{"id":29321,"date":"2026-05-20T14:10:06","date_gmt":"2026-05-20T17:10:06","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29321"},"modified":"2026-05-20T14:10:06","modified_gmt":"2026-05-20T17:10:06","slug":"mulheres-negras-seguem-no-centro-da-inseguranca-alimentar-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29321","title":{"rendered":"Mulheres negras seguem no centro da inseguran\u00e7a alimentar no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p>Quase 4 em cada 10 lares chefiados por mulheres negras conviviam com algum n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar em 2023. O dado faz parte do estudo <em><a aria-label=\" (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/fianbrasil.org.br\/publicacao\/as-faces-da-desigualdade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" class=\"ek-link\">As faces da desigualdade: ra\u00e7a, sexo e alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil (2017-2023)<\/a><\/em>, lan\u00e7ado nesta quinta-feira (8) pela FIAN Brasil, e evidencia como racismo e sexismo seguem determinando quem mais enfrenta dificuldades para acessar alimenta\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<div class=\"box-explicacao d-flex flex-column flex-md-row\">\n<div class=\"explicacao align-self-start mt-4 mt-md-0 mx-5 mx-md-0\">\n<p>Inseguran\u00e7a alimentar ocorre quando pessoas ou fam\u00edlias n\u00e3o conseguem garantir acesso regular e suficiente a alimentos adequados para uma vida saud\u00e1vel. O estudo utiliza a Escala Brasileira de Inseguran\u00e7a Alimentar (Ebia) para classificar essa condi\u00e7\u00e3o em tr\u00eas n\u00edveis: <strong>leve<\/strong>, quando h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o ou incerteza sobre a disponibilidade futura de alimentos; <strong>moderada<\/strong>, quando h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o na quantidade ou qualidade dos alimentos consumidos; e <strong>grave<\/strong>, quando h\u00e1 ruptura no padr\u00e3o alimentar, com pessoas deixando de comer por falta de recursos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Segundo a pesquisa, 38,5% dos domic\u00edlios chefiados por mulheres negras viviam inseguran\u00e7a alimentar em 2023 \u2014 o pior \u00edndice entre todos os grupos analisados. Na sequ\u00eancia aparecem os lares chefiados por homens negros (28,9%), mulheres brancas (22,2%) e homens brancos (15,7%).<\/p>\n<p>Entre os principais achados, o estudo tamb\u00e9m mostra que:<\/p>\n<div class=\"lista lista-bullets\">\n<h4 class=\"m-0 text-uppercase mb-3\"\/>\n<div class=\"d-flex flex-column lista__itens\">\n<div class=\"item d-flex cor-\">\n\t\t\t\t\t<i\/><\/p>\n<div class=\"texto\">\n<p>o racismo estrutura de forma persistente as desigualdades alimentares no pa\u00eds;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"item d-flex cor-\">\n\t\t\t\t\t<i\/><\/p>\n<div class=\"texto\">\n<p>a formaliza\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o garante prote\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que mulheres negras com emprego formal enfrentam n\u00edveis de fome semelhantes aos de homens brancos em trabalho informal;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"item d-flex cor-\">\n\t\t\t\t\t<i\/><\/p>\n<div class=\"texto\">\n<p>Norte e Nordeste concentram os piores indicadores, sobretudo entre domic\u00edlios chefiados por mulheres negras;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"item d-flex cor-\">\n\t\t\t\t\t<i\/><\/p>\n<div class=\"texto\">\n<p>a inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 mais frequente em \u00e1reas rurais do que urbanas;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"item d-flex cor-\">\n\t\t\t\t\t<i\/><\/p>\n<div class=\"texto\">\n<p>pessoas negras s\u00e3o maioria nos estratos de menor renda, enquanto homens brancos dominam os 10% mais ricos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O estudo analisa dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (Pnad Cont\u00ednua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), e compara os resultados com levantamentos anteriores realizados entre 2017 e 2023, incluindo as edi\u00e7\u00f5es do Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (VIGISAN).<\/p>\n<p>A pesquisa cruza informa\u00e7\u00f5es sobre alimenta\u00e7\u00e3o, ra\u00e7a, g\u00eanero, renda, trabalho e territ\u00f3rio para compreender como as desigualdades impactam diferentes grupos sociais. Embora os dados mostrem melhora geral nos indicadores de seguran\u00e7a alimentar ap\u00f3s a pandemia, <strong>as mulheres negras continuam concentrando os cen\u00e1rios mais graves em praticamente todos os recortes analisados pelo estudo.<\/strong><\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mulheres negras seguem no centro da desigualdade alimentar<\/strong><\/h3>\n<p>Para a pesquisadora Rute Ramos da Silva Costa, uma das respons\u00e1veis pela formula\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o do estudo, os resultados deixam evidente que a inseguran\u00e7a alimentar no Brasil n\u00e3o pode ser explicada apenas pela renda.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\">\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><\/figure>\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>Segundo a pesquisadora, um dos principais achados do estudo \u00e9 mostrar como a seguran\u00e7a alimentar responde diretamente \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas. A compara\u00e7\u00e3o entre os per\u00edodos analisados evidencia que programas sociais e pol\u00edticas de combate \u00e0 fome tiveram impacto concreto na melhora dos indicadores, especialmente entre a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cA seguran\u00e7a alimentar \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s pol\u00edticas. Em momentos em que houve maior investimento, os dados demonstram uma mudan\u00e7a importante\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros confirmam: entre 2021 e 2023, os lares chefiados por mulheres negras registraram uma das maiores melhorias nos indicadores de seguran\u00e7a alimentar. Segundo o estudo, esse tamb\u00e9m havia sido o grupo mais impactado nos anos anteriores, marcados pela pandemia, pela austeridade fiscal e pelo desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas de combate \u00e0 fome.<\/p>\n<p>Rute destaca que a retomada do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional CONSEA) em 2023, o fortalecimento do Bolsa Fam\u00edlia e outras pol\u00edticas sociais contribu\u00edram para a melhora nos \u00edndices, observada entre 2021 e 2023. Ainda assim, ela ressalta que os dados tamb\u00e9m mostram como mulheres negras seguem mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<blockquote class=\"\">\n<p>O racismo segue estruturando essas desigualdades. Existem pessoas que est\u00e3o sempre numa situa\u00e7\u00e3o limite, em que \u00e9 sempre preciso manter a luta porque existe uma certa instabilidade. Qualquer decis\u00e3o futura, qualquer governo futuro pode desestabilizar certas conquistas<\/p>\n<p class=\"assina m-0\">Rute Ramos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para a pesquisadora, isso evidencia que o combate \u00e0 fome precisa necessariamente enfrentar o racismo estrutural. \u201cA supera\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a alimentar n\u00e3o carece de uma vontade individual somente. Existe a necessidade das pol\u00edticas p\u00fablicas estarem comprometidas com uma mudan\u00e7a estrutural\u201d, afirma.<\/p>\n<p>De acordo com o estudo, em 2023 apenas 6 em cada 10 lares chefiados por mulheres negras estavam em seguran\u00e7a alimentar, enquanto entre os domic\u00edlios chefiados por pessoas brancas o \u00edndice chegava a 8 em cada 10. A diferen\u00e7a de 22,8 pontos percentuais refor\u00e7a como as desigualdades raciais atravessam o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outro ponto destacado por Rute \u00e9 a decis\u00e3o metodol\u00f3gica do estudo de \u201cracializar\u201d tamb\u00e9m a experi\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o branca, buscando compreender como privil\u00e9gios raciais operam na produ\u00e7\u00e3o das desigualdades alimentares. \u201cN\u00e3o \u00e9 pouca coisa organizar os dados de modo em que os brancos apare\u00e7am como ra\u00e7a. Porque isso tamb\u00e9m ajuda a gente a ler os mecanismos que privilegiam esses grupos\u201d, explica.<\/p>\n<p>Segundo ela, os dados mostram que homens e mulheres brancas permanecem em melhores condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a alimentar mesmo em cen\u00e1rios de maior vulnerabilidade econ\u00f4mica. \u201cN\u00f3s vimos uma melhora importante de seguran\u00e7a alimentar com investimento das pol\u00edticas p\u00fablicas nesses \u00faltimos tempos, mas ainda assim homens e mulheres brancas permanecem em melhores condi\u00e7\u00f5es\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Rute tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia de ouvir quem vive diariamente os impactos da inseguran\u00e7a alimentar nos territ\u00f3rios. <strong>Para ela, as pol\u00edticas p\u00fablicas precisam considerar experi\u00eancias que muitas vezes permanecem invis\u00edveis para os espa\u00e7os institucionais de decis\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cEu lembro de ouvir um relato que nunca me apareceu em outros espa\u00e7os de pesquisa: de existir na favela um grupo do WhatsApp em que as pessoas exp\u00f5em, por exemplo, uma bermuda, um short jeans e perguntam se algu\u00e9m troca esse short jeans por um quilo de feij\u00e3o. Ent\u00e3o tem uma din\u00e2mica nesse territ\u00f3rio que eu nunca vi em estudo nenhum\u201d, relata.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, essas estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia mostram como as periferias organizam redes coletivas de cuidado e acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o diante da aus\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o social suficiente. \u201cQuem est\u00e1 no territ\u00f3rio, vivenciando cotidianamente, consegue trazer organiza\u00e7\u00f5es e din\u00e2micas que n\u00e3o s\u00e3o detalhes, mas cruciais para fazer com que algu\u00e9m supere ou n\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar\u201d, afirma.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Trabalho do cuidado e precariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>D\u00e9bora Evellyn Olimpio, assessora de Direito \u00e0 Alimenta\u00e7\u00e3o da FIAN Brasil e assessora de pesquisa do Observat\u00f3rio da Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (\u00d3A\u00ca), afirma que o estudo tamb\u00e9m evidencia como mulheres negras ocupam historicamente posi\u00e7\u00f5es marcadas pela precariza\u00e7\u00e3o do cuidado e do trabalho.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, mulheres negras, estamos cuidando dos nossos entes queridos, mas tamb\u00e9m exercendo o cuidado como trabalho. Bab\u00e1s, trabalhadoras dom\u00e9sticas, cuidadoras, enfermeiras. S\u00f3 que esse trabalho \u00e9 extremamente precarizado\u201d, diz.<\/p>\n<div class=\"wp-block-media-text has-media-on-the-right is-stacked-on-mobile\">\n<div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>Segundo ela, a desigualdade alimentar est\u00e1 diretamente ligada \u00e0s estruturas de ra\u00e7a e g\u00eanero que organizam o mercado de trabalho brasileiro. A an\u00e1lise alerta que, independentemente da posi\u00e7\u00e3o ocupada no trabalho, domic\u00edlios chefiados por pessoas autodeclaradas negras apresentam maiores frequ\u00eancias de inseguran\u00e7a alimentar do que aqueles chefiados por pessoas brancas.<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"wp-block-media-text__media\"><\/figure>\n<\/div>\n<blockquote class=\"\">\n<p>Homens brancos ocupam majoritariamente os espa\u00e7os de maior renda, poder e estabilidade social, enquanto mulheres negras permanecem mais expostas \u00e0s vulnerabilidades, aos trabalhos informais, ao desemprego e \u00e0s m\u00faltiplas jornadas de trabalho<\/p>\n<p class=\"assina m-0\">D\u00e9bora Olimpio<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>D\u00e9bora destaca ainda que o levantamento refor\u00e7a a necessidade de enfrentar as desigualdades raciais e de g\u00eanero como parte do combate \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar e \u00e0 fome. \u201cMesmo com as mesmas condi\u00e7\u00f5es de renda e acesso ao trabalho, a popula\u00e7\u00e3o negra se mant\u00e9m em situa\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a alimentar. O racismo e o sexismo atravessam essa condi\u00e7\u00e3o\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Para aprofundar a compreens\u00e3o sobre como ra\u00e7a, g\u00eanero, renda e territ\u00f3rio estruturam as desigualdades no acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil, a \u00edntegra do estudo As Faces da Desigualdade: ra\u00e7a, sexo e alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil (2017-2023) est\u00e1 dispon\u00edvel no site da FIAN Brasil. <\/p>\n<p>A leitura completa pode ser feita em: <em><a href=\"https:\/\/fianbrasil.org.br\/publicacao\/as-faces-da-desigualdade\/\" target=\"_blank\" aria-label=\" (opens in a new tab)\" rel=\"noreferrer noopener\" class=\"ek-link\">As faces da desigualdade: ra\u00e7a, sexo e alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil (2017-2023)<\/a><\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/mulheres-negras-seguem-no-centro-da-inseguranca-alimentar-no-brasil\/\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase 4 em cada 10 lares chefiados por mulheres negras conviviam com algum n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar em 2023. 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