{"id":29387,"date":"2026-09-09T11:08:00","date_gmt":"2026-09-09T14:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29387"},"modified":"2026-09-09T11:08:00","modified_gmt":"2026-09-09T14:08:00","slug":"mulheres-negras-transformam-memoria-em-acao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29387","title":{"rendered":"mulheres negras transformam mem\u00f3ria em a\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Populares de Sobradinho (DF), as batidas das matracas e o colorido dos fitados contam uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia. H\u00e1 d\u00e9cadas, o Boi do Seu Teodoro sobrevive entre a celebra\u00e7\u00e3o e a disputa: pelo territ\u00f3rio, por recursos, pelo direito de preservar uma mem\u00f3ria e pelo reconhecimento de quem ajuda a manter tudo isso de p\u00e9 \u2014 sobretudo mulheres negras.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que acontece quando uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural precisa lutar para continuar existindo? Para lideran\u00e7as como Tamatat\u00edua (Tam\u00e1) Rosa Freire Ferreira, coordenadora de Mem\u00f3ria; Jacy Freire, vice-presidente do Boi; e Dona Maria Sena Pereira Freire, vi\u00fava de Seu Teodoro, manter o Boi vivo requer enfrentar disputas imobili\u00e1rias, o preconceito de vizinhos e escolas locais e a instabilidade na capta\u00e7\u00e3o de recursos, mesmo sendo considerado patrim\u00f4nio cultural imaterial do DF desde 2004.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, em anos eleitorais, elas afirmam lidar com o oportunismo pol\u00edtico daqueles que usam as festas de agosto para angariar votos, cobrando emendas consistentes e fomento cont\u00ednuo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSe abrirmos a guarda, n\u00f3s perdemos\u201d, alerta a antrop\u00f3loga Cleidiana Ramos ao falar sobre as tens\u00f5es das manifesta\u00e7\u00f5es populares de popula\u00e7\u00f5es historicamente marginalizadas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Boi do Seu Teodoro, grupo composto por cerca de 15 fam\u00edlias, com um total de 60 brincantes, a frase de Cleidiana ganha corpo nas m\u00e3os das mulheres que, entre matracas, costuras, articula\u00e7\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es, sustentam um legado que atravessa gera\u00e7\u00f5es. Mas o que est\u00e1 realmente em jogo quando essas mulheres lutam para manter o Boi de p\u00e9?<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Incid\u00eancia pol\u00edtica e disputa de territ\u00f3rio<\/strong><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob a vice-presid\u00eancia de Jacy e a gest\u00e3o de Mem\u00f3ria de Tam\u00e1, o Boi amplia sua atua\u00e7\u00e3o para al\u00e9m das apresenta\u00e7\u00f5es. Projetos como o \u201cBumba Maria Meu Boi\u201d, pelo Instituto Rosa dos Ventos, e o programa \u201cMem\u00f3ria e Educa\u00e7\u00e3o\u201d, levam \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es conhecimentos sobre o patrim\u00f4nio cultural e recuperam o protagonismo das brincantes negras. O projeto Mem\u00f3ria e Educa\u00e7\u00e3o recebeu recursos de emenda parlamentar para uma edi\u00e7\u00e3o voltada a escolas da rede p\u00fablica do Distrito Federal.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atua\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as, no entanto, esbarra em quest\u00f5es que ultrapassam os limites do Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Populares. Para manter as atividades, o grupo precisa garantir recursos e, sobretudo, o direito de permanecer no territ\u00f3rio onde construiu sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A disputa pela terra em Sobradinho, Regi\u00e3o Administrativa do Distrito Federal com cerca de 72.273 habitantes, se arrasta desde a d\u00e9cada de 1970 e envolve diferentes epis\u00f3dios, segundo as lideran\u00e7as do Boi, um monitoramento n\u00e3o autorizado por agentes p\u00fablicos em 2018. Hoje, a principal reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9 a escritura definitiva da \u00e1rea, em meio \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es com a Companhia Imobili\u00e1ria de Bras\u00edlia, Terracap, empresa p\u00fablica com participa\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o e do Distrito Federal.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Populares, funciona sob uma \u201ccess\u00e3o de direito\u201d tempor\u00e1ria, afirma Tamatat\u00edua:<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c9 porque aqui na verdade \u00e9 s\u00f3 uma cess\u00e3o, n\u00e9, de direito, ent\u00e3o continua. Quando t\u00e1 para acabar tem que correr para [renovar]\u2026 porque \u00e9 um terreno muito visado, isso desde o tempo do meu pai l\u00e1 atr\u00e1s. Mas \u00e9 lutar para acabar e garantir o territ\u00f3rio de vez.\u201d<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tam\u00e1 ainda relata que, no momento, eles est\u00e3o amparados pelo tempo de ocupa\u00e7\u00e3o e pela relev\u00e2ncia do trabalho que realizam, e que existe um processo ativo correndo para tentar regularizar a posse.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Instabilidade financeira<\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inseguran\u00e7a territorial se soma \u00e0s dificuldades para acessar recursos p\u00fablicos. O grupo depende de editais e da articula\u00e7\u00e3o de emendas parlamentares, mas a burocracia e a demora no empenho das verbas dificultam o planejamento das festas, oficinas e demais atividades.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo s\u00e3o os recentes percal\u00e7os que v\u00eam ocorrendo com o Fundo de Apoio \u00e0 Cultura (FAC-DF) \u2014 recurso j\u00e1 utilizado pelo grupo anteriormente \u2014, incluindo os atrasos do Governo do Distrito Federal nos repasses de projetos aprovados no fim de 2025 e a atual suspens\u00e3o do Edital n\u00ba 06\/2026 \u2013 FAC I\/2026.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em publica\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio Oficial, no dia 19 de agosto, a Secretaria de Cultura justificou a suspens\u00e3o pela falta de recursos para a contrata\u00e7\u00e3o da banca examinadora, cujo custo estimado \u00e9 de R$ 992,7 mil.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No valor de R$ 36 milh\u00f5es, o <a href=\"https:\/\/sufic.cultura.df.gov.br\/edital-fac-i\/2026\">edital<\/a> lan\u00e7ado em abril deste ano selecionaria projetos e repassaria apoio financeiro para a realiza\u00e7\u00e3o de trabalhos como artes pl\u00e1sticas e visuais, artesanato, cultura hip hop e arte urbana, cultura popular, dan\u00e7a, design e moda, m\u00fasica, teatro, gastronomia, produ\u00e7\u00e3o cultural e patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e art\u00edstico.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para as lideran\u00e7as do Boi, a instabilidade no financiamento exp\u00f5e o quanto a continuidade de iniciativas culturais pode depender das prioridades de cada governo. Em ano eleitoral, essa experi\u00eancia pesa na avalia\u00e7\u00e3o dos candidatos: mais do que promessas durante as festas de agosto, elas cobram fomento cont\u00ednuo, recursos p\u00fablicos e a garantia definitiva do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o surge \u00e0 margem da hist\u00f3ria do Boi. Ela \u00e9 resultado de uma transforma\u00e7\u00e3o que aconteceu dentro do pr\u00f3prio cord\u00e3o: \u00e0 medida que as mulheres negras conquistaram espa\u00e7o na brincadeira, tamb\u00e9m passaram a ocupar lugares de organiza\u00e7\u00e3o, decis\u00e3o e defesa do grupo. Para entender quem s\u00e3o essas mulheres e o que sustenta sua atua\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso voltar ao lugar que elas historicamente ocuparam dentro do Boi.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quem \u00e9 a mulher negra no Bumba?<\/strong><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A evolu\u00e7\u00e3o feminina no Boi \u00e9 uma hist\u00f3ria de transforma\u00e7\u00e3o. Se no antigo Boi de Zabumba \u2014 tipo de \u201csotaque\u201d tocado no in\u00edcio da trajet\u00f3ria do Boi de Seu Teodoro \u2014 o espa\u00e7o era majoritariamente dos homens, na transi\u00e7\u00e3o para o Boi da Baixada \u2014 sotaque atual \u2014 as mulheres conquistaram o poder n\u00e3o s\u00f3 de brincar, como de escolher sua fun\u00e7\u00e3o no cord\u00e3o, afirma Tam\u00e1 Freire.<\/p>\n<p>Quando o Boi do Seu Teodoro finca suas bases em Sobradinho (DF), as mulheres, em sua maioria negras, j\u00e1 estavam l\u00e1, mas sob um manto de invisibilidade que encobria a extens\u00e3o de seu trabalho. M\u00e3os que sustentavam o cotidiano, elas costuravam as indument\u00e1rias, preparavam as refei\u00e7\u00f5es coletivas, cuidavam da manuten\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e erguiam os altares.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua presen\u00e7a, embora vital, n\u00e3o era percebida como marcante nos registros midi\u00e1ticos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEles n\u00e3o reconhecem que a mulher tamb\u00e9m pode fazer isso\u201d, observa Tam\u00e1, ao refletir sobre as barreiras que ainda persistem, especialmente no canto e na composi\u00e7\u00e3o de toadas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um processo de cont\u00e1gio e acolhimento, essas barreiras v\u00e3o sendo quebradas: \u00e0 medida que uma mulher vencia o receio e entrava na brincadeira, puxava outra, e assim ia transformando aos poucos o cord\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo \u00e9 Maria da Natividade Pinheiro Santos, \u201cdona de casa\u201d de 65 anos. Ela veio do Maranh\u00e3o para Bras\u00edlia aos 16, trazendo a heran\u00e7a de seus pais, que j\u00e1 faziam parte de grupos de Bumba Meu Boi e Tambor de Crioula em sua terra natal. No entanto, s\u00f3 aos 26 anos ela descobriu o quintal de Seu Teodoro em Sobradinho.<\/p>\n<div class=\"nos-galeria position-relative my-5\">\n<div class=\"d-flex\">\n<div class=\"gal-ajuste mt-3 mt-md-0\">\n<p class=\"titulo m-0 text-uppercase mb-2\">GALERIA <span class=\"here\">1<\/span>\/1<\/p>\n<div class=\"nos-galeria__slider\">\n<div class=\"slide\">\n<div class=\"text-center\">\n                                <picture><\/picture>\n                            <\/div>\n<div class=\"legenda-credito mt-2\">\n<p class=\"m-0\">Maria da Natividade\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span>\u00a9 Luiz Filipe Reis<\/span>                                    <\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cUma amiga minha me apresentou. \u2018Ah, vai l\u00e1 no do Boi do Seu Teodoro, s\u00f3 tem maranhense.\u2019 At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o conhecia, n\u00e9? A\u00ed eu vim, fui muito bem recebida, muito bem acolhida. E aqui eu estou h\u00e1 37 anos.\u201d<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ela, o barrac\u00e3o \u00e9 um peda\u00e7o vivo de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, uma ponte de afeto que liga a ela \u00e0 sua terra natal:<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c9 onde a gente revive as nossas ra\u00edzes, o Maranh\u00e3o. Eu me sinto muito bem. (\u2026) Me sinto aqui como se eu tivesse no Maranh\u00e3o. Quando a gente t\u00e1 brincando, a gente relembra tudo. Ent\u00e3o, para mim significa tudo. Uma alegria, um prazer imenso fazer parte desse grupo.\u201d<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tam\u00e1 Freire, guardi\u00e3 da Mem\u00f3ria do Boi<\/strong><\/h2>\n<div class=\"nos-galeria position-relative my-5\">\n<div class=\"d-flex\">\n<div class=\"gal-ajuste mt-3 mt-md-0\">\n<p class=\"titulo m-0 text-uppercase mb-2\">GALERIA <span class=\"here\">1<\/span>\/2<\/p>\n<div class=\"nos-galeria__slider\">\n<div class=\"slide\">\n<div class=\"text-center\">\n                                <picture><\/picture>\n                            <\/div>\n<\/div>\n<div class=\"slide\">\n<div class=\"text-center\">\n                                <picture><\/picture>\n                            <\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse movimento de retomada e autodescoberta \u00e9 explicitado quando Tam\u00e1, educadora, historiadora, cantora, compositora de toadas e coordenadora de Mem\u00f3ria do Boi de Seu Teodoro, decide levar a viv\u00eancia do barrac\u00e3o para as salas de aula da Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Cultural, a mestra apresentou a monografia intitulada \u201cEntre linhas, matracas e ladainhas \u2014 As Marias do Boi de Teodoro\u201d. A pesquisa nasce da urg\u00eancia de dar visibilidade a quem sempre manteve a tradi\u00e7\u00e3o de p\u00e9, mas nas sombras.<\/p>\n<blockquote class=\"\">\n<p>\u201cQuis mostrar o protagonismo delas, que elas existiam, elas n\u00e3o eram invis\u00edveis. Elas estavam sendo invisibilizadas, mas elas n\u00e3o eram invis\u00edveis.\u201d<\/p>\n<p class=\"assina m-0\">Tamatat\u00edua Freire<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como resultado, o <a href=\"https:\/\/rosadosventosinstituto.com.br\/\">Instituto Rosa dos Ventos<\/a> convidou Tam\u00e1 para idealizar e coordenar um projeto composto exclusivamente por mulheres: o Bumba Maria Meu Boi.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atuando como diretora art\u00edstica, Tam\u00e1 liderou um processo em que as mulheres negras assumiram o comando absoluto de cada etapa \u2014 desde a cantoria e a percuss\u00e3o dos pandeiros at\u00e9 a gest\u00e3o administrativa e oficinas de bordado, onde cada brincante bordou, com as pr\u00f3prias m\u00e3os, a frente dos chap\u00e9us usados na festividade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Tam\u00e1, hoje aos 60 anos de idade, ocupar esses postos \u00e9 subverter a invisibilidade atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, pol\u00edtica e sonora da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Jacy Freire, a lideran\u00e7a silenciosa que sustenta o barrac\u00e3o<\/strong><br \/><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a frente de mem\u00f3ria do Boi do Seu Teodoro muitas vezes ganha as telas e os palcos pelas vozes de Tam\u00e1, existe outra for\u00e7a \u2014 avessa aos holofotes \u2014 que opera nos bastidores.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jacy Freire, servidora p\u00fablica de 58 anos, e tamb\u00e9m filha do fundador, carrega a responsabilidade de ser a vice-presidente do Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Populares.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em parceria com seu irm\u00e3o, Guarapiranga (o Guar\u00e1) \u2014 que assume a linha de frente institucional, correndo atr\u00e1s de editais e buscando emendas parlamentares \u2014 nenhuma decis\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 tomada de forma isolada. \u00c9 na mesa da diretoria, sob o olhar de Jacy, que os rumos administrativos do grupo s\u00e3o definidos.<\/p>\n<blockquote class=\"\">\n<p>\u201cEle sempre vem conversar comigo e com a diretoria\u2026 ele n\u00e3o faz sozinho. Sempre procura minha opini\u00e3o e eu questiono: \u2018ser\u00e1 que para esse caminho t\u00e1 legal?&#8217;\u201d<\/p>\n<p class=\"assina m-0\">Jacy Freire<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua atua\u00e7\u00e3o desmistifica a ideia de que a gest\u00e3o do patrim\u00f4nio imaterial \u00e9 uma tarefa exclusivamente masculina.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Jacy, a ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de lideran\u00e7a por mulheres negras \u00e9 um ato de incid\u00eancia pol\u00edtica e garantia de direitos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por meio desse espa\u00e7o administrativo que elas conseguem gerenciar as pessoas de forma humanizada, acolhendo desde as crian\u00e7as at\u00e9 os brincantes idosos, que encontram ali um territ\u00f3rio de lazer muitas vezes negado pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao assumir a vice-presid\u00eancia, Jacy n\u00e3o apenas d\u00e1 continuidade a esse legado de acolhimento, respeito e resist\u00eancia cultural, mas o eleva a um patamar de lideran\u00e7a comunit\u00e1ria.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O bumba meu boi e a migra\u00e7\u00e3o cultural<\/strong><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O bumba meu boi \u00e9 uma das manifesta\u00e7\u00f5es mais ricas da cultura popular brasileira, fundindo m\u00fasica, dan\u00e7a, teatro e lendas de matrizes diversas. O Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranh\u00e3o foi reconhecido pela Unesco como Patrim\u00f4nio Cultural Imaterial da Humanidade em 2019. O auto narra a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de um boi enfeitado.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Maranh\u00e3o, a manifesta\u00e7\u00e3o ganha diferentes sotaques, como matraca, zabumba e baixada, marcados por ritmos, instrumentos e formas pr\u00f3prias de dan\u00e7ar. Com os fluxos migrat\u00f3rios, o Boi atravessou o pa\u00eds, levando hist\u00f3rias, saberes e identidade para novos territ\u00f3rios. Foi assim com Seu Teodoro, que chegou a Bras\u00edlia em 1961 para apresentar o bumba meu boi no primeiro anivers\u00e1rio da capital e, no ano seguinte, mudou-se definitivamente para a cidade. Em 1963, criou em Sobradinho o Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Populares que levaria seu nome.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob a sombra do golpe de 1964, o Boi se tornou uma rede de acolhimento: Teodoro buscava conterr\u00e2neos na Rodovi\u00e1ria do Plano Piloto, oferecendo-lhes n\u00e3o apenas abrigo, mas pertencimento e a esperan\u00e7a de um futuro melhor.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa caminhada, Teodoro n\u00e3o andava s\u00f3. Sua companheira, Dona Maria, hoje com 93 anos e servidora p\u00fablica aposentada, era a fortaleza que sustentava o projeto e o impedia de ruir diante do preconceito e das press\u00f5es urbanas da capital.<\/p>\n<div class=\"nos-galeria position-relative my-5\">\n<div class=\"d-flex\">\n<div class=\"gal-ajuste mt-3 mt-md-0\">\n<p class=\"titulo m-0 text-uppercase mb-2\">GALERIA <span class=\"here\">1<\/span>\/1<\/p>\n<div class=\"nos-galeria__slider\">\n<div class=\"slide\">\n<div class=\"text-center\">\n                                <picture><\/picture>\n                            <\/div>\n<div class=\"legenda-credito mt-2\">\n<p class=\"m-0\">Dona Maria\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span>\u00a9 Luiz Filipe Reis<\/span>                                    <\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a morte do mestre em 2012, o tom da toada mudou, revelando que a retaguarda n\u00e3o s\u00f3 j\u00e1 era feita por m\u00e3os femininas, como tamb\u00e9m seria sustentada por suas filhas Tamatat\u00edua e Jacy, com a ajuda da presid\u00eancia do irm\u00e3o Guar\u00e1.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mem\u00f3ria e continuidade<\/strong><\/h2>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O amanh\u00e3 do terreiro \u00e9 projetado pelas irm\u00e3s atrav\u00e9s de sonhos que se complementam entre a organiza\u00e7\u00e3o e a perman\u00eancia afetiva.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a vice-presidente, a continuidade do Boi \u00e9 uma promessa de vida e de honra \u00e0 mem\u00f3ria do pai, indissoci\u00e1vel do papel de acolhimento social do barrac\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO intuito \u00e9 esse: \u00e9 n\u00e3o acabar o trabalho, porque outras gera\u00e7\u00f5es vir\u00e3o e a luta tamb\u00e9m \u00e9 por isso. Sim, porque igual meu pai falava: \u2018para n\u00e3o deixar acabar\u2019. Continua, que \u00e9 uma coisa muito importante e que vai ajudar as pessoas em todo sentido da vida. A cultura ela precisa do apoio. Eu acho que aqui \u00e9 um lugar de apoio, sim, para todo mundo. Tanto para quem t\u00e1 dando a cultura, quanto para quem t\u00e1 recebendo, quem t\u00e1 brincando.\u201d<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 Tam\u00e1 faz quest\u00e3o de frisar que o espa\u00e7o conquistado pelas mulheres negras na cultura n\u00e3o aceita mais retrocessos: \u201cAs mulheres, cada dia elas est\u00e3o chegando. Ent\u00e3o, precisa ter essa voz. Ser essa voz n\u00e3o s\u00f3 de ser comandada, mas de estar no comando. E para essa menina negra que hoje sonha em continuar nosso trabalho, eu digo: voc\u00ea para estar aqui, voc\u00ea tem que se disponibilizar para aprender. Ent\u00e3o \u00e9 isso que eu falo: n\u00e3o desista.\u201d<strong> <\/strong>.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a doutora em antropologia Cleidiana Ramos, as manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais de matriz africana e ind\u00edgena n\u00e3o s\u00e3o meras distra\u00e7\u00f5es l\u00fadicas, mas formas sofisticadas de resist\u00eancia pol\u00edtica e cultural constru\u00eddas pelo povo brasileiro ao longo de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela explica que sufocar esses territ\u00f3rios \u00e9 uma tentativa de silenciar a mem\u00f3ria coletiva:<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA festa \u00e9 o campo de maior cria\u00e7\u00e3o e de maior tensionamento que as popula\u00e7\u00f5es brasileiras tiveram. Ela \u00e9 um espa\u00e7o de mem\u00f3ria de como as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, negras, ciganas \u2014 esses grupos colocados em posi\u00e7\u00f5es subalternizadas pelas classes dominantes \u2014 criaram a verdadeira cultura nacional\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o Boi de Teodoro deixasse de existir\u2026 \u201cPerde tudo\u201d, resume de forma cortante a vice-presidente Jacy Freire.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o legado que essas mulheres deixam garante que elas n\u00e3o sejam apenas afetadas pelo contexto social, mas agentes de sua pr\u00f3pria narrativa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Boi de Seu Teodoro se mant\u00e9m de p\u00e9 pelas m\u00e3os dessas guardi\u00e3s que fazem da mem\u00f3ria um sonho vivo, constru\u00eddo em uma longa travessia do Maranh\u00e3o at\u00e9 o solo candango.<\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/nosmulheresdaperiferia.org.br\/as-guardias-do-boi-mulheres-negras-transformam-memoria-em-acao-politica\/\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Populares de Sobradinho (DF), as batidas das matracas e o colorido dos fitados contam uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia. 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