{"id":29345,"date":"2026-05-28T16:14:04","date_gmt":"2026-05-28T19:14:04","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29345"},"modified":"2026-05-28T16:14:04","modified_gmt":"2026-05-28T19:14:04","slug":"cobertura-vacinal-abaixo-da-meta-expoe-criancas-yanomami-a-coqueluche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29345","title":{"rendered":"Cobertura vacinal abaixo da meta exp\u00f5e crian\u00e7as Yanomami \u00e0 coqueluche"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p>Laura Yanomami chegou ao hospital no dia 6 de mar\u00e7o com a filha de quatro meses no colo. Desde ent\u00e3o, a rotina virou espera e ang\u00fastia. Por semanas, ela voltava sozinha para a Casa de Apoio \u00e0 Sa\u00fade Ind\u00edgena (Casai), enquanto a beb\u00ea permanecia internada.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a foi retirada da comunidade Hewetheu, na regi\u00e3o de Surucucu, em Alto Alegre (RR), em estado grave. Veio de \u201cburu\u201d (como os Yanomami chamam o helic\u00f3ptero) direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com complica\u00e7\u00f5es provocadas pela coqueluche.<\/p>\n<div class=\"post-image my-5 mx-auto mw-100\">\n            <picture><source media=\"(max-width: 799px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA.jpg\"><source media=\"(min-width: 800px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA.jpg\"><\/source><\/source><\/picture>\n<\/div>\n<p>A conversa com Laura atravessa a l\u00edngua. \u00c9 mediada por tradu\u00e7\u00e3o, pausas e sil\u00eancios. \u201cEla est\u00e1 internada h\u00e1 tr\u00eas semanas. Est\u00e1 no oxig\u00eanio e recebendo alimento pela sonda\u201d, explica. A conversa, realizada quando Laura e a filha estavam no hospital h\u00e1 dois meses atr\u00e1s, foi intermediada por um tradutor. Na etnia Yanomami, em geral, apenas as lideran\u00e7as e membros da aldeia que atuam nos servi\u00e7os de sa\u00fade falam portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Quando fala, Laura evita encarar por muito tempo. A resposta vem curta, carregada. \u201cEla diz que tem medo de perder a filha, como aconteceu com outras mulheres da regi\u00e3o. Diz que est\u00e1 triste\u201d, informa por meio da tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A beb\u00ea de Laura n\u00e3o tinha nome at\u00e9 ser internada \u2013 entre os Yanomami, esse \u00e9 um processo que pode levar tempo. No Hospital da Crian\u00e7a Santo Ant\u00f4nio, em Boa Vista (RR), ela n\u00e3o era a \u00fanica. Havia pelo menos outro caso confirmado de coqueluche entre crian\u00e7as ind\u00edgenas na unidade, que concentra atendimentos de urg\u00eancia e emerg\u00eancia na regi\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desafios e subnotifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>Dados da Secretaria Municipal de Sa\u00fade indicam que, entre janeiro e o fim de mar\u00e7o de 2026, foram confirmados 25 casos da doen\u00e7a no estado. Desses, 21 atingiram os ind\u00edgenas. Tr\u00eas crian\u00e7as morreram.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as que foram as primeiras v\u00edtimas da coqueluche receberam atendimento no Polo Base de Surucucu e, de l\u00e1, foram encaminhadas ao Hospital da Crian\u00e7a em Boa Vista.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o municipal afirma que o n\u00famero de entradas \u201cestabilizou\u201d no per\u00edodo. Nos bastidores, profissionais de sa\u00fade relatam preocupa\u00e7\u00e3o com a subnotifica\u00e7\u00e3o e com a dificuldade de acesso \u00e0s comunidades mais isoladas.<\/p>\n<div class=\"post-image my-5 mx-auto mw-100\">\n            <picture><source media=\"(max-width: 799px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-I.jpg\"><source media=\"(min-width: 800px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-I.jpg\"><\/source><\/source><\/picture>\n<\/div>\n<p>A filha de Laura sobreviveu \u00e0 fase mais cr\u00edtica. Ap\u00f3s dias na UTI e passagem pela semi-intensiva, deixou o quadro de insufici\u00eancia respirat\u00f3ria aguda grave. \u201cEla evoluiu bem\u201d, disse uma fonte ouvida pela reportagem. No in\u00edcio de abril, m\u00e3e e filha voltaram a ficar juntas na Casai e depois retornaram para a comunidade.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a que vitimou o beb\u00ea yanomami \u00e9 uma das que entram pelas frestas deixadas pela imuniza\u00e7\u00e3o abaixo do ideal persistente na Terra Ind\u00edgena Yanomami (TIY). A reportagem do N\u00f3s obteve junto ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade dados sobre o atual cen\u00e1rio de cobertura vacinal no territ\u00f3rio. O \u00f3rg\u00e3o afirma que houve investimento ap\u00f3s a crise humanit\u00e1ria deflagrada em 2023.<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio, a cobertura do esquema vacinal completo, que conta com as doses previstas no calend\u00e1rio nacional, entre menores de 1 ano, passou de 32,2%, em 2023, para 57,8%, em 2025. J\u00e1 entre os menores de 5 anos, o indicador evoluiu de 53,3% para 73,5% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Entre as crian\u00e7as, a cobertura para as vacinas pentavalente e tr\u00edplice bacteriana (DTP) passou de 58,5% em 2024 para 76,1% em 2025. Esses imunizantes ampliam a prote\u00e7\u00e3o contra doen\u00e7as como a coqueluche nos primeiros meses de vida. Ainda segundo o Minist\u00e9rio, o n\u00famero geral de atendimentos cresceu 72,6% e os \u00f3bitos foram reduzidos em 27,6% no primeiro semestre de 2025.<\/p>\n<p>A diretora de Pol\u00edticas P\u00fablicas da Funda\u00e7\u00e3o Maria Cec\u00edlia Souto Vidigal, organiza\u00e7\u00e3o que atua na promo\u00e7\u00e3o dos direitos da primeira inf\u00e2ncia, Marina Fragata, analisa que \u201capesar do crescimento, \u00e9 importante destacar que a vacina\u00e7\u00e3o no Territ\u00f3rio Yanomami de 76,1% ainda \u00e9 inferior \u00e0 m\u00e9dia de 87,69% da popula\u00e7\u00e3o de menores de um ano no pa\u00eds, e que ambos os indicadores est\u00e3o abaixo da meta de 95% de cobertura\u201d, pondera.<\/p>\n<p>A diretriz da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), seguida pelo Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o (PNI), \u00e9 de que se deve atingir a meta de 95% de cobertura vacinal para assegurar o controle de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Focando no percentual de crian\u00e7as menores de um ano com esquema vacinal completo, \u201co comportamento \u00e9 o mesmo, ou seja, houve evolu\u00e7\u00e3o de 32,2%, em 2023, para 57,8%, em 2025, mas esse indicador ainda \u00e9 muito baixo, deixando uma quantidade grande de crian\u00e7as sem receber todas as doses necess\u00e1rias\u201d, analisa.<\/p>\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o tem um papel essencial na primeira inf\u00e2ncia. \u00c9 nesta fase da vida que o sistema imunol\u00f3gico est\u00e1 em pleno desenvolvimento, tornando os beb\u00eas mais vulner\u00e1veis a infec\u00e7\u00f5es graves. Doen\u00e7as como a coqueluche, sarampo e meningite t\u00eam capacidade de evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida nessa fase da vida, sendo capaz de levar a interna\u00e7\u00f5es, sequelas permanentes e at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Profissionais do Centro de Atendimento Integrado \u00e0 Crian\u00e7a Yanomami e Ye\u00b4kwana (CAICYY), unidade do governo federal implantada em Boa Vista, atendem de forma multidisciplinar os ind\u00edgenas em tratamento na capital, fora das aldeias. A unidade visa\u00a0 \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social e \u00e0 garantia de direitos por meio de uma equipe para, sobretudo, respeitar a cultura em casos de intuba\u00e7\u00e3o e mortes.<\/p>\n<p>A assistente social Jackline Costa, coordenadora-geral do CAICYY, corrobora com a avalia\u00e7\u00e3o de Mariana Fragata. Ind\u00edgena do povo Wapichana, a profissional critica a cobertura vacinal nas comunidades da TIY e o rastreio da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, a coqueluche s\u00f3 \u00e9 identificada tardiamente, quando a crian\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 em estado muito avan\u00e7ado, e ela acaba n\u00e3o resistindo devido \u00e0 falta de atendimento b\u00e1sico de sa\u00fade. Precisamos levar essas informa\u00e7\u00f5es adiante para avan\u00e7ar na garantia dos direitos b\u00e1sicos da crian\u00e7a, que s\u00e3o uma responsabilidade de todos n\u00f3s\u201d, ressalta. \u201cEstamos falando da aus\u00eancia de vacinas em territ\u00f3rios como forma de garantir a vida.\u201d<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Cobertura vacinal do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong><\/h2>\n<p>A reportagem do N\u00f3s, Mulheres da Periferia levantou dados do <a href=\"https:\/\/infoms.saude.gov.br\/extensions\/SEIDIGI_DEMAS_VACINACAO_CALENDARIO_NACIONAL_COBERTURA_RESIDENCIA\/SEIDIGI_DEMAS_VACINACAO_CALENDARIO_NACIONAL_COBERTURA_RESIDENCIA.html\">Painel de Cobertura Vacinal do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/a> sobre a cobertura vacinal dos tr\u00eas principais imunizantes de combate \u00e0 coqueluche da cidade de Manari, que fica a 355 km de Recife (PE) e que possui o menor IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano), 0,487. A cidade <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/drive\/folders\/1xJQBT1rWASBGwdxOebCseYHw04CIdFRd?usp=sharing\">possui um percentual de 128,26% de cobertura para o imunizante Penta, 93,48% para DTP e 100% para tr\u00edplice<\/a>. Ou seja, ainda que esteja em condi\u00e7\u00e3o de grande vulnerabilidade, essa localidade ainda possui \u00edndices de cobertura superiores aos da Terra Yanomami.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre esses dois cen\u00e1rios nos ajuda a entender a realidade do povo Yanomami no que se refere \u00e0 imuniza\u00e7\u00e3o. Segundo a m\u00e9dica e membro do INKI, um ecossistema de sa\u00fade que utiliza intelig\u00eancia artificial para conectar pacientes e m\u00e9dicos que atuam de forma humanizada e com cuidados \u00e9ticos, Aline Passos, \u201capesar de partilharem de vulnerabilidades semelhantes, h\u00e1 diferen\u00e7a log\u00edstica e geogr\u00e1fica entre ambos.\u201d<\/p>\n<p>Em outras palavras, em Manari, cidade na \u00e1rea urbana, \u201c\u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar coberturas mais altas porque h\u00e1 maior continuidade territorial, acesso terrestre, presen\u00e7a mais constante das equipes de sa\u00fade e maior facilidade de armazenamento e distribui\u00e7\u00e3o dos imunizantes\u201d, detalha. Por outro lado, na Terra Yanomami, \u201ch\u00e1 dificuldades de cadeia de frio, sazonalidade clim\u00e1tica e necessidade de articula\u00e7\u00e3o intercultural. Al\u00e9m disso, a vacina\u00e7\u00e3o depende da constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre equipes de sa\u00fade e lideran\u00e7as ind\u00edgenas, respeitando a autonomia e a din\u00e2mica pr\u00f3pria de cada comunidade\u201d, esmi\u00fa\u00e7a.<\/p>\n<p>O caso da Terra Yanomami, evidencia como \u201ca cobertura vacinal vai muito al\u00e9m da simples disponibilidade da vacina\u201d, avan\u00e7a Passos, que arremata, dizendo que \u201ch\u00e1 popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de grande vulnerabilidade social, mas com desafios bastante diferentes para a sa\u00fade p\u00fablica, o que exige continuamente uma abordagem multidimensional\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>Trocando em mi\u00fados, a pol\u00edtica de cobertura vacinal, assim como outras medidas de sa\u00fade devem considerar as peculiaridades dos povos Yanomami, o que envolve desafios log\u00edsticos, culturais e econ\u00f4micos diferenciados que demandam esfor\u00e7os adequados para serem superados.<\/p>\n<p>Ouvimos J\u00fanior Hekurari, integrante do povo Yanomami, considerando os princ\u00edpios culturais que regem a forma de organiza\u00e7\u00e3o social da etnia, que atribui aos homens o papel de exercer a lideran\u00e7a e de atuar como porta \u2013 vozes do povo.J\u00fanior, presidente da Urihi, organiza\u00e7\u00e3o que atua pela defesa dos direitos dos povos Yanomami, afirma que \u201co epis\u00f3dio da coqueluche exp\u00f5e como o Estado brasileiro ainda falha em assegurar o b\u00e1sico para a Terra Yanomami.\u201d Ele tamb\u00e9m considera que, <strong>\u201cmesmo com a ampla propaganda sobre a vacina\u00e7\u00e3o, \u00e9 a gente que bota a vacina dentro do territ\u00f3rio.\u201d<\/strong><\/p>\n<div class=\"post-image my-5 mx-auto mw-100\">\n            <picture><source media=\"(max-width: 799px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-III.jpg\"><source media=\"(min-width: 800px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-III.jpg\"><\/source><\/source><\/picture>\n<\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Impacto do surto na aldeia<\/strong><\/h2>\n<p>J\u00fanior Hekurari Yanomami afirma que o relato de Laura e sua filha \u00e9 reflexo de um grande gargalo, cujo nome \u00e9: \u201cneglig\u00eancia institucional\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o l\u00edder Yanomami, a popula\u00e7\u00e3o lidou com a enfermidade \u201ccom dificuldade e medo\u201d por desconhecer a doen\u00e7a, o que \u201ccausou sofrimento \u00e0s m\u00e3es, pais e a toda a comunidade\u201d, detalha.<\/p>\n<p>Diante do luto e da incerteza, as associa\u00e7\u00f5es (Hutukara \u2013 organiza\u00e7\u00e3o presidida por Davi Kopenawa \u2013 e Urihi) acionaram o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a Secretaria de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai) e o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, exigindo respostas. Segundo as lideran\u00e7as, a trag\u00e9dia foi provocada pela falta de imuniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o povo Yanomami, lidar com doen\u00e7as \u00e9 algo delicado. Isso se deve ao fato de que as xawaras, como eles chamam as enfermidades, virem dos brancos, os nap\u00ebp\u00eb. Por isso, muitos precisam realizar rituais espirituais para conhecer a origem do problema. Durante a epidemia de Covid- 19, os xam\u00e3s Yanomami viajaram em esp\u00edrito at\u00e9 a China para identificar a origem do mal.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, \u00e9 comum eles relatarem a ang\u00fastia de lidar com a enfermidade sem conhecimento do que se trata. Na cultura Yanomami, as crian\u00e7as s\u00e3o consideradas como seres em constru\u00e7\u00e3o, que precisam de v\u00e1rios rituais para ficarem completas. Elas n\u00e3o recebem praticamente nenhum tipo de castigo f\u00edsico, justamente por serem consideradas em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os primeiros seis anos de vida<\/strong><\/h2>\n<p>A primeira inf\u00e2ncia Yanomami \u00e9 marcada pela liberdade. A floresta \u00e9 o playground delas. Elas brincam de barco, com diversos tipos de madeira, imitam avi\u00f5es, usando v\u00e1rios tipos de h\u00e9lice, folhas, graveto e fogo. As crian\u00e7as s\u00e3o criadas de forma muito livre.<\/p>\n<p>J\u00e1 nesta fase da vida, elas aprendem a desempenhar as atividades essenciais \u00e0 sobreviv\u00eancia. Desde cedo t\u00eam a mira com arco e flecha, os meninos aperfei\u00e7oam a habilidade ainda bem pequenos, capazes de atingir uma ca\u00e7a rapidamente.<\/p>\n<p>Garantir que o servi\u00e7o de sa\u00fade vai estar presente, assegurando esse desenvolvimento com seguran\u00e7a, ainda \u00e9 um desafio para esse povo. Marina Fragata destaca que \u201ch\u00e1 dificuldade de acesso tanto da parte das equipes de sa\u00fade, que n\u00e3o conseguem chegar \u00e0s comunidades, assim como das pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es, que, em busca de atendimento, chegam a percorrer longas horas de viagem a p\u00e9, de barco ou com outro tipo de transporte\u201d, explica.<\/p>\n<div class=\"post-image my-5 mx-auto mw-100\">\n            <picture><source media=\"(max-width: 799px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-V.jpg\"><source media=\"(min-width: 800px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-V.jpg\"><\/source><\/source><\/picture>\n<\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Reflexos de um problema nacional<\/strong><\/h2>\n<p>A queda na cobertura vacinal \u00e9 um problema nacional, que se iniciou em 2015. Cinco anos mais tarde, durante a pandemia, a situa\u00e7\u00e3o foi acentuada de tal forma que os dez imunizantes espec\u00edficos da primeira inf\u00e2ncia tiveram cobertura inferior \u00e0 registrada em 2019, conforme mostrou a pesquisa <a href=\"https:\/\/fundacaomariacecilia.org.br\/en\/biblioteca\/impactos-covid-2022\/\"><strong><em>\u201c<\/em><\/strong><strong>Desigualdade e Impactos da Covid-19 na aten\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira inf\u00e2ncia\u201d (2022)<\/strong><\/a><strong>,<\/strong> realizada pela Funda\u00e7\u00e3o Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Ita\u00fa Social e o UNICEF, e com apoio da UNDIME e do CONGEMAS.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as na fase entre os dois e seis meses de vida devem ter acesso gratuito \u00e0s vacinas contra poliomielite, difteria, t\u00e9tano e coqueluche, al\u00e9m de doen\u00e7as como viroses com sintomas de diarreia e v\u00f4mito; tamb\u00e9m pneumonia, sepse, meningite, entre outras. Ou seja, um pacote completo para combater as doen\u00e7as que mais amea\u00e7am a primeira inf\u00e2ncia. Se h\u00e1 queda na imuniza\u00e7\u00e3o, o reflexo para o p\u00fablico infantil \u00e9 severo.<\/p>\n<p>Segundo Fragata, a pesquisa<strong> <\/strong><a href=\"https:\/\/fundacaomariacecilia.org.br\/en\/biblioteca\/impactos-covid-2022\/\"><strong><em>\u201c<\/em><\/strong><strong>Desigualdade e Impactos da Covid-19 na aten\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira inf\u00e2ncia\u201d (2022)<\/strong><\/a> revela que a BCG tinha cobertura de 86,6% em 2021\u201d, mas caiu para 68,6%. J\u00e1 a poliomielite foi de 84,1% para 69,4% no per\u00edodo. A meta do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para cobertura desses imunizantes \u00e9 90% e 95%, respectivamente.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com a especialista, essa queda trouxe consequ\u00eancias para o pa\u00eds, \u201co Brasil perdeu o certificado de pa\u00eds livre de sarampo em 2019 devido \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o e ao aumento da doen\u00e7a. Foi recertificado em novembro de 2024, mas os indicadores seguem estando muito pr\u00f3ximos do m\u00ednimo necess\u00e1rio\u201d, conclui.<\/p>\n<div class=\"post-image my-5 mx-auto mw-100\">\n            <picture><source media=\"(max-width: 799px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-IV.jpg\"><source media=\"(min-width: 800px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-IV.jpg\"><\/source><\/source><\/picture>\n<\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Outros indicadores<\/strong><\/h2>\n<p>A reportagem do N\u00f3s obteve, por meio da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o (LAI) <a href=\"https:\/\/docs.google.com\/spreadsheets\/d\/1-XnzchNY3_lEuBfJu5HUS6UXjO3HqrK-\/edit?gid=343084415#gid=343084415\">dados<\/a> sobre a cobertura de servi\u00e7os b\u00e1sicos voltados \u00e0 primeira inf\u00e2ncia, que, ao lado da vacina\u00e7\u00e3o, cumprem papel decisivo no combate \u00e0 mortalidade infantil. A s\u00e9rie hist\u00f3rica, que compreende os anos de 2020 a 2025, revela a evolu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com idade de 0 a 6 anos e de crian\u00e7as menores de um ano com ao menos uma consulta realizada.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as na primeira inf\u00e2ncia na TI Yanomami aumentou em 1.770 habitantes, saindo de 7.968, em 2020, para 8.738, em 2025, dizem os dados.<\/p>\n<p>Em 2022, um ano antes de eclodir a crise sanit\u00e1ria na imprensa, foi registrado o menor percentual (67,3%) de crian\u00e7as menores de um ano com alguma consulta. Os demais anos com os percentuais mais baixos foram 2020, com 71,8%, e 2024, com 79%. Por outro lado, em n\u00fameros absolutos, 2023, ano em que a crise sanit\u00e1ria veio a p\u00fablico, teve registradas 1.009 consultas, o n\u00famero mais alto da s\u00e9rie hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Em outros indicadores de sa\u00fade, h\u00e1 uma tend\u00eancia de que as crian\u00e7as ind\u00edgenas tenham desvantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s n\u00e3o ind\u00edgenas. \u201cQuando as causas s\u00e3o relacionadas a doen\u00e7as do aparelho respirat\u00f3rio, doen\u00e7as infecciosas e parasit\u00e1rias ou doen\u00e7as end\u00f3crinas, nutricionais e metab\u00f3licas, a propor\u00e7\u00e3o de mortes entre n\u00e3o ind\u00edgenas \u00e9 de apenas 14%, enquanto entre os ind\u00edgenas sobe para 38%\u201d, explica Fragata, citando dados do DataSUS.<\/p>\n<div class=\"post-image my-5 mx-auto mw-100\">\n            <picture><source media=\"(max-width: 799px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-VII.jpg\"><source media=\"(min-width: 800px)\" srcset=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EDITADA-VII.jpg\"><\/source><\/source><\/picture>\n<\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h2>\n<p>Medidas envolvendo refor\u00e7o nos servi\u00e7os de sa\u00fade e melhoria na comunica\u00e7\u00e3o podem ampliar a cobertura vacinal, diz a especialista da Funda\u00e7\u00e3o Maria Cec\u00edlia Souto Vidigal. No aspecto estrutural, ela recomenda a \u201camplia\u00e7\u00e3o das equipes de sa\u00fade ind\u00edgena e fluvial, o fortalecimento dos Distritos Sanit\u00e1rios Especiais Ind\u00edgenas (DSEIs) e a oferta de vacina\u00e7\u00e3o extramuros e o uso de unidades m\u00f3veis, barcos e aeronaves para alcan\u00e7ar aldeias isoladas\u201d, frisa.<\/p>\n<p>A especialista refor\u00e7a que a desinforma\u00e7\u00e3o, que promove a hesita\u00e7\u00e3o vacinal, ainda precisa ser combatida e que as lideran\u00e7as da comunidade t\u00eam papel relevante neste sentido. \u201cA ades\u00e3o \u00e0 vacina aumenta quando a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitida por pessoas e lideran\u00e7as da pr\u00f3pria comunidade, em l\u00edngua local e respeitando aspectos culturais espec\u00edficos\u201d, justifica.<\/p>\n<p>Por fim, ela considera eficiente acompanhar \u201ca condicionalidade da vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena benefici\u00e1ria do Bolsa Fam\u00edlia\u201d, o que pode gerar impactos positivos.<\/p>\n<p>Por fim, o representante da etnia considera que \u201co medo n\u00e3o passou porque a emerg\u00eancia continua ativa.\u201d O que mudou, na verdade, foi a engrenagem que move a assist\u00eancia de sa\u00fade no territ\u00f3rio, hoje operando sob a l\u00f3gica reativa do esc\u00e2ndalo p\u00fablico. \u201c<strong>Quando estamos gritando sozinhos, fazendo of\u00edcio, eles n\u00e3o levantam da cadeira de ar-condicionado. Assim que sai nos jornais, v\u00e3o se mexer igual a bombeiro, para apagar o fogo<\/strong>. Apagou, dizem: \u2018resolvemos&#8217;\u201d, critica Hekurari.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Outro lado do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong><\/h2>\n<p>O governo federal, por meio do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, sustentou em nota que a \u201cvacina\u00e7\u00e3o \u00e9 a principal medida de controle da coqueluche e, aliada \u00e0s altas coberturas vacinais, ao diagn\u00f3stico r\u00e1pido e ao tratamento precoce, contribui para a redu\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e para a prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Questionado pelo N\u00f3s sobre quais condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, sanit\u00e1rias e de infraestrutura contribuem para o avan\u00e7o da coqueluche na TIY, a pasta n\u00e3o respondeu detalhadamente, se limitando a afirmar que \u201cfatores ambientais, sanit\u00e1rios e estruturais favorecem a dissemina\u00e7\u00e3o da coqueluche, especialmente entre crian\u00e7as pequenas.\u201d<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas previstas para a primeira inf\u00e2ncia Yanomami, o MS informou que est\u00e1 implantando um m\u00f3dulo de Monitoramento do Desenvolvimento na Inf\u00e2ncia Ind\u00edgena no Sistema de Informa\u00e7\u00e3o da Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade Ind\u00edgena (SIASI). \u201cA ferramenta permite acompanhar crian\u00e7as de 0 a 10 anos, ajudando as equipes a identificar precocemente atrasos no desenvolvimento, sinais de autismo, dificuldades de crescimento, situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e outros agravos\u201d, diz a nota.<\/p>\n<p>A pasta tamb\u00e9m citou a cria\u00e7\u00e3o do Guia de Fortalecimento do Cuidado \u00e0 Sa\u00fade da Crian\u00e7a Ind\u00edgena Menor de 5 anos. O documento, segundo a assessoria de imprensa do Minist\u00e9rio, foi constru\u00eddo \u201cem di\u00e1logo com as Equipes Multiprofissionais de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Emsi), lideran\u00e7as e especialistas das medicinas ind\u00edgenas\u201d para \u201cunir conhecimento t\u00e9cnico e saberes tradicionais para promover sa\u00fade, prevenir doen\u00e7as e ampliar o bem-viver das crian\u00e7as nos territ\u00f3rios.\u201d<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o afirma ainda que as medidas fazem parte de um \u201cesfor\u00e7o cont\u00ednuo\u201d para garantir mais \u201ccuidado, prote\u00e7\u00e3o e qualidade de vida desde os primeiros anos de vida\u201d, finaliza a resposta.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/cobertura-vacinal-abaixo-da-meta-expoe-criancas-yanomami-a-coqueluche\/\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laura Yanomami chegou ao hospital no dia 6 de mar\u00e7o com a filha de quatro meses no colo. Desde ent\u00e3o, a rotina virou espera e ang\u00fastia. Por semanas, ela voltava sozinha para a Casa de Apoio \u00e0 Sa\u00fade Ind\u00edgena (Casai), enquanto a beb\u00ea permanecia internada. 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