{"id":29319,"date":"2026-05-20T14:03:34","date_gmt":"2026-05-20T17:03:34","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29319"},"modified":"2026-05-20T14:03:34","modified_gmt":"2026-05-20T17:03:34","slug":"a-advogada-que-transformou-a-noite-em-marcha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldrysousa.com.br\/?p=29319","title":{"rendered":"a advogada que transformou a noite em Marcha"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p>Maria da Penha Santos Lopes Guimar\u00e3es foi uma advogada e militante do movimento negro que ajudou a transformar a cr\u00edtica \u00e0 falsa ideia de liberdade ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o em ocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das ruas de S\u00e3o Paulo. Uma das principais articuladoras da Marcha Noturna pela Democracia Racial, criada em 1997, ela defendia que o 13 de Maio n\u00e3o deveria ser tratado apenas como uma data de celebra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de reflex\u00e3o sobre as perman\u00eancias do racismo no Brasil.<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, oficializada em 13 de maio de 1888 com a assinatura da Lei \u00c1urea, extinguiu legalmente o sistema escravista, mas n\u00e3o garantiu terra, moradia, educa\u00e7\u00e3o, trabalho ou qualquer pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o negra rec\u00e9m-liberta ap\u00f3s mais de 300 anos de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem apoio do Estado, milh\u00f5es de pessoas negras continuaram vivendo em condi\u00e7\u00f5es de pobreza, exclus\u00e3o e viol\u00eancia. Foi a partir dessa compreens\u00e3o sobre a chamada \u201caboli\u00e7\u00e3o inacabada\u201d que Maria da Penha ajudou a construir a Marcha Noturna pela Igualdade Racial, na v\u00e9spera do 13 de Maio, transformando a data em um momento de den\u00fancia, mem\u00f3ria e resist\u00eancia negra.<\/p>\n<p>Ela fez parte de uma gera\u00e7\u00e3o de mulheres negras que atuava simultaneamente nas ruas, nos movimentos sociais e nas institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas. De acordo com <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DJj525oMbDX\/\">informa\u00e7\u00f5es reunidas<\/a> pelo Sindicato das Advogadas e Advogados do Estado de S\u00e3o Paulo (SASP), ela atuou no Sindicato e na Associa\u00e7\u00e3o dos Advogados Trabalhistas de S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m integrou a Ordem dos Advogados do Brasil de S\u00e3o Paulo (OAB-SP), onde foi conselheira e presidente da Comiss\u00e3o do Negro e Assuntos Antidiscriminat\u00f3rios, al\u00e9m de participar da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade da Escravid\u00e3o Negra no Brasil.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o da Marcha Noturna pela Igualdade Racial<\/strong><\/h3>\n<div class=\"nos-galeria position-relative my-5\">\n<div class=\"d-flex\">\n<div class=\"gal-ajuste mt-3 mt-md-0\">\n<p class=\"titulo m-0 text-uppercase mb-2\">GALERIA <span class=\"here\">1<\/span>\/2<\/p>\n<div class=\"nos-galeria__slider\">\n<div class=\"slide\">\n<div class=\"text-center\">\n                                <picture><\/picture>\n                            <\/div>\n<\/div>\n<div class=\"slide\">\n<div class=\"text-center\">\n                                <picture><\/picture>\n                            <\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Criada em 1997, em S\u00e3o Paulo, a Marcha Noturna pela Democracia Racial surgiu da articula\u00e7\u00e3o do Instituto do Negro Padre Batista (INPB), em di\u00e1logo com lideran\u00e7as do movimento negro e da Pastoral Afro-brasileira, entre elas o Padre Jos\u00e9 Enes de Jesus e a advogada Maria da Penha Guimar\u00e3es, apontada pelas pesquisas como uma das principais idealizadoras e impulsionadoras da mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A proposta era diferente do que o movimento negro costumava fazer naquele per\u00edodo. Enquanto a maioria dos protestos acontecia durante o dia, buscando visibilidade p\u00fablica imediata, a marcha propunha uma caminhada noturna pela cidade, na v\u00e9spera do 13 de Maio. Desde ent\u00e3o, o ato acontece em 12 de maio, transformando a data oficial da aboli\u00e7\u00e3o em um momento de den\u00fancia, mem\u00f3ria e reflex\u00e3o sobre aquilo que movimentos negros chamam de \u201caboli\u00e7\u00e3o inacabada\u201d.<\/p>\n<p>A proposta n\u00e3o foi recebida sem resist\u00eancia. Na tese \u201c<a href=\"https:\/\/dcp.uff.br\/wp-content\/uploads\/sites\/327\/2020\/10\/Tese-de-2017-Fernanda-Barros-Santos.pdf\">Estado e movimentos negros (1980-2010): coopera\u00e7\u00e3o, contesta\u00e7\u00e3o ou autonomia?<\/a>\u201d, a historiadora Fernanda Barros dos Santos mostra que parte dos militantes questionava a realiza\u00e7\u00e3o de um ato noturno, avaliando que ele teria pouca visibilidade p\u00fablica. Tamb\u00e9m havia cr\u00edticas \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o calend\u00e1rio do 13 de Maio, historicamente contestado por setores do movimento negro por refor\u00e7ar uma narrativa oficial da aboli\u00e7\u00e3o. Ainda assim, Maria da Penha e outras lideran\u00e7as seguiram construindo a proposta.<\/p>\n<p>A tese tamb\u00e9m explica que, no in\u00edcio, o trajeto sa\u00eda da Rua do Carmo e reunia associa\u00e7\u00f5es negras, terreiros de candombl\u00e9, irmandades religiosas, sindicatos, parlamentares e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. Com o passar do tempo, a marcha passou a incorporar ainda mais elementos simb\u00f3licos e espirituais.<\/p>\n<p>Desde sua retomada, em 2019, o cortejo sai da Pra\u00e7a da Liberdade, territ\u00f3rio profundamente marcado pela viol\u00eancia da escravid\u00e3o. Ali funcionaram a forca, o pelourinho e o Cemit\u00e9rio dos Aflitos \u2014 considerado o primeiro cemit\u00e9rio p\u00fablico da cidade e destinado principalmente a pessoas escravizadas, pobres e marginalizadas.<\/p>\n<p>Vestidos de preto, os participantes seguem pelas ruas carregando tochas e velas, ao som de tambores, pontos de ax\u00e9, rezas e cantos ancestrais. A espiritualidade negra ocupa o espa\u00e7o p\u00fablico como parte central da mobiliza\u00e7\u00e3o. Mais do que um protesto, a marcha se consolidou como um ritual pol\u00edtico de mem\u00f3ria e resist\u00eancia.<\/p>\n<p>O estudo descreve a mobiliza\u00e7\u00e3o como um \u201cnovo perfil de protesto negro\u201d, justamente porque ela articulava institucionalidade, ancestralidade, religiosidade afro-brasileira e ocupa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da cidade.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria OAB teve papel importante em determinados momentos da consolida\u00e7\u00e3o do ato. A pesquisa mostra que a entidade ofereceu apoio estrutural e pol\u00edtico \u00e0 marcha, que em alguns anos passou a sair da pr\u00f3pria sede da OAB-SP.<\/p>\n<p>Realizada continuamente at\u00e9 2010, a Marcha Noturna pela Democracia Racial passou por um per\u00edodo de desmobiliza\u00e7\u00e3o antes de ser retomada em 2019. Desde ent\u00e3o, ampliou sua rede de apoiadores e voltou a reunir coletivos, associa\u00e7\u00f5es, mandatos parlamentares e organiza\u00e7\u00f5es do movimento negro.<\/p>\n<p>Ao longo de mais de duas d\u00e9cadas, a marcha se consolidou como um dos marcos da luta negra em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o se trata apenas de caminhar pela cidade, mas de ressignificar a noite que antecede o 13 de Maio como tempo de mem\u00f3ria, espiritualidade, den\u00fancia e reivindica\u00e7\u00e3o da liberdade plena da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O legado que segue em movimento<\/strong><\/h3>\n<p>Al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o da marcha, Maria da Penha Guimar\u00e3es teve atua\u00e7\u00e3o importante na organiza\u00e7\u00e3o da advocacia negra dentro das institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas paulistas. Estudos sobre sua trajet\u00f3ria mostram que ela participou da articula\u00e7\u00e3o de advogados negros na OAB e da cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os voltados ao enfrentamento do racismo institucional.<\/p>\n<p>Sua leitura sobre o Judici\u00e1rio brasileiro aparece de forma direta em uma entrevista \u00e0 <em>Folha de S.Paulo<\/em> citada na tese de Fernanda Barros dos Santos sobre racismo institucional.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O Poder Judici\u00e1rio reflete a sociedade brasileira, e a sociedade n\u00e3o reconhece que h\u00e1 discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pr\u00eamio Maria da Penha Santos Lopes Guimar\u00e3es<\/strong><\/h3>\n<p>Maria da Penha Guimar\u00e3es faleceu em 2016. Mas sua trajet\u00f3ria continua sendo lembrada n\u00e3o apenas pela marcha, mas tamb\u00e9m pela cria\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.migalhas.com.br\/agenda\/430226\/iv-premio-penha-guimaraes\">Pr\u00eamio Maria da Penha Santos Lopes Guimar\u00e3es<\/a>, organizado pelo SASP.<\/p>\n<p>A premia\u00e7\u00e3o homenageia pessoas, organiza\u00e7\u00f5es e movimentos comprometidos com a justi\u00e7a racial, fortalecimento da advocacia negra e enfrentamento ao racismo. Entre os homenageados recentes est\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es como a Associa\u00e7\u00e3o Nacional da Advocacia Negra (ANAN), o coletivo Black Sisters in Law (BSL), a Marcha das Mulheres Negras de S\u00e3o Paulo e a UNEGRO, al\u00e9m de intelectuais, militantes e lideran\u00e7as religiosas negras.<\/p>\n<p>O pr\u00eamio ajuda a manter viva uma dimens\u00e3o importante do legado de Maria da Penha: a defesa da presen\u00e7a negra \u2014 especialmente de mulheres negras \u2014 nos espa\u00e7os jur\u00eddicos, pol\u00edticos e institucionais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sua trajet\u00f3ria mostra como a luta antirracista tamb\u00e9m \u00e9 feita de elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. De mem\u00f3ria. De ocupa\u00e7\u00e3o coletiva da cidade. E da insist\u00eancia em transformar caminhos antes interditados em espa\u00e7os de presen\u00e7a negra cont\u00ednua.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"http:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/maria-da-penha-guimaraes-a-advogada-que-transformou-a-noite-em-marcha\/\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria da Penha Santos Lopes Guimar\u00e3es foi uma advogada e militante do movimento negro que ajudou a transformar a cr\u00edtica \u00e0 falsa ideia de liberdade ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o em ocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das ruas de S\u00e3o Paulo. 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