan\u00e7a sobre Darfur, discutir os direitos das mulheres, sua participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sua capacidade de organiza\u00e7\u00e3o continua sendo tratado como uma amea\u00e7a. As cinco passaram meses encarceradas, longe de qualquer julgamento, depois de participarem de uma atividade que reunia 25 pessoas para conversar justamente sobre o papel das mulheres em um contexto de conflito.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio chama aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pelo lugar que essas mulheres ocupam na sociedade sudanesa. S\u00e3o jornalistas, militantes, profissionais que trabalham com forma\u00e7\u00e3o e direitos humanos, mulheres que produzem informa\u00e7\u00e3o, ajudam a construir consci\u00eancia e interferem na vida p\u00fablica. A repress\u00e3o contra elas alcan\u00e7a, portanto, uma dimens\u00e3o que ultrapassa a viol\u00eancia individual. Existe uma tentativa de controlar a circula\u00e7\u00e3o da palavra, da organiza\u00e7\u00e3o e da pr\u00f3pria possibilidade de as mulheres se reconhecerem como sujeitos pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A miss\u00e3o internacional independente de apura\u00e7\u00e3o dos fatos no Sud\u00e3o concluiu que os assassinatos em massa e outras atrocidades cometidas pelas For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF, em ingl\u00eas) durante a tomada de El Fasher, em outubro de 2025, indicam uma trajet\u00f3ria genocida. Ap\u00f3s 18 meses de cerco, as for\u00e7as impuseram condi\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica de comunidades n\u00e3o \u00e1rabes, especialmente Zaghawa e Fur, em uma escalada de ataques motivados por etnia, g\u00eanero e suposta filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, marcada por assassinatos em massa, viol\u00eancia sexual, tortura, deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, desaparecimentos for\u00e7ados e discursos de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em discurso realizado no Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a diretora regional da Iniciativa Estrat\u00e9gica para as Mulheres do Chifre da \u00c1frica (SIHA), Hala Al-Kharib, contou que <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/news\/2023\/08\/17\/darfur-rapid-support-forces-allied-militias-rape-dozens\">mulheres foram submetidas a atrocidades brutais<\/a>, tortura e tr\u00e1fico pelas RSF na regi\u00e3o metropolitana de Cartum e em Nyala, no sul de Darfur. \u201cA brutalidade das RSF ficou evidente na cidade de El Geneina, no oeste de Darfur, onde estupraram mulheres de Masalit e de outras tribos africanas nativas na frente de suas fam\u00edlias, <a href=\"https:\/\/news.un.org\/en\/story\/2023\/06\/1137647\">que depois foram assassinadas<\/a>. Mais de 4 milh\u00f5es de mulheres e meninas est\u00e3o agora <a href=\"https:\/\/www.emro.who.int\/media\/news\/three-months-of-violence-in-sudan-health-hanging-in-the-balance.html\">em risco de viol\u00eancia sexual no Sud\u00e3o<\/a> e in\u00fameras outras foram massacradas\u201d, detalhou.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 d\u00e9cadas Darfur convive com esse tipo de viol\u00eancia. Entre 2003 e 2005, comunidades <em>fur, massalit e zaghawa<\/em> foram atacadas por mil\u00edcias <em>janjaweed<\/em> apoiadas pelo governo de Omar al-Bashir, em um processo marcado por assassinatos, deslocamentos for\u00e7ados e estupros em massa. Em 2009, o Tribunal Penal Internacional expediu um mandado contra Bashir pelos crimes cometidos em Darfur, embora ele nunca tenha sido julgado pelo tribunal, e em abril de 2023, uma nova guerra come\u00e7ou entre as For\u00e7as Armadas do Sud\u00e3o e as For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF).<\/p>\n<div class=\"box-explicacao d-flex flex-column flex-md-row\">\n<div class=\"explicacao align-self-start mt-4 mt-md-0 mx-5 mx-md-0\">\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fur, Massalit e Zaghawa<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> s\u00e3o grupos \u00e9tnicos mu\u00e7ulmanos, historicamente estabelecidos na regi\u00e3o de Darfur, no oeste do Sud\u00e3o, que t\u00eam identidades culturais, hist\u00f3rias e l\u00ednguas pr\u00f3prias.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"box-explicacao d-flex flex-column flex-md-row\">\n<div class=\"explicacao align-self-start mt-4 mt-md-0 mx-5 mx-md-0\">\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Janjaweed eram mil\u00edcias armadas<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> treinadas, desde 2003, pelo governo de Omar al-Bashir que armou e apoiou o grupo com o objetivo de combater os movimentos rebeldes. As atuais For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF) t\u00eam origem nessas estruturas e s\u00e3o frequentemente descritas como suas herdeiras. <\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O passado permanece muito presente nessa guerra<\/strong><br \/><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outubro de 2025, El Fasher, capital do Darfur do Norte, caiu sob controle das RSF depois de um longo cerco. As estimativas sobre o n\u00famero de civis mortos variam enormemente, mas as investiga\u00e7\u00f5es realizadas desde ent\u00e3o documentaram execu\u00e7\u00f5es, deslocamentos e persegui\u00e7\u00f5es motivadas por pertencimento \u00e9tnico. Em fevereiro deste ano, a Miss\u00e3o Internacional Independente de Apura\u00e7\u00e3o de Fatos sobre o Sud\u00e3o afirmou que havia caracter\u00edsticas de genoc\u00eddio nos crimes cometidos em El Fasher.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando olhamos para os relat\u00f3rios sobre viol\u00eancia sexual, aparece um elemento que merece nossa aten\u00e7\u00e3o. As mulheres n\u00e3o foram atingidas da mesma maneira. Segundo a documenta\u00e7\u00e3o reunida pela miss\u00e3o da ONU, mulheres identificadas como <em>fur <\/em>e <em>zaghawa <\/em>foram particularmente submetidas \u00e0 viol\u00eancia sexual, enquanto mulheres percebidas como \u00e1rabes eram frequentemente poupadas. A dimens\u00e3o racial da viol\u00eancia atravessa, portanto, a dimens\u00e3o de g\u00eanero e ajuda a compreender a forma como determinados corpos foram escolhidos como alvo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al-Kharib destaca que o atual conflito no Sud\u00e3o \u00e9 resultado de d\u00e9cadas de viol\u00eancia, em especial contra mulheres, incluindo viol\u00eancia sexual, estupro e outras formas de viol\u00eancia de g\u00eanero. Ela diz que este contexto tem rela\u00e7\u00e3o com os protestos em massa liderados por mulheres e jovens, que come\u00e7aram em dezembro de 2018 e levaram \u00e0 queda de al-Bashir. \u201cEles foram, em parte, uma resposta direta \u00e0 forma como os corpos e as vozes das mulheres t\u00eam sido sistematicamente atacados h\u00e1 mais de 30 anos\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A organiza\u00e7\u00e3o M\u00e9dicos Sem Fronteiras registrou 3.396 sobreviventes de viol\u00eancia sexual atendidos entre janeiro de 2024 e novembro de 2025. No Darfur do Sul, 41 das pessoas atendidas tinham menos de cinco anos e, em 60% dos casos registrados nessa regi\u00e3o, havia mais de um agressor. O pr\u00f3prio relat\u00f3rio alerta para o fato de que a viol\u00eancia sexual n\u00e3o est\u00e1 confinada \u00e0s linhas de frente da guerra.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses dados s\u00e3o importantes para dimensionar o horror, embora exista algo que os n\u00fameros nunca consigam mostrar sozinhos. Uma estat\u00edstica n\u00e3o conta quem levou a sobrevivente para receber atendimento, quem encontrou um lugar onde ela pudesse dormir, quem levou comida para seus filhos, quem dividiu com ela os poucos recursos dispon\u00edveis, quem permaneceu ao seu lado quando as organiza\u00e7\u00f5es internacionais deixaram de chegar.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Darfur, muitas dessas tarefas est\u00e3o sendo assumidas pelas pr\u00f3prias comunidades.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>N\u00f3s por n\u00f3s<\/strong><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As <em>Emergency Response Rooms<\/em> (Salas de Resposta a Emerg\u00eancias, em tradu\u00e7\u00e3o livre) nasceram dos comit\u00eas de resist\u00eancia organizados nos bairros durante a revolu\u00e7\u00e3o sudanesa de 2019, quando milhares de pessoas ocuparam as ruas para derrubar Omar al-Bashir. As mulheres estavam entre as protagonistas daquele processo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Destaque: Quem n\u00e3o se lembra de Alaa Salah, a jovem que \u00e0 \u00e9poca, com 22 anos, subiu em um carro e, em meio a uma multid\u00e3o com milhares de mulheres, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/global-development\/2019\/apr\/10\/alaa-salah-sudanese-woman-talks-about-protest-photo-that-went-viral\">virou o s\u00edmbolo da revolu\u00e7\u00e3o naquele ano<\/a>?<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o in\u00edcio da guerra, essas estruturas passaram a organizar alimentos, atendimento, abrigo e outras formas de sobreviv\u00eancia. Segundo existem cerca de 26 mil volunt\u00e1rios ligados a essas redes em 18 estados sudaneses.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>As m\u00e3os que se organizam<\/strong><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 comum que a imprensa internacional descreva as Emergency Response Rooms como iniciativas locais de ajuda humanit\u00e1ria. A express\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 exatamente errada, mas deixa escapar a hist\u00f3ria de onde essas organiza\u00e7\u00f5es vieram e, principalmente, o car\u00e1ter pol\u00edtico daquilo que fazem.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elas s\u00e3o resultado de uma experi\u00eancia de mobiliza\u00e7\u00e3o popular que sobreviveu \u00e0 queda do governo de Bashir, atravessou a repress\u00e3o e encontrou novas formas de resistir durante a guerra. Mulheres e homens que haviam aprendido a organizar seus bairros para protestar passaram a organizar os mesmos territ\u00f3rios para garantir que as pessoas continuassem vivas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As Sala de Resposta a Emerg\u00eancias funcionam como redes comunit\u00e1rias criadas por volunt\u00e1rios locais que substituem a aus\u00eancia do Estado e de ajuda humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O poder de decis\u00e3o nessas salas \u00e9 totalmente horizontal e coletivo, onde os pr\u00f3prios moradores dividem as tarefas e resolvem os problemas di\u00e1rios com base em suas habilidades profissionais e necessidades imediatas da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para alimentar a popula\u00e7\u00e3o, o sistema utiliza cozinhas comunit\u00e1rias chamadas Takaaya, que se mant\u00eam ativas gra\u00e7as a negocia\u00e7\u00f5es diretas com comerciantes locais para cruzar linhas de frente e ao financiamento enviado por sudaneses no exterior, tudo impulsionado pelo Nafeer, um princ\u00edpio cultural de solidariedade m\u00fatua.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pesquisa realizada pela <a href=\"https:\/\/shabaka.org\/\">Sudan Crisis Coordination Unit<\/a>, ligada \u00e0 Shabaka \u2013 organiza\u00e7\u00e3o de pesquisas -, mapeou 28 dessas salas em sete estados e identificou que, em regi\u00f5es como Cartum, elas se tornaram atores fundamentais da resposta humanit\u00e1ria, articulando atendimento, encaminhamento para servi\u00e7os de sa\u00fade, distribui\u00e7\u00e3o de recursos e circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es. Essas redes n\u00e3o s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es formais e t\u00eam ra\u00edzes em uma longa tradi\u00e7\u00e3o sudanesa de ajuda m\u00fatua, como o nafeer, que tamb\u00e9m esteve presente em outras situa\u00e7\u00f5es de crise.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E essa \u00e9 uma experi\u00eancia que, apesar da dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, n\u00e3o nos parece t\u00e3o estranha.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ocupa\u00e7\u00f5es bem organizadas por movimentos sociais confrontam a falta de garantia de direitos para as pessoas que vivem nos territ\u00f3rios mais negligenciados. Quando falta creche, algu\u00e9m organiza o cuidado. Quando falta comida, algu\u00e9m mobiliza uma cesta b\u00e1sica. Quando uma fam\u00edlia perde sua casa, aparecem as vaquinhas, as cozinhas solid\u00e1rias, os movimentos, as igrejas, as associa\u00e7\u00f5es, os coletivos. Quando uma mulher sofre viol\u00eancia, outra mulher muitas vezes \u00e9 a primeira pessoa a oferecer abrigo, escuta ou companhia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma estrutura de desigualdade que empurra essas responsabilidades para quem j\u00e1 tem pouco. Existe tamb\u00e9m uma tradi\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o popular que faz com que essas pessoas construam, com as pr\u00f3prias m\u00e3os, mecanismos para enfrentar aquilo que deveria estar garantido como direito.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote\">\n<blockquote>\n<p><strong>As sudanesas fazem isso em uma escala brutal, dentro de um pa\u00eds atravessado pela guerra, pela fome, pelo deslocamento e pela viol\u00eancia armada.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E enfrentam ainda o desafio de sobreviver sem perder a possibilidade de participar das decis\u00f5es sobre o futuro do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria recente do Sud\u00e3o j\u00e1 mostrou essa contradi\u00e7\u00e3o. As mulheres estiveram nas ruas durante a revolu\u00e7\u00e3o de 2019, tiveram papel central na mobiliza\u00e7\u00e3o que derrubou Bashir e ajudaram a sustentar o movimento, embora tenham encontrado dificuldades para ocupar os espa\u00e7os de decis\u00e3o durante a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 exclusiva do Sud\u00e3o. Em muitos pa\u00edses africanos, norte-africanos e \u00e1rabes, durante guerras por liberta\u00e7\u00e3o contra a coloniza\u00e7\u00e3o, mulheres participaram da guerrilha, transportaram armas e mensagens, ajudaram na circula\u00e7\u00e3o de recursos e tamb\u00e9m sustentaram a luta a partir de suas casas. Muitas dessas hist\u00f3rias foram apagadas por uma narrativa que preferiu transformar algumas revolucion\u00e1rias em s\u00edmbolos e deixar na sombra a participa\u00e7\u00e3o cotidiana de milhares de outras mulheres.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez essa seja uma das maiores dificuldades quando falamos sobre mulheres em contextos de guerra. \u00c9 muito mais f\u00e1cil reconhec\u00ea-las quando est\u00e3o feridas, deslocadas ou submetidas \u00e0 viol\u00eancia. Quando elas aparecem organizando, decidindo, comunicando, cuidando e participando das disputas pol\u00edticas, a narrativa muda de lugar.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que, enquanto decidimos como contar essas hist\u00f3rias, elas seguem fazendo o trabalho.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As jornalistas de Nyala estavam discutindo direitos das mulheres quando foram presas. As integrantes das Emergency Response Rooms organizam alimentos e atendimento quando faltam recursos. As sobreviventes de viol\u00eancia sexual procuram atendimento e precisam reconstruir suas pr\u00f3prias vidas enquanto a guerra continua. Aquelas que vivem fora do Sud\u00e3o mobilizam campanhas, pressionam governos e tentam fazer com que a viol\u00eancia cometida contra seu povo n\u00e3o desapare\u00e7a completamente do debate internacional.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Niemat Ahmadi \u00e9 um desses exemplos. A ativista, refugiada nos Estados Unidos, \u00e9 presidente e fundadora do Grupo de A\u00e7\u00e3o das Mulheres de Darfur, resistindo \u00e0s viol\u00eancias cometidas em sua terra natal a partir de outro territ\u00f3rio. \u201cUm [caso] que me dilacerou o cora\u00e7\u00e3o e me chocou profundamente foi o de Noura, que sofreu um estupro coletivo aos 12 anos de idade, ficando em estado cr\u00edtico. Sua fam\u00edlia, lutando para sobreviver, teve que tomar uma decis\u00e3o imposs\u00edvel: buscar tratamento para ela ou alimentar seu irm\u00e3o mais novo. Ao ouvir isso, Noura olhou para cima em l\u00e1grimas e disse \u00e0 m\u00e3e que n\u00e3o queria mais viver. Essas s\u00e3o escolhas que nenhuma fam\u00edlia deveria ter que fazer e nenhuma crian\u00e7a deveria ter que suportar\u201d, relatou a ativista.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo das mulheres est\u00e1 entre os alvos da guerra, atravessado pelo racismo e pelas disputas territoriais, ao mesmo tempo em que as pr\u00f3prias mulheres constroem redes que garantem comida, cuidado, informa\u00e7\u00e3o e alguma possibilidade de prote\u00e7\u00e3o para suas comunidades. Essa contradi\u00e7\u00e3o revela muito sobre a perman\u00eancia de estruturas de domina\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m sobre a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o daqueles que vivem sob elas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um mundo no qual guerras continuam sendo decididas por homens armados e negociadas em salas distantes dos territ\u00f3rios afetados, olhar para as mulheres sudanesas significa tamb\u00e9m perguntar quem tem o direito de falar sobre paz, reconstru\u00e7\u00e3o e futuro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a resposta esteja justamente nas redes que elas constru\u00edram.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mulheres que cozinham, cuidam, informam, acolhem, denunciam e se organizam em Darfur est\u00e3o produzindo uma experi\u00eancia pol\u00edtica que deveria ser levada para as mesas onde se decide o futuro do Sud\u00e3o. A solidariedade internacional precisa alcan\u00e7ar esse lugar, reconhecendo essas mulheres como protagonistas e n\u00e3o apenas como destinat\u00e1rias de ajuda.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote\">\n<blockquote>\n<p><strong>As mulheres de Darfur n\u00e3o precisam apenas que contem suas hist\u00f3rias. Precisam que suas vozes sejam consideradas quando discutimos justi\u00e7a, paz, territ\u00f3rio, guerra e reconstru\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/figure>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em algum lugar do Sud\u00e3o, enquanto o mundo olha para os mapas, para os relat\u00f3rios e para as imagens dos campos de deslocados, h\u00e1 uma mulher preparando comida para outras pessoas, outra tentando conseguir medicamentos, outra transmitindo uma informa\u00e7\u00e3o, outra cuidando dos filhos de uma vizinha e outra tentando garantir que uma sobrevivente de viol\u00eancia sexual consiga atendimento.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o essas mulheres que mant\u00eam a vida de p\u00e9 enquanto tudo ao redor parece desabar. S\u00e3o suas redes que nasceram da resist\u00eancia popular e hoje mant\u00eam comunidades inteiras vivas.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/nosmulheresdaperiferia.org.br\/em-darfur-as-mulheres-sustentam-a-vida-enquanto-o-mundo-ignora-a-guerra\/\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 7 de setembro, cinco mulheres foram libertadas no Darfur do Sul, no Sud\u00e3o, depois de permanecerem mais de seis meses detidas pelas For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF), sem acusa\u00e7\u00e3o formal e sem terem passado por um tribunal. 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