{"id":29349,"date":"2026-06-08T18:23:42","date_gmt":"2026-06-08T21:23:42","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29349"},"modified":"2026-06-08T18:23:42","modified_gmt":"2026-06-08T21:23:42","slug":"o-desafio-de-criar-filhos-em-um-mundo-que-nao-foi-desenhado-para-maes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29349","title":{"rendered":"O desafio de criar filhos em um mundo que n\u00e3o foi desenhado para m\u00e3es"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p>Autistas s\u00e3o mais afetadas por ansiedade, depress\u00e3o e transtornos alimentares, e t\u00eam maior propens\u00e3o a sofrimento psicol\u00f3gico. Quando essa mulher tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e, fica ainda mais dif\u00edcil. No Brasil, segundo dados do MAB (Mapa Autismo Brasil), 92,4% do cuidado de pessoas autistas est\u00e1 sob responsabilidade feminina.<\/p>\n<p>Essa sobrecarga \u00e9 agravada pela vulnerabilidade econ\u00f4mica. O que os dados n\u00e3o mostram \u00e9 que tem m\u00e3e que tamb\u00e9m est\u00e1 no espectro, que cuida de outro enquanto tenta se cuidar, que n\u00e3o tem rede, muitas vezes n\u00e3o tem diagn\u00f3stico e tenta sobreviver diariamente.<\/p>\n<p>A maternidade j\u00e1 vem carregada de romantiza\u00e7\u00e3o da ideia de que amor basta, a tal fal\u00e1cia do \u201cinstinto materno\u201d fala mais alto, ou uma \u201cboa m\u00e3e\u201d \u00e9 aquela que nunca erra, est\u00e1 sempre dispon\u00edvel e sabe exatamente o que fazer em cada momento.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 totalmente irreal para qualquer m\u00e3e, mas, para mulheres autistas, especialmente as com diagn\u00f3stico tardio, esse discurso \u00e9 irreal e cruel. Isso porque voc\u00ea passa anos achando que o problema \u00e9 voc\u00ea, que falta alguma coisa, que as outras m\u00e3es sabem algum tipo de segredo, que voc\u00ea \u00e9 a \u00fanica errada e que as outras maternidades s\u00e3o mais amorosas e acolhedoras que a sua.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Solid\u00e3o da m\u00e3e neurodivergente<\/h2>\n<p>\u00c9 raro a gente ouvir falar da m\u00e3e que precisa de previsibilidade, que se sobrecarrega com o barulho, a mudan\u00e7a de rotina e a demanda emocional que vem junto com um filho. No fim do dia, chegou no limite porque esteve presente de um jeito que custa muito mais do que as pessoas ao redor conseguem enxergar.<\/p>\n<p>Quando essa mulher tenta falar sobre o que sente, o esgotamento, a dificuldade de regular as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es enquanto lida com as emo\u00e7\u00f5es de um filho, frequentemente n\u00e3o encontra eco. O que ela descreve n\u00e3o cabe nas narrativas dispon\u00edveis sobre maternidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe ainda uma conversa ampla sobre m\u00e3es que tamb\u00e9m s\u00e3o neurodivergentes, e o que significa criar um filho quando voc\u00ea ainda est\u00e1 aprendendo a se entender, como \u00e9 n\u00e3o ter um modelo, uma refer\u00eancia, n\u00e3o ter ningu\u00e9m que olhe para voc\u00ea e diga: \u201cEu tamb\u00e9m sou assim, e estou aqui\u201d. Essa aus\u00eancia n\u00e3o \u00e9 pequena e pesa no dia a dia, nas decis\u00f5es e na forma como essas mulheres se avaliam como m\u00e3es.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diagn\u00f3stico tardio<\/h2>\n<p>Receber um diagn\u00f3stico tardio muda muita coisa, eu recebi o meu em 2023, quando meu filho estava com 13 anos, na pr\u00e9-adolesc\u00eancia, mas n\u00e3o apaga os anos em que vivi e o criei sem saber por que certas coisas custavam tanto. Eu tinha e ainda tenho demandas que n\u00e3o entendia o motivo. Me julguei in\u00fameras vezes por precisar de sil\u00eancio, de ficar sozinha em crise, de chorar no banheiro enquanto me balan\u00e7ava pra me regular, de ficar no meu hiperfoco sem conseguir ao menos levantar, entre outras coisas.<\/p>\n<p>Apesar de ter tido o diagn\u00f3stico, infelizmente ele n\u00e3o me devolveu o que n\u00e3o tive a rede de apoio que nunca existiu. Tamb\u00e9m n\u00e3o explica para ningu\u00e9m ao redor por que eu funcionava diferente quando me julgavam por alguma atitude com o meu filho. O diagn\u00f3stico d\u00e1 nome, explica o motivo, mas n\u00e3o resolve a solid\u00e3o de ter chegado at\u00e9 aqui sem nenhum mapa e com muitas cicatrizes.<\/p>\n<p>A maternidade tem uma imagem muito espec\u00edfica, constru\u00edda socialmente, e essa imagem raramente inclui uma mulher que precisa de diversas adapta\u00e7\u00f5es di\u00e1rias que outras m\u00e3es n\u00e3o precisam, mesmo estando sobrecarregadas, que tem dificuldade com contato f\u00edsico em certos momentos, que processa as emo\u00e7\u00f5es de um jeito diferente do que as pessoas ao redor consideram \u201cnormal\u201d.<\/p>\n<p>A sua forma de se mover no mundo, de reagir, de demonstrar afeto, n\u00e3o corresponde ao que se espera de uma m\u00e3e. E a\u00ed vem o preconceito mais cruel a ideia de que mulheres autistas n\u00e3o amam seus filhos da forma certa, ou que n\u00e3o amam de verdade. Para m\u00e3es autistas, especialmente as perif\u00e9ricas, pode ser algo muito mais urgente, porque n\u00e3o ter apoio, n\u00e3o se reconhecer nas narrativas que existem e n\u00e3o encontrar nem mesmo um espelho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 solid\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Camuflar o que sente para caber <\/h2>\n<p>Existe um conceito que quem est\u00e1 no espectro conhece bem: o <em>masking<\/em>, que nada mais \u00e9 do que o processo de camuflar quem voc\u00ea \u00e9 para parecer mais aceit\u00e1vel socialmente, como: imitar comportamentos, controlar rea\u00e7\u00f5es, tentar \u201cbloquear\u201d o que \u00e9 natural no nosso corpo para n\u00e3o causar estranhamento nas pessoas ao redor. Mulheres autistas fazem isso desde crian\u00e7as, porque a press\u00e3o social \u00e9 muito maior, e porque os crit\u00e9rios de diagn\u00f3stico foram constru\u00eddos com base no autismo masculino, nos deixando invis\u00edveis por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o <em>masking<\/em> tem um custo consome energia que n\u00e3o volta, e, quando voc\u00ea \u00e9 m\u00e3e, essa energia j\u00e1 est\u00e1 sendo disputada por mil outras coisas ao mesmo tempo, a demanda emocional de um filho, a gest\u00e3o da casa, o trabalho, a aus\u00eancia de rede de apoio e a necessidade de sobreviver num sistema cruel e racista. M\u00e3es autistas muitas vezes chegam ao fim do dia em <a href=\"https:\/\/www.amafv.org.br\/post\/crise-no-autismo-o-que-%C3%A9-meltdown-e-shutdown-e-por-que-n%C3%A3o-s%C3%A3o-birras?gad_source=1&amp;gad_campaignid=22616057933&amp;gbraid=0AAAAA_oL7Qa2KZir9MIuCVgNmwQhzI1Jq&amp;gclid=CjwKCAjwxITRBhBYEiwA6mZm7SjQdW5tdxGM_lg0MZprf-s2adUFvm-xJ16NBjXw2zRdrhuILu0MuBoCy2kQAvD_BwE\"><em>Shutdown<\/em> ou <em>Meltdown<\/em><\/a>, porque passaram horas sendo algu\u00e9m que n\u00e3o s\u00e3o, em todos os espa\u00e7os que ocuparam. E, apesar de parecermos aquela que as pessoas acham que \u201cnem parece autista\u201d, no fim do dia, o nosso corpo pesa tanto que \u00e9 dif\u00edcil tentar reagir a n\u00f3s mesmas.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Onde encontrar acolhimento?<\/h2>\n<p>A real \u00e9 que uma m\u00e3e autista n\u00e3o deixa de amar o filho por ser quem \u00e9, esse amor s\u00f3 n\u00e3o cabe nos formatos que foram definidos pela sociedade sobre o que \u00e9 ser uma boa m\u00e3e. O amor pode se mostrar em diversas a\u00e7\u00f5es, como: organizar o mundo do filho para que ele sofra menos, fazer o doce preferido dele, ir a lugares que ele gosta, pesquisar, antecipar, proteger de formas que nem sempre s\u00e3o vis\u00edveis, mas que s\u00e3o inteiras.<\/p>\n<p>Segundo o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da USP, cerca de 80% das mulheres com autismo chegam aos 18 anos sem diagn\u00f3stico. A idade m\u00e9dia de diagn\u00f3stico para mulheres \u00e9 de 14 anos, enquanto para homens \u00e9 de 7, e um ter\u00e7o das mulheres s\u00f3 recebe o diagn\u00f3stico depois dos 20 anos, realidade de menos de 10% dos homens. Isso significa que muitas dessas mulheres j\u00e1 s\u00e3o m\u00e3es quando finalmente entendem quem s\u00e3o.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 uma m\u00e3e autista lendo isso, o que voc\u00ea sente tem nome. Durante anos, talvez voc\u00ea tenha achado que o problema era voc\u00ea, mas o que pesa n\u00e3o \u00e9 quem voc\u00ea \u00e9, mas o peso de um sistema que nunca foi pensado para acolher quem funciona diferente. Nomear isso j\u00e1 \u00e9 resist\u00eancia. Criar filhos sendo quem voc\u00ea \u00e9, sem pedir desculpa por isso, tamb\u00e9m.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/o-desafio-de-criar-filhos-em-um-mundo-que-nao-foi-desenhado-para-maes-autistas\/\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autistas s\u00e3o mais afetadas por ansiedade, depress\u00e3o e transtornos alimentares, e t\u00eam maior propens\u00e3o a sofrimento psicol\u00f3gico. Quando essa mulher tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e, fica ainda mais dif\u00edcil. No Brasil, segundo dados do MAB (Mapa Autismo Brasil), 92,4% do cuidado de pessoas autistas est\u00e1 sob responsabilidade feminina. Essa sobrecarga \u00e9 agravada pela vulnerabilidade econ\u00f4mica. O que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":29350,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-29349","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-news"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=29349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29349\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/29350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=29349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=29349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=29349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}